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Além das blusinhas: de carro a sorvete, China invade consumo brasileiro

Shein, AliExpress, Temu, Mixue, BYD, Haval, Geely, Midea, Hisense, 99/Didi, Keeta. A lista de grandes empresas da China que vêm abrindo operações no Brasil, parte delas inclusive com produção local, não para de crescer. Há desde os marketplaces — que se beneficiaram com o fim da “taxa das blusinhas” (que este mês zerou o Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50) — a plataformas de delivery, passando por eletrodomésticos e cosméticos.

Em veículos elétricos, já são 13 as marcas chinesas no país, com destaque para BYD, Haval, Geely e Caoa Chery, que têm produção local.

“O Brasil tem uma série de oportunidades para aplicar tecnologia limpa em diferentes áreas da mobilidade e da energia. Não estamos falando apenas de carros, mas de transporte público, logística, infraestrutura, geração de energia e soluções de alta capacidade”, diz Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD do Brasil.

Em 2015, a BYD inaugurou sua fábrica de chassis para ônibus elétricos em Campinas (SP) e, dois anos depois, passou a produzir módulos fotovoltaicos. Hoje produz empilhadeiras, caminhões elétricos e atua no setor de mobilidade sobre trilhos, com o SkyRail da Linha 17-Ouro de São Paulo — um trem que anda sobre uma viga de concreto única, elevada, funcionando com tração 100% elétrica a partir de baterias de íon-lítio.

Segundo o executivo, a BYD já conta com mais de 150 carregadores rápidos no país e vai inaugurar o primeiro Flash Charging no Brasil, tecnologia capaz de levar a bateria de 10% a 70% em cinco minutos e chegar a 97% em nove minutos. A empresa está investindo R$ 5,5 bilhões no complexo automotivo de Camaçari, na Bahia. Por ora, a unidade apenas monta veículos que chegam semidesmontados da China.

Na outra ponta do consumo, de produtos de giro rápido, a gigante global de bebidas e sorvetes Mixue (a pronúncia é “míche”) inaugurou em abril a sua primeira unidade em São Paulo, na Avenida Paulista. O Brasil foi o primeiro país em que a empresa investiu fora da região Ásia-Pacífico.

No país, o plano é aportar R$ 3 bilhões até 2030, com a abertura de mil lojas, entre próprias e franquias, e a construção de uma fábrica. Serão 100 pontos de venda apenas neste ano. No mundo, a Mixue, criada por dois irmãos em 1997, soma 64 mil lojas em 17 países e faturou 33,6 bilhões de yuans (R$ 25,6 bilhões) em 2025.

O Brasil é a maior economia da América do Sul e possui um mercado consumidor amplo, jovem e bastante aberto a novas experiências de consumo, estratégico de longo prazo. Enxergamos um potencial relevante nas categorias de bebidas geladas, chás e sorvete

Shu Mei, responsável pelo marketing da Mixue Brasil

Segundo a executiva, apesar das diferenças culturais, tanto o consumidor chinês como o brasileiro valorizam a boa relação entre qualidade, experiência e preço. Na China, porém, a preferência é por bebidas à base de chá e milk tea, enquanto no Brasil, a busca é por sabores frutados, refrescantes e ingredientes tropicais.

“Por isso, nossa estratégia não é simplesmente reproduzir o mercado chinês no Brasil. Buscamos preservar os clássicos e a identidade global da Mixue, ao mesmo tempo em que desenvolvemos produtos e experiências adequados ao mercado local.”

Criada em 2012 por brasileiros, a plataforma 99 foi comprada pela gigante chinesa Didi em 2018. “O país foi o primeiro movimento internacional da companhia e, hoje, é nosso maior mercado fora da China e um dos principais motores de crescimento da estratégia global”, diz Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99.

Segundo o executivo, o país engloba características estratégicas para a DiDi: tamanho, potencial de crescimento e terreno fértil para aplicar tecnologia em larga escala aos desafios de mobilidade. Atualmente a 99 soma 85 milhões de usuários ativos, presença em mais de 4,4 mil cidades e mais de 2,5 milhões de motoristas parceiros.

Nossa base de usuários cresceu mais de 50% nos últimos dois anos e, hoje, mais de 10 milhões de pessoas acessam o app diariamente

Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99

O aplicativo reúne mobilidade, logística, entrega de comida, conveniência e serviços financeiros. O próximo passo é incluir o transporte público. “Acabamos de iniciar em Salvador um projeto para vender bilhetes de metrô pelo aplicativo.”

Na opinião do executivo, tanto China como Brasil exigem que a empresa tenha capacidade tecnológica para operar grandes volumes, equilibrar oferta e demanda, aumentar a eficiência e reforçar a segurança. “Mas não existe uma fórmula única transportada de um país para outro. O Brasil tem hábitos, necessidades e dinâmica urbana próprios.”

O potencial de crescimento do delivery no país é a grande aposta do momento, e foco de uma disputa feroz com a conterrânea Keeta. A título de comparação, a região metropolitana de São Paulo registra cerca de 600 mil pedidos por dia, enquanto Xangai movimenta 3 milhões de entregas diárias, diz.

Segundo Rossini, a principal barreira para a expansão do setor na capital paulista reside no valor final para o consumidor. “Enquanto uma refeição entregue em Xangai custa cerca de R$ 20, em São Paulo o valor varia entre R$ 50 e R$ 70 — reflexo de uma estrutura de custos que ainda necessita de otimização”, destaca.

Só no último ano, a 99 investiu mais de R$ 2 bilhões na expansão da 99Food, além de impulsionar a eletromobilidade (acesso a veículos elétricos e ampliação da infraestrutura de recarga).

Em eletrodomésticos, a Midea criou uma joint venture com a americana Carrier em 2011 para operar na América Latina — a chinesa é majoritária, com 51% de participação. “O Brasil é estratégico para o grupo chinês pelo seu tamanho, potencial de crescimento e relevância das categorias de climatização e eletrodomésticos”, afirma Simone Camargo, diretora de marketing da Midea Carrier. No país, a empresa produz refrigeradores, máquinas de lavar e aparelhos de ar-condicionado residenciais e comerciais.

Segundo Camargo, a combinação entre capacidade industrial, engenharia e conhecimento do mercado local permite ao Brasil testar, adaptar e produzir soluções que atendam também às necessidades de outros mercados da América Latina.

A nacionalização da produção é parte central dessa estratégia, diz. Somente em Minas Gerais, os investimentos somam R$ 828 milhões, incluindo R$ 630 milhões destinados à implantação da fábrica de Pouso Alegre. “Hoje o Brasil é o segundo maior mercado do Grupo Midea fora da China”, afirma.

Entre os marketplaces asiáticos, o AliExpress é o mais longevo no país, está no Brasil há 15 anos. Em 2024, a empresa fechou uma parceria estratégica com o Magazine Luiza, com cada plataforma vendendo produtos no endereço da outra (Aliexpress oferece eletrônicos, beleza, ferramentas e escritório no Magalu, enquanto este último vende bens duráveis, eletrodomésticos, móveis e eletroportáteis no marketplace chinês).

“O Brasil é um país que oferece muitas oportunidades. Apenas 15% do mercado está digitalizado, frente à metade dos Estados Unidos e da China”, diz Briza Bueno, diretora-geral do AliExpress no Brasil e na América Latina, referindo-se ao percentual das vendas que ocorrem online.

De acordo com ela, o e-commerce chinês é cerca de 80 vezes maior em faturamento do que o brasileiro, mesmo atendendo uma população apenas 6,6 vezes maior. “Na China, as margens são reduzidas ao mínimo em prol da escala e do volume, mas no Brasil o mercado está em fase de consolidação.” Para avançar, porém, existe uma trava a ser vencida: a infraestrutura logística. “A China possui uma malha logística altamente integrada, enquanto no Brasil isso ainda está em desenvolvimento”, acrescenta.

Ainda assim, o desempenho do mercado brasileiro tem sido consistente. “Estamos entre os cinco maiores mercados globais de toda a operação do AliExpress, presente em mais de 200 territórios. Nosso objetivo é integrar o ecossistema brasileiro à cadeia global de comércio, gerando oportunidades para sellers locais e oferecendo a melhor experiência possível ao consumidor”.

FOTO: Divulgação

FONTE: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/09/20/alem-das-blusinhas-de-carro-a-sorvete-china-invade-consumo-brasileiro.htm