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Brasil amplia espaço e alcança patamar inédito na indústria global de defesa

Exportações do setor cresceram 110% nos últimos dois anos.

247 – A indústria brasileira de defesa e segurança vem registrando desempenho expressivo desde 2024, impulsionada pelo aumento da demanda internacional por equipamentos militares. Nos últimos dois anos, as exportações do setor cresceram 110%, alcançando um patamar inédito e reposicionando o Brasil no mercado global, em um contexto marcado por conflitos armados e ampliação dos gastos militares em diversas regiões do mundo. As informações são da RFI.

O avanço ocorre na esteira das guerras na Ucrânia e em Gaza e do aumento das preocupações globais com segurança. Mesmo defendendo, no campo diplomático, o diálogo e a resolução pacífica de conflitos, o Brasil consolida-se como uma potência emergente na indústria de defesa.

Exportações em alta reposicionam o setor

O crescimento recente reflete os efeitos de longo prazo da Estratégia Nacional de Defesa, lançada em 2008, que estimulou o desenvolvimento de produtos de maior complexidade tecnológica, a diversificação de mercados e a ampliação da competitividade internacional das empresas brasileiras.

“O Brasil reduziu a dependência de poucos mercados. Países europeus integrantes da Otan ampliaram a sua presença como clientes, ao mesmo tempo em que avançamos no Oriente Médio e na Ásia, abrindo espaços antes dominados por grandes potências mundiais”, afirma Luiz Carlos Paiva Teixeira, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE).

Segundo dados do Ministério da Defesa, produtos brasileiros do setor estão presentes em 140 países. Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal figuram entre os principais compradores.

Avanço externo em meio à retração interna

Em 2025, o volume de comercialização de bens e serviços de defesa atingiu US$ 3,1 bilhões, alta de 74% em relação ao ano anterior e mais do que o dobro do registrado em 2023. O crescimento ocorreu apesar da redução progressiva dos investimentos federais em aquisições nacionais após a crise econômica iniciada em 2014, que levou os gastos a patamares próximos de 1% do PIB.

Para o economista Marcos Barbieri, especialista em Economia da Defesa e professor da Unicamp, a expansão das exportações tornou-se fundamental para a sustentabilidade do setor. “Nós temos produtos novos e sofisticados sendo lançados, mas as próprias Forças Armadas Brasileiras que os encomendaram estão reduzindo ou postergando as encomendas. Como manter esses projetos e as empresas? Através das exportações”, afirma.

Segundo ele, o governo passou a estimular esse movimento. “Já que o governo estava sem condições de comprar, ele incentivou, com uma preocupação muito grande principalmente do Ministério da Defesa, mas outros também, em dar um suporte para essas empresas exportarem, com apoio diplomático, participação de feiras internacionais, visitas técnicas.”

Embraer lidera carteira de pedidos

A Embraer destaca-se como principal vitrine da pauta exportadora do setor. Em 2025, a empresa alcançou a maior carteira de pedidos de sua história na área de defesa, somando US$ 4,6 bilhões, com destaque para o avião de transporte militar C-390 Millennium.

Diversificação tecnológica amplia competitividade

Embora o Brasil já figure há anos entre os maiores exportadores de armas leves e munições, a indústria avançou para segmentos mais complexos, como embarcações militares, blindados, radares, sistemas de comunicação e soluções de proteção de dados.

Atualmente, o setor emprega cerca de 3 milhões de trabalhadores e representa 3,49% do Produto Interno Bruto. “A Base Industrial de Defesa consolidou-se como um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira. Ele caminha para deixar de ser apenas um fornecedor de equipamentos para se tornar um pilar estratégico da alta tecnologia do Brasil”, ressalta Luiz Carlos Paiva.

O dirigente destaca ainda a busca por maior autonomia tecnológica. “As metas estabelecidas buscam ampliar o domínio nacional sobre componentes críticos, como sensores, sistemas eletrônicos e softwares, reduzindo a dependência externa nas áreas mais sensíveis. E a estabilidade orçamentária cria um ambiente favorável ao planejamento industrial de longo prazo.”

Brasil avança no ranking global de exportadores

No cenário internacional, 2024 registrou o maior aumento dos gastos militares desde o fim da Guerra Fria, segundo o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri). Embora ainda distante das maiores potências do setor, o Brasil aparece na 24ª posição entre os maiores exportadores globais de defesa e é o único país da América Latina no ranking divulgado em março de 2025.

A expectativa é de avanço nos próximos anos, avalia Marcos Barbieri. “Muitos dos nossos produtos estratégicos estão começando a entrar no mercado agora: os submarinos que nós desenvolvemos junto com os franceses, da classe Scorpène, as fragatas da classe Tamandaré, que são uma Meko 100 Plus do Thyssenkrupp, desenvolvido com a Embraer, também estão entrando em operação agora. Os caças Gripen vão começar a ser produzidos no Brasil e já tem uma sinalização de que a Colômbia vai comprar.”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/economia/brasil-amplia-espaco-e-alcanca-patamar-inedito-na-industria-global-de-defesa