Alertas de desmate caíram 38% na Amazônia e 6% no Cerrado no primeiro semestre, segundo dados divulgados pelo Inpe.
247 – A Amazônia registrou, no primeiro semestre de 2026, o menor índice de desmatamento para o período desde o início da série histórica do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2016. Os dados, divulgados nesta sexta-feira (10) e antecipados pela Folha de São Paulo, mostram uma redução expressiva da devastação da floresta em relação ao mesmo período do ano passado.
Entre janeiro e junho, foram emitidos alertas para a perda de 1.295 quilômetros quadrados de vegetação nativa na Amazônia, uma queda de 38% em comparação com os primeiros seis meses de 2025. No Cerrado, os alertas totalizaram 3.142 quilômetros quadrados, o menor nível desde 2021, representando redução de 6% frente ao mesmo intervalo do ano anterior.
O sistema Deter é utilizado para orientar ações de fiscalização ambiental em tempo quase real. Já o cálculo oficial do desmatamento é realizado pelo sistema Prodes, também do Inpe, que utiliza metodologia mais detalhada e divulga seus resultados anualmente.
Somados, Amazônia e Cerrado concentram cerca de 73% do território brasileiro — 49% e 24%, respectivamente. Nos dois biomas, a área sob alerta de desmatamento alcançou 4.437 quilômetros quadrados no primeiro semestre, extensão equivalente a quase três vezes a área do município de São Paulo.
Considerando apenas o mês de junho, os alertas indicaram a perda de 297 quilômetros quadrados de vegetação na Amazônia e 482 quilômetros quadrados no Cerrado. Na comparação com junho de 2025, as reduções foram de 35% e 5%, respectivamente.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco, afirmou à Folha que os números indicam uma tendência consistente de redução da devastação nos dois biomas.
“Os números estão mostrando que esse processo de redução está sendo cumulativo, redução sobre redução. Então, estamos numa trajetória positiva, tanto na amazônia como no cerrado”, declarou.
Segundo o ministro, os resultados refletem a atuação integrada entre União, estados e municípios no combate ao desmatamento.
“É um resultado do Estado brasileiro: são várias políticas, de vários órgãos, de diferentes instâncias federativas que estão operando”, afirmou.
Capobianco acrescentou que o fortalecimento das políticas públicas ambientais pode garantir maior continuidade às ações de preservação.
“Estão sendo construídos instrumentos que dão uma condição de políticas mais estruturantes e que apontam para uma perspectiva de continuidade mais interessante, independente de quem estaria, digamos, na chefia ou na coordenação disso”, disse.
Tendência anual também aponta queda
O monitoramento do Inpe considera, para fins de análise, um ciclo de 12 meses, que vai de agosto de um ano a julho do seguinte, devido à sazonalidade das chuvas na região amazônica.
Nesse período, entre agosto de 2025 e junho de 2026, a área sob alerta de desmatamento na Amazônia somou 2.486 quilômetros quadrados, redução de 37% em relação ao ciclo anterior, quando haviam sido registrados 3.960 quilômetros quadrados.
No Cerrado, os alertas acumulados atingiram 4.686 quilômetros quadrados, queda de 8% na comparação com o intervalo entre agosto de 2024 e junho de 2025.
Especialistas destacam que os primeiros meses do ano costumam apresentar índices menores de desmatamento em razão da estação chuvosa, que dificulta tanto a derrubada da vegetação quanto a obtenção de imagens por satélite. Historicamente, o pico da devastação ocorre entre maio e setembro, quando o período seco favorece o avanço do desmate.
El Niño pode aumentar riscos no segundo semestre
Apesar dos resultados positivos, o governo acompanha com preocupação a chegada do fenômeno El Niño, que tende a provocar estiagens mais intensas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste durante o segundo semestre.
A redução das chuvas pode favorecer tanto o aumento do desmatamento quanto a ocorrência de incêndios florestais, colocando à prova a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em 2024 após os grandes incêndios registrados naquele período.
Estados concentram maiores áreas desmatadas
Na Amazônia, os maiores volumes de área sob alerta de desmatamento foram registrados em:
- Mato Grosso: 489 km²
- Pará: 391 km²
- Amazonas: 184 km²
No Cerrado, os estados com maiores áreas sob alerta foram:
- Maranhão: 839 km²
- Tocantins: 825 km²
- Piauí: 368 km²
A dinâmica da devastação difere entre os dois biomas. Na Amazônia, o desmatamento ocorre principalmente em áreas públicas não destinadas e em unidades protegidas invadidas. Já no Cerrado, a maior parte da supressão de vegetação acontece em propriedades privadas.
O Código Florestal também estabelece regras distintas para cada bioma. Enquanto na Amazônia Legal a vegetação nativa deve ser preservada em até 80% da propriedade, permitindo desmatamento de até 20%, no Cerrado a legislação autoriza, em determinadas situações, a supressão de até 80% da vegetação em imóveis rurais.
O desmatamento segue sendo a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. De acordo com o Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg), a atividade respondeu por 42% das emissões nacionais de carbono em 2024, último ano com dados consolidados. A redução da devastação é considerada estratégica para o cumprimento das metas climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris.
FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil-sustentavel/amazonia-registra-menor-desmatamento-em-dez-anos-no-primeiro-semestre/