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Analista geopolítico Xueqin Jiang explica por que uma guerra total e uma grande crise financeira são iminentes

Ele afirma ver sinais de ataque dos EUA ao Irã e diz que o conflito pode acelerar o colapso do modelo financeiro e espalhar instabilidade pelo mundo.

247 – O analista geopolítico Xueqin Jiang, apresentador do canal Predictive History no YouTube e autor de análises publicadas também no Substack, afirmou que há “muitas indicações” de que um ataque dos Estados Unidos ao Irã pode ser iminente e que o desdobramento do conflito teria impacto decisivo na ordem internacional nas próximas décadas. A avaliação foi apresentada em entrevista ao apresentador David Lin, em um vídeo publicado no YouTube com o título “Guerra total global iminente enquanto os EUA preparam ataque ao Irã”.

Na conversa, Jiang relaciona a movimentação militar norte-americana a um encadeamento de eventos políticos e econômicos que, segundo ele, se aproxima de um ponto de ruptura. “Acho que já há muitas indicações de que um ataque é iminente”, disse, citando como sinais o cancelamento de voos por companhias aéreas para destinos do Oriente Médio e a percepção de que uma ofensiva estaria sendo preparada. Ele também comenta a declaração atribuída a Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — de que uma armada de navios de guerra estaria a caminho do Oriente Médio “por precaução”, enquanto Washington observa a reação do governo iraniano diante de protestos internos.

Crise econômica e protestos: o argumento de “revolução colorida”

Ao interpretar a onda de manifestações no Irã, Jiang sustenta que haveria um roteiro típico de “revolução colorida”, com uma crise econômica agravada e mobilização impulsionada por redes de comunicação. Segundo ele, “especuladores cambiais” teriam destruído o valor da moeda iraniana no mercado internacional, levando comerciantes a protestar contra “má gestão e corrupção”. “Temos de lembrar que isso é um manual clássico de revolução colorida”, afirmou.

Ele acrescenta que os protestos se espalharam, houve violência contra policiais e o governo iraniano respondeu com repressão, citando “relatos” de um número elevado de mortos. Nesse contexto, Jiang afirma que o Estado iraniano teria interrompido comunicações e restringido a internet, o que teria permitido localizar terminais usados para coordenação dos protestos. Para ele, essa ação teria dificultado a dinâmica que, segundo sua leitura, serviria de “janela” para uma ofensiva externa.

O objetivo seria “colapso do Estado”, não apenas troca de governo

Questionado sobre a finalidade de um eventual ataque, Jiang rejeita a ideia de que se trate apenas de derrubar o governo iraniano. “O objetivo não é mudança de regime, por si só. O objetivo é o colapso do Estado”, disse, defendendo que a estratégia buscaria enfraquecer a capacidade estatal de fornecer serviços básicos e, idealmente, fragmentar o país em unidades menores, dadas as diversidades regionais e étnicas que ele menciona.

Para sustentar a tese de um plano de longa duração, ele cita a revelação atribuída ao general norte-americano Wesley Clark sobre um suposto roteiro do Pentágono para “mudança de regime em sete países”, argumentando que o Irã seria o último alvo dessa sequência.

A resposta do Irã: “guerra econômica de atrito”

Na avaliação do analista, o confronto teria, de um lado, ataques à infraestrutura crítica e, de outro, uma estratégia iraniana de desgaste. “O plano americano é atacar infraestrutura crítica… água e eletricidade”, disse. Do lado iraniano, ele afirma que a alternativa seria elevar o custo global do conflito, mirando bases dos EUA na região e ameaçando rotas energéticas.

Nesse ponto, Jiang menciona o Estreito de Hormuz e associa o risco de choque global à dependência de países asiáticos do petróleo do Oriente Médio. Para ele, uma escalada colocaria na mesa tanto a possibilidade de arrastar outros atores quanto a de gerar pressão internacional por cessar-fogo e negociação.

Impedir uma aliança Rússia–Irã–China seria o “centro” da estratégia

Ao explicar por que o Irã seria central, Jiang afirma que o objetivo dos EUA seria inviabilizar uma articulação eurasiática entre Rússia, Irã e China. “O objetivo é interromper a possibilidade de uma grande aliança entre Rússia, Irã e China”, afirmou. Na sua leitura, essa convergência combinaria força militar russa, recursos econômicos chineses e a posição estratégica iraniana, criando condições para ampliar conexões terrestres e reduzir a primazia de potências marítimas no comércio internacional.

Ele também argumenta que Rússia e China não aceitariam a queda do Irã, por considerarem o país vital para sua segurança e para projetos de integração econômica. Em sua visão, o Irã seria peça-chave tanto para a “retaguarda” estratégica russa quanto para corredores ligados à iniciativa chinesa de infraestrutura.

“Império em colapso” e militarização do comércio

Jiang descreve os Estados Unidos como uma potência em declínio e afirma que, com o enfraquecimento do chamado “poder brando” e a perda de credibilidade da arquitetura financeira liderada pelo dólar, Washington recorreria cada vez mais à coerção militar para controlar rotas comerciais. Ele menciona uma estratégia de domínio de “rotas de comércio” como instrumento de manutenção de influência e sustenta que o conflito com o Irã não poderia ficar “localizado”, justamente por afetar energia, comércio e alianças.

Nesse raciocínio, ele evoca exemplos históricos e episódios mais recentes para argumentar que impérios, quando percebem o fim de um ciclo, tendem a agir com mais agressividade. Ele também cita níveis de endividamento dos EUA e critica a eficácia de aumentos orçamentários militares, sugerindo que parte desse gasto alimentaria o complexo industrial-militar.

Ouro e prata: sinal de crise financeira e “fim do modelo fiduciário”

Além da dimensão bélica, Jiang associa sua tese de risco sistêmico ao comportamento de investidores. Ao comentar a disparada do ouro e da prata mencionada na entrevista, ele afirma: “Os investidores perceberam que o mundo está colapsando, que o modelo de moeda fiduciária não é mais viável, que o mundo caminha para uma guerra total”.

Para ele, a busca por metais preciosos indicaria expectativa de ruptura econômica e de um cenário em que países passariam a se embargar mutuamente, enfraquecendo o comércio global. É nesse conjunto — guerra ampliada, desorganização do comércio e descrédito monetário — que ele insere a hipótese de uma grande crise financeira.

“O que acontecer no Irã vai determinar a ordem mundial”

Ao final, Jiang reforça sua tese de que o Irã seria o teatro mais decisivo. “O que acontecer no Irã vai determinar a ordem mundial pelos próximos 50 anos”, afirmou, prevendo uma guerra prolongada caso os EUA avancem militarmente. Na sua leitura, os Estados Unidos não teriam condições de sustentar um conflito longo, o que poderia produzir instabilidade interna no próprio país.

Ele também aponta outro foco que considera subestimado: a tensão entre China e Japão, associada a disputas por rotas marítimas e “liberdade de navegação”, sugerindo que a instabilidade se espalharia por diferentes regiões.

A entrevista, em síntese, apresenta uma narrativa em que a possível ofensiva contra o Irã se conecta a disputas energéticas, rearranjos financeiros e fraturas entre aliados tradicionais, elevando o risco de uma escalada internacional. Jiang sustenta que o mundo já estaria entrando em uma fase em que integração econômica, sanções, tarifas e controle de rotas passam a funcionar como armas — e que a combinação desses fatores pode acelerar tanto a guerra quanto uma crise financeira de grandes proporções.

Foto: Reprodução Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/analista-geopolitico-xueqin-jiang-explica-por-que-uma-guerra-total-e-uma-grande-crise-financeira-sao-iminentes