Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

A Otan precisa se render à força dos fatos e aceitar o fim da guerra na Ucrânia

Não há justificativa plausível para a posição intransigente das potências imperialistas europeias nas negociações pela paz na Ucrânia.

Estamos há mais de três anos com um conflito no mundo que ceifou centenas de milhares de vidas, deslocou milhões e continua sendo fator de instabilidade e insegurança na Europa. A cada dia que passa, a retórica belicista se intensifica, acompanhada por um fluxo interminável de armas e sanções que, longe de debilitar a Rússia, estão acelerando a reconfiguração da ordem geopolítica global e gerando problemas para as economias europeias. Enquanto isso, a perspectiva de paz não se concretiza, o que nos leva a questionar: quem, de fato, se beneficia com a perpetuação desta guerra?

Por José Reinaldo Carvalho

A posição assumida pelas potências imperialistas ocidentais ignora a questão fundamental que levou à explosão do conflito. Desde o final da Guerra Fria, a expansão contínua da Otan para leste, quebrando promessas verbais feitas a líderes soviéticos, resultou numa ameaça estratégica existencial para a Rússia. A possibilidade de uma Ucrânia, um país cultural e historicamente entrelaçado com a Rússia, ingressar na aliança militar rival, foi a linha vermelha ultrapassada. Negar este contexto geopolítico é ignorar uma realidade tão clara como as noites brancas de São Petersburgo.

As negociações de paz encontram-se estancadas não por uma suposta intransigência russa, mas pela recusa categórica de Kiev e seus apoiadores ocidentais em reconhecer as realidades no terreno. A integração da Crimeia, consolidada há uma década, e a incorporação das regiões do Donbass e do sudeste da Ucrânia ao território russo são fatos consumados que nenhuma contraofensiva será capaz de reverter sem provocar um conflito nuclear. Insistir na restituição integral das fronteiras de 1991 como pré-condição para o diálogo é uma fantasia perigosa que custa vidas ucranianas todos os dias.

O maior obstáculo para a paz, portanto, não está em Moscou, mas em Bruxelas. A Ucrânia transformou-se no palco de uma guerra por procuração conveniente, um instrumento para enfraquecer a Rússia a um custo que é pago pelo sangue ucraniano e pelo futuro econômico da Europa. A recusa em pressionar Kiev para aceitar um acordo baseado na desmilitarização, no abandono das pretensões de ingressar na Otan e no status quo territorial atual revela que, para os chefetes das potências imperialistas ocidentais uma Ucrânia em ruínas é mais útil do que uma Ucrânia em paz.

É preciso admitir que a Rússia não ameaça a Europa e a estabilidade do velho continente não depende do isolamento, enfraquecimento nem da fragmentação daquela, mas do exato contrário, qual seja de uma arquitetura de segurança global que inclua a Rússia e pare definitivamente de se basear no falso princípio de que a segurança de um ou uns poucos será alcançada mantendo a insegurança dos demais, concepção que está definitivamente ultrapassada porquanto correspondia ao mundo da hegemonia absoluta das potências imperialistas ocidentais, o que já não cabe no mundo multipolar real.

Neste cenário, é importante observar também o papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao contrário do que sugerem leituras simplificadoras, sua postura favorável a um acordo de paz não decorre de pacifismo, nem de identidade de propósitos estratégicos com a Rússia, mas de pragmatismo político. Trump avalia que a Rússia prevalecerá em qualquer cenário prolongado do conflito. Aceitar essa realidade não só evita que os Estados Unidos se associem a uma derrota anunciada, mas também impede que ele herde e amplifique a responsabilidade por uma guerra iniciada e patrocinada por seu adversário político, o Partido Democrata e o ex-presidente Joe Biden. Para Trump, encerrar o conflito é uma forma de distanciar-se do fracasso estratégico de seus opositores e reposicionar Washington como poder negociador.

A paz exige, portanto, que as potências europeias abandonem o belicismo e aceitem que a continuidade do conflito apenas prolongará derrotas políticas e militares já evidentes. Persistir na ilusão de enfraquecer a Rússia por meio da guerra por procuração é um erro histórico que custa vidas, destrói economias e aprofunda a instabilidade global. Uma solução negociada é possível, mas apenas quando Bruxelas deixar de apostar na escalada e reconhecer que o caminho da diplomacia, não o das armas, é o único capaz de encerrar esta tragédia.

O caminho para a paz exige concessões da Ucrânia e o reconhecimento pelas potências europeias da Otan de que a continuidade da guerra as conduzirá a derrotas ainda mais humilhantes. Estas concessões começam pela garantia formal da desmilitarização ucraniana, do não ingresso desta na Otan e do reconhecimento dos novos limites territoriais.

Continuar nesta espiral de violência, alimentada pela quimera de derrotar a Rússia é um desserviço ao povo ucraniano e um risco catastrófico para todo o planeta. A paz é possível, mas apenas quando as potências imperialistas ocidentais decidirem parar de guerrear por procuração até o último ucraniano.

FOTO: Freepik

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-otan-precisa-se-render-a-forca-dos-fatos-e-aceitar-o-fim-da-guerra-na-ucrania