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Além da Abin, o Exército também espionou pessoas ilegalmente?

“Principal cliente do First Mile, o Exército tem o dever de esclarecer o escândalo de espionagem ilegal na Abin”, escreve Aquiles Lins.

O Exército Brasileiro realizou monitoramentos ilegais de brasileiros, civis ou militares, por meio do programa israelense First Mile, assim como fez a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo de Jair Bolsonaro, segundo investigações da Polícia Federal? A pergunta, aparentemente simples, têm razão de ser porque a corporação mantém contratos com a empresa israelense Cognyte, proprietária do software de espionagem FirstMile, que segundo a PF foi usado na gestão de Alexandre Ramagem para espionar ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores, políticos opositores e desafetos do clã Bolsonaro.

Segundo levantamento do jornalista Jeferson Miola, com base em dados da Lei de Acesso à Informação e publicado no Brasil 247, o Exército, e não a Abin, é o principal cliente da Cognyte. Os primeiros pagamentos à empresa datam de 2014, no governo Dilma Rousseff. No entanto, após o golpe de 2016, durante o governo de Michel Temer, a empresa multiplicou seu faturamento por 23. Entre 2016 e 2018, somente o Exército pagou R$ 30 milhões à empresa de Israel. Dinheiro pago e produtos adquiridos, os militares começaram a operar. Conforme revelou o jornalista Luís Costa Pinto no 247, sob o governo Temer, a espionagem contra parlamentares teve início no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), então comandado pelo general Sérgio Etchegoyen. A arapongagem foi denunciada pelo ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia.

Em abril de 2018, o general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército, publicou o famoso tweet no qual ameaçou todos os ministros do STF, caso eles seguissem o que determina a Constituição e concedessem a Luiz Inácio Lula da Silva seu direito de presunção de inocência. Por 6 a 5, o STF negou o habeas corpus a Lula, abrindo caminho para sua prisão pelo então juiz Sérgio Moro, num segundo golpe contra a democracia brasileira. O Exército monitorava os ministros do STF?

Já no governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, os pagamentos pelo Exército à empresa Cognyte somaram R$ 44 milhões, segundo o levantamento de Jeferson Miola. Os fatos mostram que durante o governo Bolsonaro, o Exército manteve intensa atividade política, se envolveu em campanhas para descredibilizar o sistema eleitoral brasileiro e as urnas eletrônicas, além de ser conivente com as manifestações de caráter golpista nas portas dos quartéis pelo país afora. Com este grau de ativismo político em favor do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, que uso fez o Exército da ferramenta de monitoramento? Alguém foi espionado ilegalmente? Quantos cidadãos e cidadãs tiveram seu deslocamento monitorado? Pode ter ido além da geolocalização?

Uma informação relevante é que o contrato do Exército com a Cognyte ainda está em vigor. Somente no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foram pagos pelo Exército R$ 4,1 milhões à empresa. Em nome da transparência, e em meio a este escândalo de espionagem ilegal, o Exército tem o dever de esclarecer a população brasileira.

FONTE:

https://www.brasil247.com/blog/alem-da-abin-o-exercito-tambem-espionou-pessoas-ilegalmente