Ataque de EUA e Israel contra o Irã reacende temor de conflito regional de grandes proporções e expõe aposta estratégica de Donald Trump.
247 – A ofensiva militar lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã neste sábado elevou dramaticamente a tensão no Oriente Médio e provocou uma onda de análises sobre o risco de uma guerra de grandes proporções. As avaliações foram reunidas pela RT, que ouviu especialistas russos para examinar os objetivos estratégicos de Washington, as possíveis respostas de Teerã e os impactos geopolíticos e econômicos do confronto.
O foco central das análises recai sobre a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de avançar com uma operação militar de larga escala, descrita por alguns analistas como um movimento que combina ambição de mudança de regime, cálculo eleitoral e aposta num desfecho rápido capaz de redefinir o equilíbrio regional.
Ultimato e objetivo maximalista
Fyodor Lukyanov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, sustenta que Trump apresentou ao Irã um ultimato que, na prática, equivale a uma declaração de guerra até que seus objetivos sejam alcançados.
Segundo ele, trata-se de uma estratégia com ambição máxima, que vai “até a mudança de regime”. Lukyanov afirma que o presidente norte-americano aparentemente concluiu que os riscos — incluindo possíveis perdas — são aceitáveis e que o sucesso poderia gerar “ganhos estratégicos decisivos”, com uma remodelação final do Oriente Médio em favor de Israel e dos Estados Unidos.
O analista também destaca um ponto sensível: uma campanha militar dessa magnitude teria sido lançada sem autorização prévia do Congresso dos EUA, diferentemente do que ocorreu na invasão do Iraque. Para Lukyanov, trata-se de uma aposta em um resultado “rápido e espetacular”, mas cuja incerteza é evidente.
Premissa estratégica contestada
Andrei Ilnitsky, analista militar e membro do Presidium do Conselho de Política Externa e de Defesa, afirma que a operação parte de uma “premissa estratégica falsa”. Ele sustenta que o Irã “não representava nem representa uma ameaça militar direta aos Estados Unidos” e que, do ponto de vista de Washington, o nível de ameaça proveniente de Teerã seria “próximo de zero”.
Ilnitsky acrescenta que o Irã havia sinalizado repetidamente disposição para negociações substanciais, inclusive sobre a questão nuclear, considerada o dossiê mais sensível para o país.
Ele propõe um cenário hipotético de “sucesso máximo” da operação — com desmantelamento do regime clerical e destruição do potencial militar iraniano — e questiona qual seria o dividendo estratégico real. Em sua avaliação, a segurança regional e global não melhoraria e poderia até se deteriorar.
O analista descreve um possível cenário de “zona cinzenta de caos pós-conflito”, com perda de controle territorial, fragmentação de grupos armados, colapso econômico, radicalização política e risco de violência sectária e étnica. Ele compara a possível trajetória do país à da Líbia ou do Afeganistão na segunda década do século 21.
Em síntese, Ilnitsky afirma: “Estamos testemunhando um caso clássico de priorização de ganhos táticos de curto prazo e políticos domésticos em detrimento da estabilidade estratégica de longo prazo.” Segundo ele, esse caminho pode levar a uma derrota estratégica do iniciador do conflito.
Objetivos políticos e militares
Dmitry Novikov, professor associado da Higher School of Economics, analisa o discurso oficial de Trump sobre a operação. Ele identifica dois objetivos centrais.
O primeiro seria político: a mudança de regime. Novikov observa que o presidente norte-americano dedicou parte significativa de sua fala a descrever a liderança iraniana como ameaça inerente à segurança nacional dos EUA, referindo-se a seus integrantes como “terrible people who do evil”.
O segundo objetivo declarado seria militar: a destruição das capacidades militares iranianas — “mísseis, indústria de mísseis e forças navais” — com a finalidade de impedir que o Irã cause danos aos Estados Unidos e a seus aliados.
Novikov argumenta que o objetivo militar é mais concreto e mais facilmente verificável, o que permite, em tese, declarar vitória ao afirmar que danos suficientes foram infligidos. Ele também observa que Trump reconhece a possibilidade de baixas norte-americanas e parece considerar que os custos potenciais são aceitáveis, embora não esteja claro qual seria o limite considerado tolerável.
Preparação iraniana e risco de guerra regional
Tural Kerimov, jornalista especializado em Oriente Médio e África, afirma que o ataque não foi uma surpresa para Teerã. Segundo ele, o Irã vinha se preparando para uma agressão e não nutria ilusões de que as negociações com Washington resultariam em algo favorável.
Kerimov sustenta que as exigências dos Estados Unidos incluíam renúncia total ao urânio enriquecido, severas restrições às atividades de enriquecimento dentro do país, desmantelamento de estoques existentes, esvaziamento do programa de mísseis e revisão ampla da política externa iraniana — condições rejeitadas por Teerã.
Ele afirma que, sob tais circunstâncias, o Irã encara o confronto como uma guerra existencial e utilizará todos os instrumentos à sua disposição. Em um alerta direto, declara: “Há uma alta probabilidade de que, nas próximas 24 horas, o Oriente Médio possa deslizar para uma guerra regional em uma escala não vista antes — com consequências imprevisíveis e potencial para uma crise ecológica, humanitária e econômica massiva.”
Tigran Meloyan, analista do Centro de Estudos Estratégicos da HSE, descreve os ataques iniciais como parte de uma estratégia de “decapitação”, mirando liderança político-militar e sistemas de defesa aérea. Ele afirma que a resposta iraniana foi rápida e incluiu lançamentos de mísseis contra Tel Aviv e Haifa, além de ataques a alvos associados à presença militar dos EUA na região.
Petróleo, Estreito de Ormuz e impacto global
Kirill Benediktov, especialista em estudos norte-americanos, sustenta que o verdadeiro objetivo não seria um “acordo nuclear 2.0”, mas a mudança de regime na República Islâmica. Ele observa que isso é muito mais complexo do que destruir instalações nucleares específicas.
Benediktov destaca as capacidades do Irã no Golfo Pérsico, incluindo frota de embarcações rápidas e milhares de minas navais capazes de afetar o tráfego no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa parcela significativa do petróleo transportado por via marítima e grande volume de gás natural liquefeito.
Ele afirma que o fechamento total do estreito poderia provocar um choque nos mercados de energia e comprometer planos econômicos internos dos Estados Unidos.
Ordem internacional e negociações sob suspeita
Ivan Timofeev, diretor de programa do Clube Valdai, observa que a combinação de sanções com ataques militares já foi utilizada em outros cenários e que a aposta atual parece ser numa operação rápida — “strike and see”.
Já Yevgeny Primakov, chefe da Rossotrudnichestvo, afirma que a agressão ocorre “no contexto de negociações de paz” e envia uma mensagem negativa sobre o valor de concessões diplomáticas. Ele sustenta que o episódio aprofunda a crise do sistema internacional centrado na ONU e questiona a viabilidade da ordem jurídica baseada na Carta das Nações Unidas.
Um ponto de inflexão
As análises reunidas pela RT apontam para um cenário de elevada incerteza. Há consenso de que o risco de escalada é real e de que os impactos podem ultrapassar os limites do Oriente Médio, atingindo mercados energéticos, cadeias de suprimentos e a própria arquitetura de segurança internacional.
Se a pergunta que ecoa é se a Terceira Guerra Mundial começou, os especialistas concordam ao menos em um ponto: a aposta feita por Washington é de altíssimo risco e pode redefinir não apenas o equilíbrio regional, mas também os contornos da ordem global nas próximas décadas.
FOTO: RS/via FotosPublicas
FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/a-terceira-guerra-mundial-comecou