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América Latina enfrenta um ano de extremos climáticos e desastres em 2025

O ano de 2025 foi o segundo mais quente já registrado, superado apenas por 2024, de acordo com dados consolidados até novembro. Em alguns levantamentos, aparece tecnicamente empatado com 2023. A média dos últimos três anos manteve temperaturas mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, colocando o mundo, ao menos temporariamente, em descumprimento da meta estabelecida pelo Acordo de Paris, firmado na COP21, em 2015, e reforçado na COP26, em 2021. 3

As temperaturas excepcionalmente elevadas, combinadas aos altos níveis de vapor d’água na atmosfera, favoreceram a ocorrência de ondas de calor sem precedentes, secas prolongadas, incêndios florestais e chuvas intensas, provocando impactos sociais, econômicos e ambientais severos e ampliando a vulnerabilidade de milhões de pessoas em toda a América Latina.

Furacões mais intensos no Atlântico

A temporada de furacões no Atlântico em 2025 foi considerada moderadamente ativa em número, mas muito intensa em força. O total de tempestades superou a média histórica, e cinco sistemas evoluíram para furacões. Quatro deles atingiram grande intensidade: Erin, Gabrielle, Humberto e Melissa.

O furacão Melissa, o quarto de categoria 5 da temporada, entrou para a lista dos mais fortes já observados na bacia atlântica. Em 28 de outubro, atingiu o sudoeste da Jamaica e provocou danos extensos também no leste de Cuba, no Haiti e na República Dominicana. O fenômeno causou 102 mortes e perdas financeiras estimadas em quase US$ 10 bilhões apenas na Jamaica, além de impactos de longo prazo, como deslocamento populacional e insegurança alimentar, especialmente no Haiti e na própria Jamaica.

Chuvas extremas e inundações

Diversos países da América Latina enfrentaram chuvas intensas, com enchentes, transbordamentos de rios, inundações repentinas e deslizamentos de terra, resultando em mortes e prejuízos econômicos expressivos.

Entre os dias 8 e 10 de outubro, a costa leste do México foi atingida por fortes chuvas e deslizamentos, deixando centenas de milhares de pessoas sem energia elétrica e com severos problemas de mobilidade urbana. No Equador, precipitações persistentes no sul do país provocaram o colapso de pontes e danos a edifícios. Em 13 de março, um deslizamento interrompeu o Sistema de Oleodutos Trans-Equatoriano, causando o pior derramamento de petróleo do país em oito anos.

Na Argentina, entre 7 e 9 de março, Bahía Blanca e áreas vizinhas registraram 400 mm de chuva em apenas oito horas, quase metade da precipitação média anual da cidade em um único evento. As enchentes resultaram em danos generalizados e pelo menos 17 mortes. Na Colômbia, chuvas entre 100 e 300 mm em diversas regiões, ao longo de 2025, provocaram deslizamentos e inundações que deixaram dezenas de mortos, sobretudo em Medellín.

Na Venezuela, rios transbordaram em vários estados, inundando residências e destruindo infraestruturas. No Brasil, episódios extremos também se multiplicaram: em São Paulo, choveu mais de 140 mm em apenas três horas no dia 24 de janeiro. Entre 25 e 30 de março, chuvas intensas afetaram o oeste do país, especialmente o Acre, na fronteira com Peru e Bolívia, forçando evacuações. O Rio Acre subiu 3,84 metros em menos de 24 horas em Rio Branco e alcançou 14,03 metros no fim de dezembro. No Rio Grande do Sul, entre 16 e 17 de junho, Encruzilhada do Sul registrou 159,2 mm de chuva, enquanto Santa Maria chegou a 152,6 mm.

Secas prolongadas e crise hídrica

A seca que se intensificou no México a partir de 2023 persistiu em 2025, afetando até 85% do território, sobretudo nas regiões Norte e Centro, e gerando uma grave crise hídrica para a agricultura e os reservatórios. Cuba também enfrentou escassez severa de água, especialmente nas províncias de Guantánamo e Holguín, com racionamento rigoroso e impactos na agricultura, na infraestrutura e no fornecimento de energia.

Na América do Sul, condições anormalmente secas foram registradas no centro da Bolívia, no norte do Peru e em áreas da Amazônia no início de 2025, prolongando a seca recorde observada em 2023 e 2024. O cenário elevou o risco de incêndios nas regiões fronteiriças entre Venezuela e Guiana. No centro da Argentina, houve déficits significativos de precipitação, assim como na bacia do rio Paraguai, onde os níveis dos rios permaneceram excepcionalmente baixos.

No Chile, o norte e o centro do país continuaram sob uma seca prolongada que já dura vários anos. Desde 2019, as secas na bacia do Paraná-La Plata tornaram-se mais frequentes e intensas. A bacia do rio Paraguai enfrentou 18 meses consecutivos de seca excepcional, entre fevereiro de 2024 e julho de 2025.

Ondas de calor e frio extremos

Entre fevereiro e maio, quatro ondas de calor atingiram o sul e o leste do México e o norte da América Central, com temperaturas entre 40°C e 45°C em estados como Tamaulipas, San Luis Potosí, Michoacán, Guerrero e Oaxaca. No Brasil, 2025 registrou sete ondas de calor, elevando recordes térmicos em várias cidades. Quaraí (RS) marcou 43,8ºC em 4 de fevereiro, a maior temperatura do país naquele período.

No Rio de Janeiro, os termômetros chegaram a 42 °C-44°C em fevereiro, e no dia 25 de dezembro a cidade atingiu sua temperatura máxima histórica: 40,1°C. Em São Paulo, a estação do Mirante de Santana registrou 37,2°C em 28 de dezembro, o maior valor para o mês em 64 anos. O Sudeste foi afetado por bloqueios atmosféricos que impediram a chegada de frentes frias, mantendo massas de ar quente e úmido sobre a região.

Em contraste, uma onda de frio recorde atingiu o sul da América do Sul entre 26 de junho e 3 de julho. O pico ocorreu em 30 de junho, com temperaturas 10°C a 15°C abaixo da média na Argentina, no Chile e no Uruguai. Foram registradas nevascas incomuns no deserto do Atacama e em áreas raras, como Mar del Plata. Pelo menos 15 mortes foram atribuídas ao frio extremo. Buenos Aires teve a menor temperatura desde 1991 (-1,9°C), enquanto Montevidéu registrou o valor mais baixo desde 1967 (5,8°C).

Mudanças climáticas e impactos futuros

O aquecimento global tem intensificado fenômenos extremos — como ondas de calor, secas, inundações, incêndios florestais e tempestades — tornando-os mais frequentes e destrutivos. Análises científicas posteriores indicaram que as mudanças climáticas causadas pelo homem tornaram eventos extremos, como as chuvas intensas em Bahía Blanca, mais prováveis.

Medidas urgentes são necessárias medidas urgentes, incluindo a redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, a transição para energias limpas, o transporte sustentável e a ampliação de políticas de adaptação para enfrentar impactos climáticos já inevitáveis.

Foto: RS/Fotos Públicas

FONTE: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/carlos-nobre/2026/01/27/america-latina-enfrenta-ano-de-extremos-climaticos-e-desastres-em-2025.htm