Em um mundo que caminha para a escassez ambiental, países que preservam seus ecossistemas possuem vantagens competitivas crescentes.
Entre tantos inimigos históricos e dificuldades estruturais enfrentados pelo povo brasileiro ao longo dos séculos (e que precisam ser superados), algumas vozes ditas nacionalistas direcionam suas metralhas para o que consideram ser o maior perigo de todos: a agenda ambientalista do atual governo Lula. Incrível como batem exaustivamente nesta mesma tecla.
Na visão destes “patriotas”, os principais entraves históricos enfrentados pelo povo brasileiro ao longo dos séculos não decorrem de sua formação colonial dependente, estruturada no latifúndio, na monocultura de exportação e no trabalho escravizado, que consolidaram uma profunda concentração de terra e renda. Tampouco a abolição sem reforma estrutural que manteve desigualdades raciais e sociais é um problema que persiste até os dias atuais. Muito menos a industrialização brasileira que ocorreu de forma subordinada ao capital internacional, formando uma burguesia associada e pouco comprometida com transformações profundas se constitui em um obstáculo. A superexploração do trabalho, a desigualdade estrutural e um Estado historicamente orientado à manutenção dos interesses das classes dominantes não são nada perto da tal agenda ambiental do governo Lula e sua ministra Marina Silva.
O maior porta-voz desta corrente de opinião, o presidenciável Aldo Rebelo (que declarou ser oposição ao governo Lula justamente em razão de um pretenso sequestro das pautas nacionais pela agenda ambientalista) deu uma entrevista recente ao jornalista Breno Altman (que tive que me segurar para conseguir assistir até ao fim) em que afirma que há uma grande desorientação no atual governo. Confesso que, há tempos, tenho evitado ouvir algumas entrevistas justamente pela desorientação que marca este tipo de opinião, incapaz de, ironicamente, analisar a conjuntura política à luz do método histórico, científico e dialético.
Ao atacar a política ambiental brasileira e, em particular, a existência de grandes reservas florestais e terras indígenas no Brasil, seu argumento central é aparentemente simples. Segundo Rebelo, trata-se de territórios vastos, ocupados por poucos indivíduos, muitos dos quais vivem em condições precárias e sem acesso adequado a serviços básicos do Estado. A conclusão que extrai disso é ainda mais reveladora: esses povos deveriam ser “integrados à civilização”, e a Amazônia, por sua vez, deveria ser ocupada de forma mais intensa, a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos durante a chamada “Grande Marcha para o Oeste”.
Essa visão, embora apresentada como nacionalista e desenvolvimentista, se assenta sobre premissas profundamente equivocadas, tanto do ponto de vista histórico quanto estratégico e moral (no sentido progressista da palavra).
Em primeiro lugar, há um evidente anacronismo. O mundo do século XIX, em que se deu a expansão territorial americana, era radicalmente distinto do atual. Tratava-se de uma época em que a escala da destruição ambiental ainda não ameaçava o globo terrestre, em que o conhecimento científico sobre os ecossistemas era limitado e em que o próprio capitalismo industrial ainda estava em fase de expansão territorial primitiva. Hoje, ao contrário, vivemos em um planeta plenamente integrado, em que a devastação ambiental já produz efeitos sistêmicos, como mudanças climáticas, eventos extremos, desertificação e crises hídricas que ameaçam economias inteiras.
Não é possível, portanto, repetir no século XXI processos históricos que pertencem a um estágio anterior da própria humanidade. Fazer isso não é sinal de patriotismo ou visão estratégica, mas de atraso intelectual e incapacidade de compreender a nova realidade material que se impõe.
Além disso, o Brasil não existe isoladamente. É parte de um sistema mundial interdependente, no qual a preservação ambiental deixou de ser uma questão local para se tornar um imperativo econômico, político e civilizatório. Além da visão histórica, precisamos ter aquilo que Carl Sagan nos dizia sobre o respeito aos tempos geológico e do próprio Cosmos. Os biomas brasileiros, especialmente a Amazônia, que levaram bilhões de anos para serem formados, desempenham um papel fundamental na regulação climática do continente sul-americano. O sistema de evapotranspiração da floresta alimenta os chamados “rios voadores”, que garantem chuvas regulares nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, justamente onde se concentra a maior parte da produção agrícola e industrial do país. Sem esse mecanismo natural, a própria base produtiva brasileira entraria em um processo de instabilidade crescente.
Ignorar essa realidade em nome de uma visão estreita de ocupação territorial é comprometer não apenas o meio ambiente, mas o próprio futuro econômico nacional.
Há ainda uma dimensão ética e civilizatória que não pode ser ignorada. A ideia de que os povos indígenas precisam ser “incorporados à civilização” parte de uma concepção etnocêntrica que ignora a pluralidade das formas humanas de existência. Esses povos não são vestígios de um passado a ser superado, mas sociedades contemporâneas, portadoras de conhecimentos complexos sobre os ecossistemas em que vivem. Sua presença, longe de representar um obstáculo, tem sido um dos fatores mais eficazes na preservação dos biomas brasileiros.
O nacional desenvolvimentismo não pode ser uma concepção de destruição irracional das bases naturais da vida, mas uma crítica ao uso predatório e anárquico dos recursos sob a lógica da acumulação imediata de uns poucos. Um projeto emancipador não pode ignorar as lutas legítimas dos povos contra a expropriação de seus territórios e a destruição de suas condições materiais de existência. O internacionalismo, elemento essencial da tradição de luta dos trabalhadores, exige o reconhecimento de que a preservação das bases naturais da vida é uma causa comum da humanidade.
A questão central, portanto, não é se a Amazônia (ou outro biomas) deve ser ocupada, mas como deve ser ocupada.
Ocupar, no século XXI, não pode significar simplesmente expandir a fronteira agropecuária de forma desordenada, distribuindo terras para atividades de baixa produtividade e alto impacto ambiental. Esse modelo, além de ecologicamente destrutivo, é economicamente limitado. Gera poucos empregos, concentra renda e frequentemente resulta em ciclos de esgotamento e abandono.
A verdadeira ocupação estratégica da Amazonia deve ser baseada no conhecimento, na ciência e na presença qualificada do Estado. Isso significa investir na criação e expansão de universidades, institutos de pesquisa, centros de biotecnologia e polos de inovação voltados ao estudo e ao aproveitamento sustentável da biodiversidade. Significa formar gerações de biólogos, farmacologistas, engenheiros, agrônomos, geólogos e cientistas capazes de transformar o patrimônio natural em conhecimento e riqueza duradoura. Isto tudo, com todas as limitações (internas e externas) o governo Lula vem fazendo.
O potencial econômico dessa abordagem é imenso. Estima-se que menos de 10% das espécies da Amazônia tenham sido estudadas do ponto de vista científico. Cada uma dessas espécies pode conter compostos com aplicações farmacêuticas, industriais ou tecnológicas. Cerca de 25% dos medicamentos modernos têm origem direta ou indireta em substâncias naturais. O desenvolvimento de uma indústria farmaceutica e biotecnológica baseada na biodiversidade brasileira poderia gerar centenas de milhares de empregos altamente qualificados e posicionar o país na fronteira científica global.
O mesmo se aplica à indústria de cosméticos, alimentos funcionais e novos materiais. O Brasil já possui exemplos concretos, ainda que limitados, de cadeias produtivas baseadas no uso sustentável da biodiversidade, como a exploração de óleos vegetais, frutos nativos e compostos naturais utilizados em produtos de alto valor agregado. Expandir esse modelo representaria uma mudança qualitativa na inserção econômica do país.
Além disso, a preservação dos biomas sustenta indiretamente setores econômicos já consolidados. O agronegócio brasileiro, responsável por uma parcela significativa do PIB e das exportações, depende diretamente da estabilidade climática e do regime de chuvas garantidos pela integridade da Amazônia e do cerrado. A destruição desses sistemas naturais comprometeria a produtividade agrícola e geraria perdas econômicas massivas.
Há também o potencial do ecoturismo, setor que movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente em todo o mundo e que gera empregos intensivos em mão de obra local. Parques nacionais, reservas biológicas e territórios preservados podem se tornar polos de desenvolvimento regional, gerando renda de forma contínua e sustentável.
Em contraste, o modelo predatório atualmente em expansão (baseado na grilagem, no garimpo ilegal e na extração clandestina de madeira) gera riqueza imediata para poucos e destruição permanente para muitos. Trata-se de um processo que lembra, em sua lógica, a devastação das planícies norte-americanas no século XIX, quando milhões de bisões foram exterminados como parte de uma estratégia de ocupação territorial que resultou na destruição de ecossistemas inteiros e na marginalização de seus habitantes originais. Aquilo que foi apresentado como progresso revelou-se, em retrospecto, uma forma de empobrecimento ecológico e social.
Se o Brasil adotar esse caminho, as gerações futuras poderão olhar para a destruição da Amazônia com o mesmo sentimento de perplexidade e arrependimento com que hoje se observa aquele episódio histórico. E não nos iludamos, a continuar neste ritmo, em pouco mais de um século não sobrará quase nada.
Os biomas em pé são, hoje, uma das maiores vantagens estratégicas do Brasil porque representam não apenas um patrimônio ecológico, mas uma base concreta para a geração de emprego, renda, inovação e soberania nacional. A biodiversidade brasileira oferece possibilidades imensas para o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas, cosméticos, alimentos e biomateriais, criando empregos altamente qualificados e impulsionando setores científicos e industriais de ponta. A floresta preservada sustenta cadeias produtivas baseadas no manejo sustentável de recursos naturais, gerando renda contínua sem destruir sua própria base. Garante, ao mesmo tempo, o regime de chuvas que sustenta o agronegócio, protege os recursos hidricos que abastecem cidades e indústrias e assegura a estabilidade climática necessária ao funcionamento da economia.
Em um mundo que caminha para a escassez ambiental, países que preservam seus ecossistemas possuem vantagens competitivas crescentes, atraem investimentos estratégicos e ocupam posições privilegiadas na nova economia do conhecimento e da sustentabilidade. Preservar os biomas, portanto, não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas uma das formas mais inteligentes e eficazes de construí-lo. Perdê-los não seria um avanço, mas um empobrecimento irreversível, não apenas ecológico, mas econômico, científico e civilizatório.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/biomas-em-pe-a-vantagem-estrategica-que-o-brasil-ainda-possui