Os riscos de uma hegemonia da extrema-direita e o papel do engajamento popular nas semanas finais da eleição.
O cenário das eleições presidenciais está assentado sobre uma grande zona de indeterminação. O empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro e as análises das linhas de evolução das intenções de voto de todos os candidatos e das médias e das medianas de cada um mostram as hipóteses de três desfechos possíveis: um segundo turno, a vitória de Lula no primeiro turno e a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Com esse cenário, alguns fatores serão decisivos para definir qual desfecho se concretizará: o movimento do voto útil, as definições dos indecisos e o índice de abstenção. Esses fatores e os acontecimentos a eles adjacentes se moverão de acordo com a capacidade de cada campanha incidir sobre eles.
Além das estratégias políticas de defesa, de ataque e de proposição, a capacidade que as campanhas terão de mobilizar ativismo, militância, empatia e engajamento serão elementos definidores para promover movimentos favoráveis ou desfavoráveis dos fatores decisivos.
As últimas semanas foram marcadas por uma recuperação e estabilização das intenções de voto em Flávio Bolsonaro e uma lenta queda na avaliação do governo e nas intenções de voto em Lula. A crise do STF e o defensivismo, a abstração e a ineficiência da campanha de Lula eram os fatores que mais determinavam esse processo. A campanha de Flávio conseguiu criar um ambiente de vitória, enquanto no lado lulista havia preocupação e apatia.
Na última semana, no entanto, ocorreram mudanças significativas de ambientes que reequilibraram a disputa, melhorando as condições da campanha de Lula. A primeira mudança ocorreu no dia 15 de setembro, no confronto do STF. A forte reação dos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes impediu que Flávio Bolsonaro e André Mendonça saíssem vitoriosos do confronto para abrir investigação contra Moraes.
Ao contrário do que pensa “o entorno de Lula”, se Moraes fosse processado representaria uma grande vitória para Flávio, que a cantaria em prosa e verso, faturando eleitoralmente. Ao adotar a estratégia fabiana de postergação da decisão com o pedido de vista, Dino permitiu que se abrisse uma guerra pública de desgaste contra Mendonça e seus aliados Nunes Marques e Fux, que passaram a ser suspeitos de relações escusas com Vorcaro. O desgaste da propalada aliança Lula-Moraes foi sendo diluído. Alexandre de Moraes deixou de ser o único gato pardo na noite do STF e a militância de esquerda ganhou argumentos para atacar Flávio, Mendonça e seus aliados.
Duas outras medidas também contribuíram para melhorar as condições da campanha lulista. A primeira veio da própria campanha. O defensivismo cedeu em favor do aumento do ataque a Flávio, e a propaganda de rádio e TV sofreu um freio de arrumação centrado, agora, mais em propostas concretas, com a redução de temas generalistas e abstratos como soberania, terras raras, crise do STF, legislação, emendas constitucionais, saudosismo do passado…
A mudança de tom da campanha veio acompanhada também pelo pacote de bondades: fim da taxa das blusinhas, reajuste do Bolsa Família, canetas emagrecedoras no SUS, crítica às bets, nova fase do Desenrola 2.0 e novas linhas de crédito para o agro e para a indústria. Mas a campanha precisa melhorar ainda mais, tanto na forma quanto no conteúdo.
O risco da vitória de Flávio, contudo, permanece real. É preciso projetar as consequências desse risco para além dos próximos quatro anos. Uma vitória de Flávio abre a perspectiva de uma longa hegemonia da extrema-direita, de 15 a 20 anos.
O próximo Congresso poderá ser mais conservador do que o atual. Se eleito, Flávio terá a possibilidade de indicar quatro ou cinco ministros do Supremo. Controlaria tanto o Congresso quanto o STF. Não teria nenhuma barreira de contenção. Poderia adotar medidas autoritárias sem a necessidade de apelar para os militares, sem dar um golpe clássico. Além de poder concorrer à reeleição com Flávio, a extrema-direita teria um estoque significativo de novas lideranças em projeção ou projetadas. Seria o corolário do triunfo do trumpismo e da extrema-direita na América do Sul.
As esquerdas sairiam enfraquecidas e fragmentadas da derrota, sem poder contar com Lula como coringa para eleições futuras. Além disso, teriam dificuldade de superar dois outros problemas. Por um lado, sofrem uma carência de lideranças nacionais significativas, enfraquecendo suas capacidades competitivas eleitorais. Por outro, estão extraviadas, perdidas, em termos de ideário, de narrativa, de ideologia. Perderam capacidade de convencimento, de persuasão e de inovação. A vitória de Lula lhes daria tempo e condições para enfrentar esses problemas e promover uma transição geracional.
É preciso ter consciência desses riscos para estabelecer a importância estratégica dessas eleições para o Brasil, para a América Latina e para o futuro. Essa consciência deve estabelecer o imperativo de que a vitória de Lula é uma necessidade e um dever absolutos. Esse imperativo deve dimensionar a responsabilidade de Lula, do comando da campanha, dos dirigentes dos partidos de esquerda, dos candidatos aos outros cargos eleitorais e da militância e do ativismo progressista e de esquerda.
Lula precisa fazer um urgente pronunciamento, forte e contundente, chamando a atenção para os riscos do momento para o Brasil e para o futuro, e fazendo uma convocação, uma conclamação, para que todos se mobilizem na tarefa de construir a vitória. É preciso que a campanha se torne mais empolgante, disseminadora de engajamento e entusiasmo.
Cada um de nós deve se deixar tomar e se mover por dois sentimentos: temor e esperança. Temor do advento de uma tragédia política prolongada. Esperança de que é possível evitá-la e que isto depende de cada um e de todos.
A campanha de Lula deveria ser capaz de criar uma estratégia de mobilização total nestas duas últimas semanas. Uma estratégia de ocupação de todos os espaços, físicos e virtuais. Uma estratégia de saturação de espaços com mensagens criativas e engajadoras.
As organizações da sociedade civil, os movimentos sociais e a militância podem jogar um papel decisivo na definição dessas eleições. Com sua mobilização, podem definir o lado para o qual penderá a maioria dos indecisos, podem ter um impacto importante na redução das abstenções principalmente nos setores sociais em que atuam e podem influenciar o destino e a amplitude do voto útil. As lideranças dessas organizações e movimentos precisam tomar para si a responsabilidade e a missão de desencadear essa onda de engajamento e mobilização capaz de garantir a vitória.
FOTO: Ricardo Stuckert
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-hora-decisiva-da-sociedade-civil-e-da-militancia/