Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Bharat, a Índia que se reconheceu como civilização, recuperou seu orgulho e partiu para o desenvolvimento

A experiência indiana sob Narendra Modi combina afirmação civilizacional, pragmatismo econômico, crescimento acelerado e uma política externa que busca transformar Bharat em uma das potências centrais da nova ordem mundial.

Há duas maneiras de olhar para a Índia contemporânea. A primeira é enxergá-la simplesmente como o país mais populoso do planeta, uma antiga colônia britânica que conquistou sua independência em 1947 e que hoje tenta superar os imensos desafios sociais produzidos por sua escala demográfica. A segunda é tentar compreender como os próprios indianos vêm sendo estimulados a enxergar seu país: não apenas como India, mas como Bharat, uma civilização milenar que pretende recuperar sua confiança em si mesma e transformar essa consciência em desenvolvimento e poder.

É nessa segunda perspectiva que o primeiro-ministro Narendra Modi, que completa 76 anos nesta quinta-feira, 17 de setembro, deve ser compreendido.

Desde que chegou ao poder nacional, em 2014, depois de governar Gujarat por mais de uma década, Modi construiu um projeto no qual identidade nacional, desenvolvimento econômico e projeção internacional aparecem cada vez mais interligados. A ideia subjacente é a de que Bharat não precisa deixar de seguir seus próprios paradigmas civilizacionais para se modernizar.

Ao contrário. Na narrativa promovida por Modi, a recuperação da confiança civilizacional é apresentada como uma das condições para que a Índia possa ocupar plenamente seu lugar no século XXI.

De India a Bharat

Bharat não é uma invenção de Modi. É um dos nomes mais antigos da civilização indiana e está inscrito na própria Constituição, cujo artigo primeiro começa com a fórmula: “India, that is Bharat”.

O nome India tampouco foi inventado pelos britânicos. Sua origem remonta ao Sindhu, o rio Indo, cuja denominação atravessou persas, gregos e romanos até produzir o termo pelo qual o subcontinente se tornou conhecido no Ocidente.

O colonialismo britânico, entretanto, institucionalizou India como denominação política e administrativa do território sob seu domínio.

Bharat remete a outra camada da história: à maneira como essa civilização historicamente se reconheceu. Existe inclusive uma interpretação espiritual, mais poética do que etimologicamente consensual, que associa bhā à luz e rata àquele que está dedicado ou imerso nela. Bharat seria, nessa leitura, a terra dos que buscam a luz.

O significado político contemporâneo é ainda mais importante. Ao enfatizar Bharat, Modi procura situar a Índia moderna dentro de uma continuidade civilizacional muito anterior ao colonialismo.

Não se trata apenas de trocar uma palavra por outra. Trata-se de uma disputa sobre a maneira como um povo conta sua própria história.

A questão Nehru

É impossível compreender essa transformação sem passar por Jawaharlal Nehru, primeiro chefe de governo da Índia independente e uma das figuras mais importantes de sua história.

Nehru recebeu um país profundamente pobre, traumatizado pela Partição de 1947 e marcado por quase dois séculos de dominação britânica. Procurou construir uma Índia secular, científica, industrial e soberana.

Criou instituições, apostou na indústria pesada, fortaleceu a capacidade científica do país e ajudou a estabelecer a Índia como uma voz independente na política internacional.

Mas seu legado tornou-se objeto de intensa revisão histórica e política.

Seus críticos apontam sobretudo quatro problemas: o excesso de planejamento e controle estatal sobre a economia; o sistema de licenças que posteriormente ficaria conhecido como Licence Raj; os erros estratégicos na relação com a China que antecederam a traumática guerra de 1962; e determinadas escolhas relacionadas à relação com o Paquistão.

Há ainda uma crítica mais profunda, de natureza cultural. Para setores do nacionalismo hindu, o projeto de modernização associado a Nehru teria conferido peso insuficiente à matriz civilizacional hindu na definição da identidade do Estado.

Seus defensores respondem que o secularismo era indispensável para preservar uma sociedade extremamente plural e que a industrialização, as universidades, a ciência e as instituições construídas naquele período forneceram parte das bases para o desenvolvimento posterior.

Talvez a oposição entre Nehru e Modi seja, portanto, menos simples do que parece. Ambos buscaram industrialização, soberania, ciência, autonomia internacional e grandeza nacional. O que mudou profundamente foram os instrumentos econômicos e a narrativa cultural utilizada para perseguir esses objetivos.

Nehru perguntava, em essência, como transformar uma civilização antiga recém-libertada do colonialismo em um Estado moderno. O projeto associado a Modi acrescenta outra pergunta: por que Bharat precisaria afastar-se de sua identidade civilizacional para se tornar moderna?

Gujarat, o laboratório

Antes da Índia de Modi existiu o Gujarat de Modi. Ele governou o estado entre 2001 e 2014. Gujarat já possuía uma extraordinária tradição comercial e empresarial, uma longa costa voltada para o Mar da Arábia e fortes conexões históricas com o Golfo, a África e outras partes da Ásia. É também a terra de Mahatma Gandhi.

Modi não criou essa cultura empresarial. Procurou utilizá-la como plataforma de desenvolvimento. Seu governo enfatizou infraestrutura, energia, industrialização, investimentos e aproximação com empresas. O Vibrant Gujarat tornou-se a grande vitrine dessa estratégia.

O chamado “modelo Gujarat” seria posteriormente apresentado na campanha de 2014 como demonstração da capacidade administrativa de Modi. Seus resultados e limitações foram intensamente debatidos na Índia, inclusive em relação aos indicadores sociais. Foi dessa experiência complexa que ele chegou a Nova Déli em 2014.

Os números da transformação

Os resultados econômicos posteriores ajudam a explicar por que a experiência indiana passou a despertar tanta atenção internacional.

Quando Modi chegou ao poder, em 2014, o PIB nominal da Índia era de aproximadamente US$ 2,04 trilhões. Em 2025, segundo os dados mais recentes do Banco Mundial, chegou a cerca de US$ 3,96 trilhões, e com os dados preliminares de 2026 já superou US$ 4 trilhões.

A economia indiana atravessou nesse intervalo o enorme choque da Covid-19. Ainda assim, sua expansão média desde 2014 ficou acima de 6% ao ano. Retirado excepcionalmente o ano da pandemia, a ordem de grandeza supera 7% ao ano.

Em 2025, a Índia cresceu 7,6%, enquanto o Brasil cresceu 2,3%.

A comparação entre os dois países ajuda a compreender tanto a força quanto o desafio indiano.

Em valores nominais, o PIB indiano alcançou aproximadamente US$ 3,96 trilhões em 2025, contra US$ 2,28 trilhões do Brasil. A economia da Índia, portanto, já é cerca de 74% maior que a brasileira.

Mas a situação se inverte quando olhamos para a renda por habitante. O PIB per capita nominal indiano ficou em aproximadamente US$ 2,7 mil. O brasileiro alcançou cerca de US$ 10,7 mil. Em dólares correntes, portanto, o PIB por habitante do Brasil ainda é quase quatro vezes o da Índia.

Isso ocorre fundamentalmente porque Bharat abriga aproximadamente 1,46 bilhão de pessoas, contra pouco mais de 210 milhões no Brasil.

É justamente essa combinação entre enorme escala e renda individual ainda relativamente baixa que revela a dimensão do desafio indiano.

Quando entra o poder de compra

A fotografia muda consideravelmente quando utilizamos a paridade de poder de compra, ou PPC, que leva em consideração as diferenças de preços entre os países.

Por esse critério, o PIB indiano em 2025 alcançou aproximadamente US$ 17,2 trilhões internacionais, contra cerca de US$ 5 trilhões do Brasil. A economia indiana passa, nessa métrica, a representar aproximadamente 3,4 vezes a brasileira.

Também diminui muito a diferença de renda individual. O PIB per capita em PPC fica na ordem de US$ 11,7 mil para a Índia e US$ 23,4 mil para o Brasil. Considerada a diferença do custo de vida, portanto, o PIB por habitante brasileiro é aproximadamente duas vezes o indiano — e não quatro vezes, como sugere a comparação em dólares nominais.

Os dois indicadores contam histórias complementares.

O PIB nominal é particularmente relevante para medir capacidade financeira internacional, importações e poder econômico expresso em moedas internacionais. A PPC ajuda a compreender melhor a quantidade de bens e serviços que aquela produção representa dentro do próprio país, ou seja, indica o tamanho de seu mercado interno.

É precisamente aí que entra o Viksit Bharat 2047, a ambição de transformar a Índia em um país desenvolvido até o centenário de sua independência.

Modernizar sem deixar de ser Bharat

Esse talvez seja o aspecto mais singular do projeto de Modi. A modernização indiana é acompanhada por uma forte recuperação de símbolos, referências e conceitos da própria tradição civilizacional.

Templos convivem com tecnologia digital. Yoga e inteligência artificial não são apresentados como universos incompatíveis. Tradição e modernidade são colocadas lado a lado.

A mensagem política é que um país não precisa tornar-se culturalmente ocidental para tornar-se tecnologicamente avançado.

É também nesse contexto que se pode compreender a importância de Swami Vivekananda no imaginário da Índia contemporânea. Muito antes da independência, Vivekananda, que dá nome a um dos principais think-tanks da Índia, procurou transmitir aos indianos uma mensagem de força, autoconfiança e recuperação espiritual diante da dominação colonial.

O orgulho civilizacional precede Modi. O que seu governo fez foi incorporá-lo de maneira particularmente intensa ao projeto de Estado e de desenvolvimento.

Firmeza nos objetivos, flexibilidade nos meios

Há outra característica relevante na trajetória de Modi: sua capacidade de combinar objetivos persistentes com considerável pragmatismo nos instrumentos utilizados para alcançá-los.

Isso aparece sobretudo na política externa. A Índia participa do Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália. Mantém uma relação histórica com a Rússia. É protagonista do BRICS. Busca maior influência no Sul Global. Coopera com o Ocidente em tecnologia e defesa e, simultaneamente, defende sua autonomia estratégica.

Não se trata de neutralidade. Trata-se de evitar que uma única aliança determine toda a política externa indiana. Essa flexibilidade tornou-se particularmente visível na relação com a China.

Parceiros, não rivais

A Cúpula do BRICS realizada em Nova Délhi, em setembro de 2026, tornou-se um marco recente dessa projeção internacional.

Sob a presidência indiana, um BRICS ampliado e internamente heterogêneo conseguiu adotar por consenso a Declaração de Nova Délhi, reafirmando compromissos com uma ordem internacional mais representativa, reforma do multilateralismo, desenvolvimento sustentável e maior participação do Sul Global nas estruturas de governança mundial.

O êxito diplomático da cúpula reforçou a projeção de Modi como um dos protagonistas da reorganização da ordem internacional e demonstrou a capacidade da Índia de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder.

Foi também em Nova Déli que Modi e Xi Jinping realizaram um encontro particularmente significativo.

Dali emergiu uma fórmula destinada a orientar uma nova etapa das relações entre as duas gigantes asiáticas: China e Índia devem ser “parceiros, não rivais” e enxergar o desenvolvimento uma da outra como oportunidade, e não como ameaça.

A fórmula é poderosa, mas será testada pela realidade. China e Índia continuam competindo por mercados, tecnologia, indústria, influência regional e posições na ordem internacional. A Índia manifesta preocupação com o desequilíbrio estrutural de seu comércio com a China, com cadeias de suprimentos e com o acesso efetivo de seus produtos ao mercado chinês.

Nova Déli também utiliza instrumentos de defesa comercial diante de denúncias de importações consideradas predatórias por setores de sua indústria. Aproximação diplomática, portanto, não significa abandono da política industrial nem abertura irrestrita do mercado doméstico.

A Índia quer cooperar com a China, mas não pretende abrir mão de construir sua própria potência industrial.

Esse talvez seja o teste decisivo da fórmula “parceiros, não rivais”: descobrir se as duas maiores civilizações da Ásia conseguirão cooperar onde seus interesses convergem e administrar a competição onde divergem sem permitir que ela se transforme em confronto.

De Bharat para o mundo

Há, portanto, um arco histórico que ajuda a interpretar a Índia contemporânea.

Primeiro, uma civilização antiga submetida ao colonialismo recuperou sua soberania política. Depois, construiu sob Nehru um Estado moderno, industrial e institucionalmente ambicioso.

Décadas mais tarde, iniciou reformas econômicas que ampliaram o espaço do mercado e sua integração internacional.

Com Modi, uma nova camada foi acrescentada: a afirmação explícita de que modernização econômica e identidade civilizacional não precisam caminhar em direções opostas.

Desde 2014, a Índia cresceu rapidamente, praticamente dobrou seu PIB nominal em dólares e ampliou seu peso internacional. Mas permanece um país com renda per capita inferior à brasileira e com enormes desafios sociais, territoriais e distributivos.

A experiência indiana coloca uma hipótese que merece ser observada muito além da Índia: desenvolvimento não depende apenas de capital, infraestrutura, tecnologia e políticas econômicas. A confiança coletiva de uma sociedade em sua própria capacidade de construir o futuro também pode ser mobilizada como força política.

A Cúpula do BRICS de Nova Déli demonstrou a dimensão dessa ambição. A aproximação com Xi Jinping revelou seu pragmatismo. E o Viksit Bharat 2047 estabelece o horizonte de longo prazo.

Os resultados econômicos permitem caracterizar a era Modi como uma experiência desenvolvimentista de resultados expressivos: crescimento elevado durante mais de uma década, forte expansão da economia e aumento da projeção internacional da Índia. Isso não elimina os problemas sociais do país nem encerra o debate sobre a distribuição dos frutos desse crescimento, mas torna a experiência indiana relevante para outros países em desenvolvimento.

Para o Brasil, a comparação é especialmente provocadora. O país continua apresentando renda por habitante significativamente superior à indiana, mas cresce em ritmo muito inferior. Ao mesmo tempo, o debate econômico brasileiro continua marcado pela controvérsia entre políticas desenvolvimentistas, defendidas pelo governo Lula, e orientações mais associadas ao paradigma neoliberal, com a extravagância de candidatos presidenciais competitivos, como Flavio Bolsonaro, defenderem até a catástrofe econômica e social representada pelo projeto de Javier Milei — o que demonstra o gigantesco atraso intelectual do Brasil em termos ideológicos.

Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito e inicie um quarto mandato em 2027, a experiência indiana poderá integrar esse debate brasileiro como uma referência comparativa: não como um modelo a ser simplesmente copiado, mas como demonstração de como um grande país do Sul Global combinou Estado, mercado, política industrial, proteção de interesses nacionais, infraestrutura, tecnologia e uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

FOTO: Prime Minister of India

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/bharat-a-india-que-se-reconheceu-como-civilizacao-recuperou-seu-orgulho-e-partiu-para-o-desenvolvimento/