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A nova corrida armamentista e a soberania brasileira

Em meio a tensões globais e ao enfraquecimento do multilateralismo, a autonomia tecnológica e o fortalecimento da indústria de defesa emergem como condições centrais para a preservação da independência nacional.

O mundo assiste ao surgimento de uma nova e acelerada corrida armamentista. Não se trata simplesmente da repetição da Guerra Fria, mas de uma disputa por poder que combina interesses econômicos, domínio tecnológico, controle de recursos estratégicos, influência geopolítica e capacidade militar.

O exemplo histórico mais emblemático dessa corrida armamentista ocorreu durante a Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética disputaram a supremacia militar e nuclear. Em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos utilizaram bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki. Quatro anos depois, em 1949, a União Soviética realizou seu primeiro teste nuclear, rompendo o monopólio norte-americano sobre essa tecnologia.

A partir daí, as duas potências acumularam arsenais de proporções extraordinárias. Paradoxalmente, a capacidade de destruição mútua tornou-se um dos fatores de dissuasão de um confronto militar direto. A competição, entretanto, ultrapassou os arsenais e alcançou a ciência, a tecnologia, a economia e a exploração espacial.

O mundo de hoje é diferente. A dimensão ideológica permanece presente, mas já não explica, por si só, a natureza das disputas internacionais. O comunismo deixou de representar a ameaça global que lhe era atribuída durante a Guerra Fria, embora continue sendo utilizado, sobretudo por setores da direita radical, como recurso retórico para legitimar determinados projetos políticos, econômicos e culturais e, em situações extremas, justificar ameaças e intervenções contra outros Estados. As pressões sobre Cuba e a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, inserem-se nesse cenário em que argumentos ideológicos se misturam a interesses econômicos e geopolíticos.

No cenário contemporâneo, os interesses econômicos, tecnológicos e geopolíticos assumiram enorme centralidade. A disputa envolve energia, minerais estratégicos, semicondutores, inteligência artificial, dados, cadeias produtivas, rotas comerciais e tecnologias militares. Poder econômico, poder tecnológico e poder militar tornaram-se dimensões cada vez mais interligadas de uma mesma disputa pela hegemonia.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional procurou construir instituições capazes de impedir que a humanidade voltasse a experimentar uma catástrofe daquela magnitude. A principal delas foi a Organização das Nações Unidas, fundada em 1945 com o propósito de preservar a paz, promover a cooperação internacional e assegurar princípios de convivência entre Estados soberanos.

Hoje, porém, a ONU demonstra dificuldades crescentes para cumprir plenamente essa função histórica. Guerras, intervenções militares, disputas entre grandes potências e violações da soberania dos Estados revelam os limites das estruturas multilaterais construídas no pós-guerra. Quando os organismos internacionais perdem capacidade de mediar conflitos e fazer prevalecer o direito internacional, a força tende a ocupar o espaço deixado pela política e pela diplomacia.

A ascensão de movimentos nacionalistas e de uma direita radical em diferentes partes do mundo acrescenta novos elementos de tensão a esse cenário. Donald Trump é uma das expressões mais relevantes desse fenômeno. É nesse contexto que se inserem as investidas da política externa trumpista, ao recorrer ao peso econômico e ao poderio militar dos Estados Unidos como instrumentos de pressão e de imposição de seus interesses estratégicos sobre outras nações. Essa lógica enfraquece o multilateralismo e contribui para a construção de uma ordem internacional em que a força passa a prevalecer sobre o direito.

Os conflitos recentes envolvendo o Irã e episódios de intervenção direta contra outros Estados recolocam uma questão antiga no centro da política internacional: qual é o significado concreto da soberania quando uma nação não dispõe dos meios necessários para protegê-la?

Essa pergunta alcança inclusive países que construíram sua tradição diplomática em torno da solução pacífica das controvérsias. O Brasil é um deles.

Nossa vocação histórica deve continuar sendo a paz, a diplomacia, o multilateralismo e a defesa do direito internacional. Mas defender a paz não significa ignorar as transformações do mundo. Um país com as dimensões territoriais do Brasil, sua biodiversidade, suas reservas de água, seus recursos minerais, sua produção de alimentos, sua matriz energética e a importância estratégica da Amazônia e do Atlântico Sul não pode negligenciar sua capacidade de defesa.

É nesse contexto que deve ser compreendida a retomada da indústria nacional de defesa. Em julho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a fábrica da Avibras, em Jacareí, São Paulo, em meio à retomada das atividades da empresa. O episódio possui um significado que ultrapassa a recuperação de uma companhia: uma nação excessivamente dependente de fornecedores estrangeiros para tecnologias militares estratégicas reduz sua própria margem de autonomia.

Fortalecer a defesa nacional não significa militarizar a sociedade nem abandonar a tradição pacífica brasileira. Significa investir em ciência, tecnologia, inteligência, indústria e capacidade de dissuasão. Há uma diferença fundamental entre belicismo e defesa: o primeiro transforma a guerra em instrumento da política; a segunda procura impedir que a força de outros Estados se transforme em instrumento de submissão.

O Brasil não precisa escolher entre diplomacia e defesa. Precisa das duas. Deve continuar defendendo a paz, o direito internacional, o multilateralismo e a autodeterminação dos povos, mas precisa compreender que, em uma ordem internacional cada vez mais marcada pela força, a soberania não pode existir apenas no plano formal.

Defender a soberania brasileira significa assegurar ao país o direito de decidir livremente seu próprio destino. E essa liberdade exige autonomia econômica, científica, tecnológica e também capacidade de defesa. O Brasil não deve alimentar uma corrida pela guerra, mas tampouco pode ficar para trás na construção dos instrumentos necessários à preservação de sua independência. Queremos a paz, mas uma paz construída entre nações soberanas, e não aquela imposta aos mais frágeis pela vontade dos mais fortes. A soberania brasileira não é negociável: é condição para nossa democracia, para nosso desenvolvimento e para o futuro do nosso povo.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-nova-corrida-armamentista-e-a-soberania-brasileira/