Iniciativa anunciada pela China recoloca em discussão organismos internacionais desenhados para um mundo que deixou de existir décadas atrás.
As dificuldades enfrentadas pelas instituições internacionais não surpreendem estudiosos que, ainda na primeira metade do século XX, previram que a crescente integração econômica, tecnológica e humana exigiria formas mais amplas de cooperação entre os povos. As estruturas construídas em 1945 foram decisivas para evitar novos conflitos mundiais, mas passaram a conviver com limitações cada vez mais visíveis diante de uma realidade profundamente transformada. Entre os pensadores que anteciparam essa realidade, destacou-se Shoghi Effendi (1897-1957), cuja reflexão merece não apenas ser lida, mas continuamente meditada por todos os que se preocupam com o futuro e o bem-estar da humanidade.
Foi nesse contexto que a China divulgou, na quarta-feira (17), o livro branco Governança Global Mais Justa e Equitativa: Princípios, Propostas e Ações da China. O documento, publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado, apresenta a visão de Pequim sobre a reforma das instituições internacionais e defende maior participação dos países em desenvolvimento nos processos decisórios globais.
A iniciativa surge em meio a um ambiente de forte instabilidade geopolítica. A guerra na Ucrânia continua sem perspectiva de encerramento, o Oriente Médio vive novos focos de tensão e a disputa estratégica entre China e Estados Unidos se estende para áreas como inteligência artificial, minerais críticos, semicondutores e cadeias globais de produção.
No mesmo dia da divulgação do livro branco, os países do G7 anunciaram novas medidas para reduzir a dependência em relação aos minerais raros controlados pela China. O episódio demonstra que a competição econômica e tecnológica entre as grandes potências se tornou um dos elementos centrais da política internacional contemporânea.
O documento chinês sustenta que a ONU deve permanecer no centro do sistema internacional e que a governança global precisa refletir melhor a distribuição atual do poder econômico e demográfico. Segundo Pequim, as respostas aos desafios globais exigem consultas mais amplas, benefícios compartilhados e maior presença dos países do Sul Global.
A proposta está associada à Iniciativa de Governança Global, lançada por Xi Jinping em 2025. Autoridades chinesas afirmam que quase 160 países e organizações internacionais já manifestaram apoio à iniciativa e que mais de 60 países participam do Grupo de Amigos da Governança Global.
Durante a apresentação do documento, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, defendeu maior representação dos países em desenvolvimento nas decisões internacionais e advertiu que a humanidade atravessa um período de crises interligadas.
No Ocidente, a iniciativa é recebida com reservas. Governos e analistas enxergam na estratégia chinesa uma tentativa de ampliar a influência política de Pequim sobre a futura arquitetura internacional. Afinal, toda discussão sobre governança global também envolve disputa por poder, influência e capacidade de estabelecer regras.
Confesso que acompanho esse debate com crescente interesse, porque me parece evidente que as instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial chegaram a um ponto de esgotamento relativo. Elas foram fundamentais para preservar décadas de estabilidade, mas o mundo que lhes deu origem desapareceu. A economia mudou, a tecnologia mudou, a distribuição do poder mudou. As instituições, porém, continuam avançando em ritmo muito mais lento do que os problemas que deveriam enfrentar.
A composição do Conselho de Segurança da ONU permanece praticamente a mesma de oitenta anos atrás. África e América Latina continuam sem assentos permanentes. Organismos financeiros internacionais ainda refletem a correlação de forças do pós-guerra. Enquanto isso, pandemias, mudanças climáticas, fluxos migratórios e conflitos regionais demonstram diariamente que os grandes desafios contemporâneos já não respeitam fronteiras.
Também me parece impossível ignorar uma constatação cada vez mais evidente. A humanidade tornou-se interdependente muito antes de suas instituições reconhecerem essa realidade. Persistir em respostas exclusivamente nacionais para problemas globais produz apenas paralisia, frustração e crises sucessivas. O século XXI está expondo, de forma implacável, a distância entre um mundo cada vez mais integrado e mecanismos de governança concebidos para uma era que já terminou.
A discussão sobre a reforma da ordem internacional deixou de ser uma abstração acadêmica. Tornou-se uma necessidade histórica. A pergunta que realmente importa não é se a atual arquitetura global sobreviverá intacta. Ela não sobreviverá. A questão decisiva é outra: a humanidade será capaz de reformar essas instituições pela cooperação e pelo diálogo ou esperará que novas crises, guerras e colapsos façam esse trabalho de maneira muito mais dolorosa?
Não existe dilema verdadeiro diante dessa realidade. As evidências estão sobre a mesa há décadas. O que falta aos governantes do mundo não é informação nem diagnósticos mais sofisticados. Falta apenas a coragem de aplicar o velho e indispensável bom senso.
Foto: CGTN
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-nova-realidade-tornou-obsoleta-a-velha-ordem