Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

“A mesa é Estados Unidos e Rússia. Não existe Europa na mesa da Ucrânia”, diz Pepe Escobar

Europeus são chihuahuas, afirma o analista geopolítico.

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou, em seu programa Pepe Café, direto de Moscou, que a disputa sobre o suposto plano de paz para a guerra na Ucrânia expôs não apenas o enfraquecimento da Europa no tabuleiro internacional, mas também a centralidade das conversas bilaterais entre Washington e Moscou. As declarações foram feitas a partir de uma semana intensa de encontros, entrevistas e análises realizadas na capital russa.

Escobar relatou ter participado de uma série de reuniões de alto nível, incluindo uma rara entrevista de duas horas com Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, além de conversas com militares, parlamentares e analistas estratégicos. Entre os interlocutores esteve o comandante Apti Alaudinov, das forças Ahmat, a quem descreveu como um “gênio militar” que se definiu apenas como “um soldado”. Também conversou com Alexander Babakov, vice-presidente da Duma, que falou longamente sobre China, BRICS e modelos de desenvolvimento.

O grande tema por trás dessas conversas, segundo Escobar, foi o chamado plano de 28 pontos atribuído ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentado pela mídia ocidental como uma proposta de paz. O analista, no entanto, afirma que esse documento não é um plano, mas uma lista de “talking points” improvisados em três dias de conversas entre Kirill Dmitriev e Steve Witkoff, enviado informal de Trump. “Eles não elaboraram um plano”, disse Escobar, explicando que o texto foi distorcido antes mesmo de chegar oficialmente ao Kremlin.

Segundo ele, autoridades russas como Zakharova e o porta-voz Dmitry Peskov confirmaram que Moscou não havia recebido nada oficial até o fim da semana mencionada. A primeira resposta da Rússia foi simbólica: Vladimir Putin visitou um centro de comando na linha de frente vestido de camuflado. Depois, o presidente russo abordou o tema em reunião do Conselho de Segurança, afirmando que o documento poderia ser discutido, desde que fossem respeitados os entendimentos estabelecidos em Anchorage, no Alasca. Escobar destacou a frase que resume a visão russa sobre o tema: “Perdedores não delimitam os termos do final de uma guerra.”

O analista também relatou a intervenção de figuras neoconservadoras nos Estados Unidos, como Marco Rubio, Elliott Abrams e Jared Kushner, que teriam modificado o documento original e reduzido os 28 pontos para 19. Essas versões, segundo ele, incluíam exigências inaceitáveis para Moscou, como garantias ocidentais equivalentes ao Artigo 5º da OTAN, devolução integral das regiões anexadas e o uso de ativos russos congelados para financiar a reconstrução ucraniana.

A reação da Europa e de Kiev foi imediata: rejeição absoluta. Escobar descreveu a postura europeia como histérica, afirmando que se comportaram como “chihuahuas gritando, latindo em volume desmesurado”. Para ele, a União Europeia vive uma crise política profunda, comandada por lideranças “incapazes de gerir sequer uma barraquinha de arenque”, enquanto um escândalo de corrupção em Kiev ameaça atingir autoridades europeias de alto escalão.

Sem pressa em Moscou

No entendimento das autoridades e analistas russos com quem conversou, não há qualquer pressa em negociar. A Rússia, diz Escobar, entende que vence no campo de batalha e que o Ocidente opera apenas por narrativas, e não por fatos concretos. “O império do caos não produz fatos. Tudo é uma narrativa”, afirmou, reforçando que a crise ucraniana é vista em Moscou como uma guerra por procuração conduzida pela OTAN “até o último ucraniano”.

Escobar foi categórico ao avaliar o lugar da Europa nesse processo: “A mesa é Estados Unidos e Rússia. Não existe Europa na mesa.” Para ele, a União Europeia tornou-se politicamente irrelevante e age apenas como prolongamento dos interesses norte-americanos. Enquanto isso, o suposto plano de paz se desfaz em meio a disputas internas nos Estados Unidos, pressões neoconservadoras e a deterioração acelerada da situação ucraniana.

As reflexões apresentadas no Pepe Café reforçam, segundo o jornalista, que o cenário seguirá marcado por impasses, teatralizações e tentativas fracassadas de reescrever a realidade no campo de batalha, enquanto Moscou mantém sua posição estratégica, militar e política sem demonstrar qualquer urgência em negociações.

Foto: Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/a-mesa-e-estados-unidos-e-russia-nao-existe-europa-na-mesa-da-ucrania-diz-pepe-escobar