Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

A invasão chinesa nas máquinas agrícolas: o que aconteceu com os carros já começou no agro

O que aconteceu com os automóveis está começando a acontecer com as máquinas agrícolas. E poucos no agronegócio brasileiro estão prestando atenção no tamanho disso.

Vale a pena olhar os números com calma, porque eles contam uma história que já vimos antes — e que terminou com fábricas chinesas em Camaçari e em Iracemápolis.

O recorde nos tratores

O Brasil importou 14.985 tratores apenas no primeiro semestre de 2026. É mais do que o país importou em todo o ano de 2025. O volume vindo da China cresce a 86% ao ano e já responde por 67% de tudo que entra no país nessa categoria.

Dois terços das importações de tratores do maior produtor agrícola tropical do mundo vêm hoje de um único fornecedor. Não é uma tendência incipiente. É uma mudança de patamar que já ocorreu, enquanto o setor discutia outras coisas.

Zero fábricas — por enquanto

Nenhuma montadora chinesa de tratores tem fábrica operando no Brasil hoje. Esse “hoje” é a palavra importante da frase.

A YTO já anunciou uma planta em Pernambuco. A Zoomlion mira o Centro-Oeste. A Foton Lovol negocia em Goiás. Quem acompanhou a chegada dos carros elétricos reconhece a coreografia imediatamente: primeiro testar o mercado com importação, depois montar a rede de distribuição e assistência técnica, e só então nacionalizar a produção. A sequência é sempre a mesma, e ela funciona porque cada etapa financia a seguinte.

Quando a fábrica é anunciada, a disputa comercial já foi vencida. A planta industrial é a consolidação de uma posição conquistada antes, não o começo da investida.

A vantagem de custo é estrutural

Aqui está o ponto que mais incomoda quem defende soluções puramente tarifárias: estamos falando de uma vantagem de custo de até 27% em relação à produção nacional, com descontos de 30% a 40% já praticados por marcas como a YTO.

Isso não é dumping oportunista. É escala industrial, preço do aço e custo de mão de obra jogando a favor da China. Um país que produz mais da metade do aço do planeta, que consolidou uma cadeia de componentes densa e que trata máquinas agrícolas como setor estratégico de política industrial não precisa vender abaixo do custo para ganhar mercado. Ele ganha mercado no custo.

A diferença é crucial. Contra dumping, existem instrumentos de defesa comercial. Contra vantagem competitiva estrutural, construída ao longo de duas décadas de política industrial, tarifa é anestesia — alivia por um tempo, não trata a causa.

Colheitadeiras: a fronteira mais protegida também caiu

O segmento de colheitadeiras sempre foi o mais fechado do maquinário agrícola. Exige precisão mecânica, eletrônica embarcada, rede de assistência capilarizada e confiança do produtor, porque uma quebra em plena janela de colheita custa a safra inteira. Era o fosso que separava os incumbentes dos desafiantes.

Sete fabricantes chineses já testam ou vendem colheitadeiras no Brasil. A CRCHI opera cadeia completa de colheita e beneficiamento de algodão no Mato Grosso — não uma máquina avulsa, mas o sistema inteiro.

Quando o segmento mais difícil começa a ser testado, o recado é claro: a estratégia não é entrar pela base do mercado e ficar lá. É subir a escada tecnológica.

O espelho automotivo é quase didático

Quem quiser saber como termina esse filme não precisa de bola de cristal. Basta olhar o que aconteceu no mercado de veículos.

A BYD entrou no Top 10 do mercado brasileiro de automóveis com um salto de 328% em vendas, transformou o antigo complexo da Ford em Camaçari em fábrica própria e mira 50% de conteúdo nacional. A GWM inaugurou planta em Iracemápolis e saiu do zero para disputar o pódio em poucos anos. Hoje são 15 marcas chinesas vendendo carros no Brasil, com projeções de que cheguem a 30% ou 40% do mercado de veículos leves até 2030.

Em menos de uma década, uma indústria que parecia estruturalmente estável — dominada por montadoras instaladas aqui desde os anos 1950 e 1960 — foi reorganizada. Não apenas por preço baixo, mas por preço baixo somado a tecnologia competitiva e a uma política industrial de Estado que sustentou a aposta por vinte anos até ela maturar.

O que realmente está em jogo

O ponto central é que essa já não é uma disputa de commodity barata. É tecnologia, capital e política industrial chinesa aplicando ao agro exatamente a estratégia que reescreveu o mercado automotivo — só que agora em cima do maquinário que sustenta a produção de grãos, fibra e proteína do país.

E aqui o problema deixa de ser setorial e vira macroeconômico.

Máquinas agrícolas são um dos poucos elos de alta complexidade que o Brasil ainda mantém funcionando dentro de uma cadeia produtiva na qual somos competitivos mundialmente. O agro brasileiro exporta soja, milho, carne e algodão — produtos de baixa complexidade no espaço-produto. O que agrega conhecimento tácito, capacidade de engenharia e emprego qualificado não é a lavoura em si, é a indústria que a equipa: tratores, colheitadeiras, implementos, eletrônica embarcada, agricultura de precisão.

Perder esse elo significa aprofundar o padrão que já conhecemos bem demais. Exportar o produto primário e importar o bem de capital que o produz é a definição operacional de especialização regressiva. É trocar a parte densa da cadeia pela parte rala, e depois estranhar por que a produtividade agregada não sobe e por que a indústria encolhe como proporção do PIB.

Não se trata de fechar mercado nem de proteger ineficiência. Trata-se de reconhecer que a competitividade chinesa nesse setor foi construída deliberadamente, com crédito de longo prazo, escala planejada e coordenação entre Estado e empresas. Quem enfrenta política industrial com discurso de livre mercado costuma perder — e, o que é pior, perde achando que o resultado foi natural.

O mercado automotivo brasileiro já deu essa aula. A questão é se o agro vai assistir à mesma aula duas vezes.

Diesel primeiro, elétrico depois. Vale registrar uma diferença importante em relação aos automóveis. Nos carros, a China entrou por leapfrog: pulou a etapa do motor a combustão e atacou justamente onde os incumbentes eram estruturalmente frágeis, o elétrico. No agro, a ofensiva atual é de tratores diesel convencionais, disputando no mesmo terreno tecnológico das marcas tradicionais — a YTO, afinal, é uma fabricante de motores a diesel com capacidade de 230 mil unidades por ano, e a linha vendida no Brasil vai de 75 a 175 cv. A eletrificação vem como segunda camada, não como porta de entrada: a Zoomlion já estreou na Agrishow 2026 com tratores híbridos, a XCMG apresentou equipamentos elétricos voltados ao campo, e há projetos de híbridos acima de 600 cv aproveitando o aprendizado acumulado em baterias e powertrain no setor automotivo. O recado é mais desconfortável do que parece. Eles estão ganhando participação em manufatura pura, no jogo em que os incumbentes deveriam ser imbatíveis, antes de acionar a vantagem tecnológica que já têm guardada. Quando o elétrico chegar de fato ao campo, a rede de distribuição, a assistência técnica e a fábrica em Caruaru já vão estar montadas.

Foto: Xinhua/Chen Zhonghao

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-invasao-chinesa-nas-maquinas-agricolas-o-que-aconteceu-com-os-carros-ja-comecou-no-agro/