Analista afirma que Teerã exige cumprimento de cláusulas já assinadas antes de retomar negociações com Washington.
247 – O memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos encontra-se em uma situação de profunda incerteza e pode acabar fracassando caso Washington não cumpra os compromissos assumidos. Essa é a avaliação do jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar, apresentada em uma edição do programa Pepe Café, publicada em seu canal no YouTube. Segundo ele, o acordo firmado entre os dois países está “em coma”, já que existe formalmente, mas sua implementação permanece praticamente paralisada.
Escobar explicou que, do ponto de vista iraniano, não há espaço para uma nova rodada de negociações enquanto os Estados Unidos não cumprirem cláusulas específicas do memorando de entendimento já assinado pelos dois governos. Para o analista, essa é hoje a principal questão da geopolítica do Oriente Médio.
Segundo ele, o documento possui 14 artigos, mas Teerã considera prioritária a implementação de cinco deles: os parágrafos 1, 4, 5, 10 e 11. “O Irã só se move para tentar chegar a um tipo de acordo final com Washington se os americanos implementarem essas cláusulas”, afirmou.
De acordo com Escobar, esses dispositivos tratam de questões consideradas fundamentais pelo governo iraniano. O primeiro estabelece mecanismos relacionados à situação no Líbano. Outros tratam da exportação de petróleo e produtos petroquímicos iranianos e da liberação de recursos financeiros pertencentes ao Irã que permanecem bloqueados em bancos estrangeiros.
“O ponto número 10 é a exportação do petróleo e de produtos petroquímicos iranianos”, explicou. Já o artigo 11, segundo ele, aborda diretamente a devolução dos ativos iranianos. “Tem que liberar toda a grana do Irã confiscada pelo governo americano, seja onde for”, afirmou.
Escobar observou que parte significativa desses recursos encontra-se em instituições financeiras do Qatar, país que, juntamente com o Paquistão, atua como mediador entre Washington e Teerã.
Na avaliação do analista, o maior problema é a falta de confiança do Irã na disposição dos Estados Unidos de cumprir acordos internacionais. Ele recordou uma frase frequentemente utilizada pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, segundo a qual os Estados Unidos seriam “incapazes de seguir acordos”.
“A gente não tem nenhuma garantia de que esses que são incapazes de seguir acordos entendam até o que assinaram”, afirmou Escobar. Segundo ele, justamente por essa razão o governo iraniano insiste que a implementação do memorando deve anteceder qualquer nova negociação.
Escobar também destacou declarações do presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que, segundo ele, exerce papel central nas negociações. “O que ele disse é absolutamente fundamental”, afirmou.
Segundo Escobar, Ghalibaf deixou claro que, neste momento, “as negociações com os Estados Unidos acabaram”. “O Irã foi à Suíça para discutir a implementação desses 14 pontos e não para negociar coisa nenhuma.”
O analista acrescentou que o próprio memorando estabelece essa sequência. “Primeiro você tem que implementar tudo isso que foi discutido e assinado. Depois vai se terminar chegando a um acordo mais tarde.” Ele lembrou ainda que o artigo 13 do documento determina que negociações mais amplas somente poderão ocorrer depois da implementação das cláusulas consideradas prioritárias.
Segundo Escobar, Ghalibaf também deixou claro que diversos temas estratégicos permanecem fora de qualquer negociação. Entre eles estão o programa de mísseis do Irã, o programa nuclear, o chamado Eixo da Resistência, o Hezbollah, as milícias iraquianas e o Ansarallah, no Iêmen. “Do ponto de vista iraniano, tudo isso é não negociável.”
Durante a análise, Escobar chamou atenção para uma declaração que classificou como extremamente importante. Segundo ele, Ghalibaf afirmou que, caso os Estados Unidos optem por abandonar o entendimento, o Irã está preparado para um novo conflito. “O Irã está pronto para a guerra. Eu vou repetir: o Irã está pronto para a guerra.” Na avaliação do jornalista, trata-se de uma mensagem destinada tanto a Washington quanto a Israel.
Escobar também comentou uma entrevista recente do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance. Segundo o analista, Vance admitiu que a assinatura do memorando serviria apenas para dar tempo ao governo norte-americano de recompor seus estoques militares. “Eles só assinaram o memorando de entendimento para reforçar os nossos estoques.”
Escobar afirmou que essa declaração confirma uma suspeita que já circulava entre analistas internacionais. “A gente quer uma pausa para reforçar o nosso potencial militar e a gente vai continuar a guerra mais tarde.” Na avaliação do jornalista, essa fala coloca em dúvida o real compromisso da Casa Branca com uma solução diplomática.
Apesar das dificuldades políticas, Escobar observou que a exportação de petróleo iraniano voltou a apresentar crescimento. Segundo ele, o país exportou mais de 40 milhões de barris nos últimos dias, parte deles com preços superiores aos registrados alguns meses atrás. Para o analista, isso demonstra que parte das restrições econômicas já começa a perder eficácia.
Escobar explicou que o governo iraniano concentra suas atenções nas cerimônias relacionadas ao funeral do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Segundo ele, somente após esse período os mediadores — Paquistão e Qatar — deverão retomar as conversas com Washington, contando ainda com apoio diplomático da China. A expectativa é que a fase inicial seja dedicada exclusivamente à implementação do memorando.
Mesmo assim, Escobar demonstra pouco otimismo. Segundo ele, caso os recursos financeiros iranianos continuem bloqueados e Washington não implemente as cláusulas previstas, dificilmente haverá continuidade do processo diplomático. “Se o Irã receber pelo menos uma parte da grana, a conversa continua rolando. Se isso não acontecer, acabou. O gato vai ficar definitivamente morto.”
Ao encerrar a edição do Pepe Café, o analista voltou à metáfora que dá título à sua análise. “O gato está vivo ou está morto? O gato está em coma.” Para Escobar, a situação permanecerá indefinida nas próximas semanas, mas o risco de colapso definitivo do entendimento continua elevado. Em sua avaliação, o cenário dependerá menos de novas negociações e muito mais da disposição dos Estados Unidos de cumprir aquilo que já foi formalmente assinado.
FOTO: Brasil 247
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/acordo-ira-eua-esta-em-coma-e-pode-fracassar-diz-pepe-escobar/