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Analista chinês Jiang Xueqin vê EUA presos no Irã, Europa em guerra contra a Rússia e possível barganha com a China

Analista afirma que crise no Estreito de Hormuz pode acelerar ruptura da ordem global.

247 – O analista Jiang Xueqin afirmou que a crise envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel pode ter consequências muito mais amplas do que uma disputa regional no Oriente Médio, afetando energia, fertilizantes, comércio global, dívida americana, guerra na Ucrânia, Taiwan e a própria estabilidade do Ocidente.

As declarações foram feitas em entrevista concedida ao canal do professor Glenn Diesen no YouTube, na qual Jiang avaliou que a atual conjuntura internacional combina uma crise militar no Oriente Médio, o prolongamento da guerra na Europa, tensões no Leste Asiático e uma possível reorganização estratégica entre Estados Unidos e China.

Segundo ele, o Estreito de Hormuz se tornou um ponto central da disputa. Jiang afirmou que o Irã já teria imposto, na prática, controle sobre a região e estaria cobrando tarifas de passagem. Para o analista, caso essa situação se mantenha, Teerã teria meios de reconstruir sua economia, industrializar-se e aprofundar relações comerciais com China e Rússia.

“O mundo não está de forma alguma preparado para as consequências econômicas e geopolíticas radicais do que está acontecendo agora”, disse Jiang, ao comentar os impactos potenciais de uma interrupção prolongada no fluxo de energia e insumos estratégicos.

Hormuz, energia e fertilizantes no centro da crise

Jiang sustentou que a importância do Golfo Pérsico para a economia mundial vai além do petróleo. Ele afirmou que a região tem papel crucial no fornecimento de energia, no transporte internacional e na produção de fertilizantes. Em sua avaliação, uma crise prolongada poderia afetar diretamente a segurança alimentar global.

“É muito possível que, em cinco ou seis meses, vejamos fome generalizada ao redor do mundo, especialmente na África”, afirmou, relacionando a crise ao período de plantio em várias regiões.

O analista disse ainda que os países do Golfo, historicamente integrados ao sistema econômico global por meio da venda de petróleo em dólares e da reciclagem desses recursos na economia americana, enfrentariam uma mudança estrutural se perdessem o controle sobre rotas comerciais estratégicas.

Para Jiang, a situação coloca Washington diante de um dilema. Ele afirmou que os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval contra o Irã, mas teriam dificuldade de sustentá-lo de forma eficaz, em razão da extensão do Oceano Índico e dos limites operacionais da Marinha americana.

Israel, Líbano e o risco de escalada regional

Na entrevista, Jiang afirmou que a guerra não pode ser compreendida apenas como uma disputa entre Estados Unidos e Irã. Para ele, Israel teria interesse em manter a escalada, sobretudo por causa de seus objetivos regionais.

“Israel é este pitbull que os americanos não conseguem colocar de volta na coleira”, disse Jiang, ao avaliar que Washington teria dificuldades para impor uma negociação de paz se Tel Aviv insistir em manter operações no Líbano.

O analista afirmou que qualquer acordo entre Estados Unidos e Irã esbarraria em três pontos principais: a questão nuclear iraniana, o controle sobre o Estreito de Hormuz e o Líbano. Segundo ele, Teerã exigiria que qualquer tratado de paz também se aplicasse ao Líbano, o que implicaria a retirada israelense do país.

Jiang avaliou que esse ponto torna uma paz duradoura improvável. “Não há absolutamente nenhuma maneira de a paz ser negociada agora sem resolver essa questão do Líbano”, afirmou.

Trump, Cuba e novos focos de tensão

Jiang também afirmou que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, não poderia aceitar uma percepção de derrota no Irã. Para ele, a Casa Branca precisaria de uma vitória política e poderia deslocar a atenção para outros alvos, como Cuba.

O analista mencionou o embargo americano contra Havana e a pressão sobre lideranças cubanas como indícios de que a ilha poderia se tornar um novo foco de tensão. Segundo Jiang, Rússia e China estariam tentando apoiar Cuba em meio a esse cenário.

“É muito possível que vejamos Cuba como o próximo ponto de tensão global”, disse.

Ele também citou a Península Coreana como outro possível foco de crise, além da continuidade da guerra na Europa. Para Jiang, a combinação desses conflitos pode produzir uma dinâmica de instabilidade prolongada.

Rússia e China reagem de formas diferentes ao Irã

Na avaliação de Jiang, Moscou e Pequim enxergam a crise no Irã de formas distintas. Ele afirmou que a Rússia considera o Irã essencial aos seus interesses estratégicos e estaria disposta a apoiá-lo, inclusive por meio do Mar Cáspio, caso Teerã enfrente maiores dificuldades.

Segundo Jiang, o presidente Vladimir Putin teria adotado uma posição clara ao receber o chanceler iraniano. “Putin foi muito claro ao dizer que a Rússia apoia muito o povo iraniano e que a Rússia ficará ao lado do povo iraniano”, afirmou.

A China, segundo ele, adota postura mais cautelosa. Jiang disse que Pequim busca preservar o comércio global e se apresenta como mediadora, defendendo paz e cessar-fogo no Oriente Médio.

“A atitude dos chineses é neutra. Eles não estão tomando partido. A China está tentando ser mediadora no caso”, afirmou.

Dívida americana e impossibilidade de recuo

Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação de Jiang sobre a dívida pública dos Estados Unidos. Ele afirmou que Washington não pode simplesmente recuar da guerra contra o Irã porque isso abalaria a credibilidade do dólar e dos títulos do Tesouro americano.

“É impossível para os Estados Unidos recuarem desta guerra. E a razão é a dívida nacional, de 39 trilhões de dólares”, declarou.

Para Jiang, se Washington demonstrar incapacidade de impor sua vontade no Oriente Médio, outros países poderiam abandonar os títulos do Tesouro americano, enfraquecendo ainda mais a posição financeira dos Estados Unidos.

Ele afirmou que os Estados Unidos também não poderiam manter indefinidamente uma guerra aérea contra o Irã, pois teriam consumido grandes estoques de munição em poucas semanas. Na visão do analista, isso poderia levar Washington a considerar uma guerra terrestre, embora tal opção exigisse mobilização nacional e forte justificativa política interna.

Europa, Ucrânia e a guerra contra a Rússia

Ao tratar da guerra na Ucrânia, Jiang afirmou que as elites europeias vivem em uma bolha e se recusam a reconhecer a situação no campo de batalha. Segundo ele, há uma crença persistente em Bruxelas de que a Ucrânia estaria vencendo, a Rússia estaria próxima do colapso econômico e Putin estaria politicamente enfraquecido.

“As pessoas em Bruxelas simplesmente vivem em seu pequeno mundo de fantasia”, disse.

O analista afirmou que qualquer pessoa que questione essa narrativa é tratada como traidora ou pessimista. Para ele, isso explica a continuidade da guerra e a disposição europeia de ampliar o confronto.

Jiang foi ainda mais duro ao descrever os dirigentes europeus. “A Europa é controlada por burocratas. Estes não são líderes, não são visionários, não são pessoas responsáveis perante o povo”, afirmou.

Estratégia americana de conflitos permanentes

Jiang defendeu a tese de que os Estados Unidos estariam tentando reorganizar sua posição global por meio de uma estratégia de conflitos contínuos fora do hemisfério ocidental. Segundo ele, Washington já não consegue garantir paz e segurança ao mundo como fazia no período de hegemonia unipolar.

“Agora os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de garantir paz e segurança ao mundo”, afirmou.

Na visão de Jiang, a estratégia americana seria recuar para uma espécie de fortaleza hemisférica, sob uma lógica semelhante à Doutrina Monroe, enquanto estimula ou prolonga conflitos na Europa, no Oriente Médio e na Ásia-Pacífico.

Ele comparou essa lógica à Segunda Guerra Mundial, afirmando que os Estados Unidos se beneficiaram historicamente do esgotamento de outras potências. “A Segunda Guerra Mundial foi o que tornou os Estados Unidos grandes, porque os europeus se exauriram no campo de batalha”, disse.

Japão, Taiwan e a possível barganha com a China

Na parte final da entrevista, Jiang tratou da disputa entre Estados Unidos e China. Ele afirmou que pode haver uma grande barganha em curso entre Washington e Pequim, envolvendo comércio, acesso ao mercado financeiro chinês e a questão de Taiwan.

Segundo ele, os Estados Unidos estariam interessados em acessar a poupança das famílias chinesas e em abrir espaço para empresas financeiras americanas. Em troca, poderiam adotar posição mais explícita contra a independência de Taiwan.

“A América está perfeitamente disposta a sacrificar Taiwan se isso significar que ela conseguirá acessar o mercado financeiro da China”, afirmou.

Jiang disse que Taiwan não seria necessariamente o principal foco de tensão nos próximos anos. Para ele, o problema mais grave pode estar na Coreia do Norte, especialmente diante da vulnerabilidade de Seul à artilharia norte-coreana.

Crise de legitimidade no Ocidente

Jiang também afirmou que o Ocidente vive uma crise civilizacional marcada por declínio demográfico, financeirização, concentração de riqueza, enfraquecimento moral e perda de confiança nas instituições.

“O que testemunharemos em nossa vida é a queda do Ocidente”, afirmou.

Ele citou a baixa natalidade, o envelhecimento populacional, a dependência de imigração, o endividamento dos jovens e a concentração extrema de riqueza como sintomas de decadência social.

Para Jiang, sociedades em declínio perdem a capacidade de distinguir interesses públicos de interesses privados e passam a ser governadas por elites financeiras e burocráticas. “A sociedade já não produz nada. Ela apenas aposta, especula, e os jovens caem em dívidas esmagadoras”, disse.

Imigração, cultura e tensões sociais

Na parte final da conversa, Jiang criticou também a forma como o debate sobre imigração é conduzido no Ocidente. Ele afirmou que a discussão costuma ser reduzida a uma oposição simplista entre defensores da imigração e racistas, sem reflexão sobre cultura, coesão social e exploração econômica.

O analista afirmou ainda que parte da imigração legal nos Estados Unidos pode funcionar como uma forma de exploração de trabalhadores estrangeiros, citando o sistema de vistos H-1B.

“Muito da imigração legal é tráfico humano”, declarou, ao afirmar que trabalhadores estrangeiros podem ficar presos a empresas e vulneráveis à deportação caso percam seus empregos.

Ao longo da entrevista, Jiang apresentou um diagnóstico sombrio da conjuntura internacional. Para ele, a crise no Irã, a guerra na Ucrânia, as tensões na Ásia e a instabilidade interna do Ocidente não são fenômenos isolados, mas partes de uma transição global marcada pela erosão da hegemonia americana e pelo risco de conflitos cada vez mais amplos.

Foto: Reprodução Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/analista-chines-jiang-xueqin-ve-eua-presos-no-ira-europa-em-guerra-contra-a-russia-e-possivel-barganha-com-a-china