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“As big techs ressuscitaram Trump”, diz Reynaldo Aragon

Reynaldo Aragon afirma que big techs atuam na guerra, influenciam eleições e integram a estrutura de poder dos EUA.

247 – As grandes empresas de tecnologia passaram a ocupar um lugar central nos conflitos contemporâneos, na economia global e na disputa política, segundo a avaliação do jornalista especializado em geopolítica Reynaldo Aragon. Ao analisar a escalada de tensões internacionais, ele sustentou que a guerra mudou de natureza e hoje envolve não apenas armamentos e territórios, mas também dados, rotas comerciais, plataformas digitais e sistemas privados que sustentam o funcionamento dos Estados.

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Aragon afirmou que o cenário atual expõe uma transformação profunda no modo como as potências atuam. Para ele, a guerra contemporânea deixou de ser travada prioritariamente pela ocupação territorial e passou a se concentrar em estruturas estratégicas de circulação econômica e informacional. “A guerra hoje não é mais por território; ela é mais por fluxos comerciais, por rotas marítimas, por rotas comerciais, porque quem controla esse fluxo, quem controla essas rotas, controla a produção de um país, controla as riquezas de um país”, disse.

Na avaliação de Aragon, esse novo padrão pode ser observado em diferentes frentes de conflito, do Leste Europeu ao Oriente Médio. Ele relacionou a disputa em torno da Ucrânia e da Rússia ao controle de corredores euroasiáticos e inseriu o Irã nesse mesmo tabuleiro geopolítico. Segundo o jornalista, o objetivo estratégico dos Estados Unidos seria atingir centros logísticos e comerciais decisivos para conter o avanço chinês e de seus parceiros. “Tanto o Irã quanto a Rússia são a última fronteira antes de chegar na China, cada um de um lado”, afirmou.

Ao desenvolver sua análise, Aragon destacou que as big techs adquiriram três funções decisivas nesse novo ambiente. A primeira seria a operacional, ligada ao uso de redes satelitais, dados geográficos, sistemas em nuvem e processamento de informações no campo de batalha. A segunda seria a econômica, pela dependência de transações financeiras e comerciais dessas plataformas. A terceira, segundo ele, seria cultural e ideológica, por meio da circulação de narrativas e conteúdos nas redes. “Essas empresas têm três importâncias fundamentais para a guerra”, resumiu.

Segundo Aragon, o caso dos ataques a infraestruturas tecnológicas no Oriente Médio ilustra essa mudança. Em sua leitura, quando uma nuvem de armazenamento ou processamento é atingida, não se trata apenas de um problema técnico isolado, mas de um golpe sobre cadeias amplas de circulação econômica. “Você destruindo a nuvem da Amazon, você está impedindo que várias transações comerciais sejam feitas no Oriente Médio”, afirmou. Ele acrescentou que esse tipo de ação afeta pagamentos, deslocamentos, hospedagens, companhias aéreas e uma série de sistemas integrados à vida econômica.

O jornalista sustentou ainda que a centralidade dessas corporações chegou a tal ponto que elas deixaram de ser apenas fornecedoras do Estado norte-americano para se tornarem parte de sua infraestrutura. “Você atacar a Amazon, a Alphabet e a Palantir, ou qualquer outra dessas grandes empresas, você está atacando a infraestrutura do Estado”, declarou. Em sua avaliação, a dependência é tamanha que o próprio governo dos Estados Unidos teria perdido autonomia diante da iniciativa privada em áreas estratégicas. “Hoje o Estado americano depende de empresas da iniciativa privada para poder fazer a própria gestão da guerra”, afirmou.

Ao comentar o papel da Meta, Aragon foi ainda mais enfático no campo da disputa política e cultural. Para ele, a empresa ocupa posição central na chamada guerra cultural, por controlar plataformas de enorme capilaridade social. Segundo sua análise, os dados acumulados por Meta, Google e outras companhias alimentam estruturas de vigilância, monitoramento e modelagem de comportamento em escala massiva. “Essas empresas têm uma digital sua do seu comportamento online”, disse, ao se referir à coleta contínua de informações sobre deslocamentos, preferências e hábitos dos usuários.

Nesse ponto, Aragon argumentou que o uso político desses dados não se limita ao mercado publicitário ou ao ambiente corporativo. Em sua visão, trata-se de um instrumento com impacto direto sobre mecanismos de poder, repressão e guerra. Ao citar ferramentas de localização e monitoramento, ele afirmou que esses bancos de dados podem ser utilizados para perseguir imigrantes, identificar lideranças e apoiar ações de vigilância em diferentes territórios. “Tudo isso é utilizado no campo de batalha”, declarou.

A crítica de Aragon às plataformas também se estendeu à política interna dos Estados Unidos. Para ele, essas empresas não apenas concentram poder econômico, como também exercem influência decisiva sobre processos eleitorais e rearranjos institucionais. “Em 2022, o Partido Democrata, alguns parlamentares passaram a questionar o poder dessas empresas dentro dos Estados Unidos, dentro da máquina do Estado”, observou. Na sequência, fez a afirmação mais contundente da entrevista ao relacionar a ação das plataformas ao retorno de Donald Trump ao centro da disputa eleitoral. “Essas empresas, através dos seus algoritmos e dos seus interesses, trouxeram o Trump de volta para o jogo eleitoral e fizeram ele ganhar, ajudaram ele a ganhar com seus algoritmos, com seu engajamento”, disse.

Na análise do jornalista, essa associação entre big techs e poder político produz efeitos globais, inclusive na América Latina. Ele afirmou que a força dessas corporações extrapola os Estados Unidos e incide sobre o Brasil, a Rússia e países africanos que enfrentam disputas anticoloniais. “O poder deles global é enorme e eles têm um poder político muito grande, em especial nos países do Ocidente”, declarou. Em sua avaliação, poucos países tentam hoje se desvencilhar dessa engrenagem.

Aragon também tratou o conflito envolvendo o Irã como um caso emblemático de guerra híbrida, na qual bombardeios convencionais, sabotagem tecnológica, pressão econômica e disputa narrativa se articulam simultaneamente. “A guerra no Irã é o melhor exemplo que a gente tem do que é uma guerra híbrida sendo exposta para todos”, afirmou. Segundo ele, a guerra cibernética busca “tirar a coerência do sistema”, desorganizando radares, satélites e redes de informação para comprometer a capacidade de reação do adversário.

Ao comentar essa dimensão, ele enfatizou que a infraestrutura tecnológica digital passou a ser alvo primário dos conflitos do século XXI. “A infraestrutura tecnológica digital é parte integrante da guerra do século XXI e, a partir de hoje, ficou claro que são alvos primários”, disse. Na mesma linha, argumentou que enfraquecer sistemas de comunicação e informação se tornou passo decisivo para “cegar” o inimigo e desorganizar sua cadeia de comando.

Na parte final da entrevista, Aragon ampliou o escopo da análise para o Brasil e a América Latina. Segundo ele, a região já está inserida nesse ambiente de disputa global, seja pelo avanço da extrema direita, seja pela relevância estratégica de seus territórios e recursos naturais. “A América Latina já está inclusa nesse conflito, já está acontecendo aqui”, afirmou. Ao citar a Amazônia e a militarização do entorno regional, ele sustentou que a geopolítica sul-americana tende a ganhar peso crescente nos próximos anos.

Para o jornalista, o mundo atravessa uma transição de grande intensidade, com desdobramentos ainda imprevisíveis. “O mundo está em transformação”, resumiu. Em sua leitura, os conflitos em curso não são episódios isolados, mas sinais de uma reorganização internacional em que tecnologia, finanças, guerra e política atuam de forma cada vez mais entrelaçada.

FOTO: Sede da Apple e Amazon, nos Estados Unidos. Imagens: Adobe Stock – Manipulação: Estadão.

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/as-big-techs-ressuscitaram-trump-diz-reynaldo-aragon