Jornal chinês afirma que medidas de Washington contra o Brasil refletem tradição intervencionista dos Estados Unidos e representam afronta à soberania brasileira.
247 – As recentes medidas adotadas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil evidenciam que Washington ainda trata a América Latina como sua área de influência, reproduzindo uma lógica intervencionista que remonta à Doutrina Monroe. A avaliação é do jornal chinês Global Times, que afirma que a escalada diplomática entre os dois países ultrapassa questões comerciais e revela uma disputa em torno da soberania nacional brasileira.
Segundo a publicação, embora os Estados Unidos tenham sido o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil, em 1822, ainda demonstrariam dificuldade em aceitar plenamente o significado contemporâneo da independência e da autonomia política de seu antigo parceiro regional.
Escalada diplomática amplia tensões
O Global Times destaca que as relações entre Brasília e Washington se deterioraram nas últimas semanas, após uma série de medidas adotadas pelos Estados Unidos.
Entre elas, a publicação cita a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, além da imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e de iniciativas que, segundo especialistas ouvidos pelo jornal, buscam influenciar o ambiente político brasileiro.
Na avaliação do periódico, essas ações não representam apenas divergências diplomáticas, mas configuram uma disputa envolvendo princípios de soberania nacional e de não intervenção.
Pressão econômica e política
Desde julho, o governo norte-americano passou a aplicar tarifas de 25% sobre importações brasileiras, além de uma sobretaxa adicional de 12,5% relacionada a alegações envolvendo trabalho forçado.
O Global Times afirma ainda que Washington tem adotado medidas diplomáticas e políticas que, na avaliação de analistas chineses, procuram exercer influência sobre o cenário eleitoral brasileiro.
O especialista Jiang Shixue, citado pela publicação, sustenta que o uso combinado de pressão econômica e diplomática representa uma tentativa de interferir nos assuntos internos do Brasil, contrariando princípios fundamentais das relações internacionais.
Brasil adota postura independente
Segundo o jornal chinês, a política externa brasileira tem buscado preservar maior autonomia estratégica e defender posições consideradas independentes em temas internacionais, postura que contrasta com a agenda “America First” promovida pelo governo Trump.
Para o Global Times, essa diferença explica parte das tensões recentes entre os dois países e evidencia um choque entre uma política externa voltada ao multilateralismo e outra baseada na afirmação dos interesses estratégicos norte-americanos.
Herança da Doutrina Monroe
A publicação afirma que a política dos Estados Unidos para a América Latina continua influenciada por uma tradição histórica iniciada com a Doutrina Monroe, segundo a qual o continente seria tratado como uma esfera privilegiada de influência de Washington.
Nesse contexto, o Global Times menciona intervenções militares, sanções econômicas e pressões diplomáticas utilizadas ao longo das últimas décadas para moldar governos e decisões políticas na região.
Segundo o jornal, as medidas recentes adotadas contra o Brasil seriam interpretadas como continuidade dessa estratégia histórica de influência sobre os países latino-americanos.
Reação brasileira
O Global Times observa que o governo brasileiro respondeu às medidas norte-americanas por diferentes meios institucionais.
Entre as iniciativas mencionadas estão o pedido de consultas na Organização Mundial do Comércio (OMC), restrições à entrada de determinadas autoridades norte-americanas, a não formalização da indicação do novo embaixador dos Estados Unidos e manifestações públicas condenando o que considera tentativas de interferência externa no processo político nacional.
Sul Global busca maior autonomia
Na avaliação do jornal chinês, o caso brasileiro ilustra uma transformação mais ampla nas relações internacionais.
Segundo a publicação, países do Sul Global vêm buscando ampliar sua autonomia estratégica, defendendo princípios como igualdade soberana entre os Estados, respeito à não intervenção, fortalecimento do multilateralismo e liberdade para definir seus próprios modelos de desenvolvimento.
O Global Times conclui que, independentemente das diferenças ideológicas entre governos, a proteção da soberania, da segurança nacional e dos interesses de desenvolvimento tornou-se elemento central da política externa contemporânea, indicando uma mudança no equilíbrio das relações entre países desenvolvidos e emergentes.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/global-times/acao-de-trump-no-brasil-mostra-que-eua-veem-america-latina-como-quintal-aponta-global-times/