Visa e Mastercard já devem colocar as barbas de molho.
O sistema financeiro global vive um momento de fratura e reinvenção, onde as placas tectônicas da economia mundial se rearranjam sob tensões crescentes. No centro dessa transformação, o Brics — originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, agora ampliado com Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Tailândia, Malásia e Indonésia — emerge como protagonista improvável, desafiando a hegemonia do dólar e a arquitetura financeira dominada pelos Estados Unidos.
A criação do Brics Pay, uma plataforma de pagamentos digitais baseada em blockchain, não é apenas um experimento técnico: é um grito de independência econômica, uma tentativa de reescrever as regras de um jogo historicamente controlado pelo Ocidente.
A rede Swift, estabelecida na Bélgica em 1973, conecta mais de 200 países e processa a espinha dorsal das transações internacionais. Sua fachada de neutralidade, porém, esconde laços profundos com interesses ocidentais.
Em 2022, a exclusão parcial da Rússia desse sistema, em resposta à guerra na Ucrânia, expôs como o controle financeiro pode ser arma geopolítica. O dólar, presente em 84% das transações globais, segundo o Banco de Compensações Internacionais, é o coração desse mecanismo. Mas os países do Brics, que detêm 42% das reservas cambiais globais, estão diversificando: o ouro, que representa apenas 10% de suas reservas (metade da média mundial), começa a ganhar espaço como ativo estratégico.
A resposta do bloco é audaciosa. A Rússia desenvolveu o SPFS, um sistema de mensagens financeiras que já alcança aliados, enquanto a China expande o CIPS, centrado no yuan, que acompanha sua crescente influência comercial.
O Brics Pay, por sua vez, utiliza moedas digitais de bancos centrais para transações diretas entre membros, eliminando intermediários e reduzindo custos de conversão. Acordos bilaterais, como o entre Brasil e China para operar em reais e yuans, mostram o conceito ganhando vida: em 2024, as moedas do Brics já representavam 6,4% das transações via Swift, um salto notável. Pausa para um cafezinho: Os barões da Visa e da Mastercard devem estar suando frio: o Brics Pay, com seu blockchain afiado, ameaça transformar seus impérios de cartão em relíquias de um mundo dolarizado que já vê rachaduras na base!
Essa desdolarização não é apenas técnica — é um manifesto político contra a instrumentalização do dólar como ferramenta de coerção, vista nas sanções contra Rússia, Irã e Venezuela.
Os Estados Unidos, cientes do desafio, reagem com firmeza. Em 2019, Donald Trump ameaçou tarifas de 100% contra o Brics por questionar o dólar; em 2025, já de volta ao poder, elevou o tom para 150%, alertando que uma moeda comum do bloco poderia “colapsar a economia americana”.
A mensagem é clara: o dólar não é apenas moeda, é pilar do poder global de Washington. Mesmo assim, o Brics avança. Sob a presidência brasileira em 2025, o bloco convidou México, Uruguai e Colômbia para o summit de julho, defendendo comércio livre e multilateralismo contra o unilateralismo ocidental.
A expansão do grupo, com mais de 50 nações interessadas, reflete o apelo de uma alternativa ao Sul Global. A entrada de gigantes petrolíferos como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos reforça seu peso, enquanto parceiros como Argélia e Nigéria ampliam sua influência. Projeções indicam que, até 2028, o Brics+ responderá por 37,9% do PIB global em paridade de poder de compra, superando o G7. 2 Bancos centrais do bloco acumulam mais de 1.000 toneladas de ouro anualmente, sinalizando um movimento estratégico para reduzir a dependência do dólar.
Essa iniciativa ecoa entre pensadores econômicos globais, que veem na desdolarização um reequilíbrio necessário. Paul Krugman, Nobel de Economia, reconhece que o domínio do dólar “não durará para sempre”, embora minimize o pânico imediato, argumentando que preocupações com a desdolarização são “muito barulho por quase nada”. Essa visão de Krugman, enraizada na análise de décadas de estabilidade americana, destaca como o declínio gradual do dólar poderia abrir portas para sistemas multipolares, reduzindo riscos sistêmicos de crises como a de 2008, onde a dependência de uma moeda única amplificou choques globais e perpetuou desigualdades entre nações emergentes e desenvolvidas.
Fernando Haddad, ministro brasileiro da Fazenda, defendeu uma moeda comum sul-americana como escudo contra crises externas, estendendo o raciocínio ao Brics para fomentar pagamentos em divisas nacionais. Entendo essa proposta, que imagino inspirada em integrações regionais como o euro, mas adaptada ao contexto do Sul Global, poderia estabilizar fluxos comerciais voláteis, mitigar impactos de especulações cambiais e impulsionar investimentos internos, criando um ciclo virtuoso de crescimento autônomo que desafia o modelo neoliberal imposto por instituições ocidentais.
Sergey Glazyev, economista russo e ex-ministro, afirma que o dólar se tornou “cada vez mais tóxico”, propondo uma moeda Brics como unidade dual de cesta para assentamentos internacionais, mais estável e atrativa que o dólar ou euro. 0 Essa ideia, fundamentada na experiência russa com sanções, que já vem há décadas, revela como a toxicidade do dólar — via congelamento de ativos e exclusões financeiras — acelera a transição para alternativas lastreadas em commodities, potencialmente reconfigurando o comércio global para priorizar estabilidade real sobre hegemonia política, e fortalecendo a resiliência de economias sob pressão imperial.
Zhou Xiaochuan, ex-governador do Banco Central chinês, clama por “reforma criativa do sistema monetário internacional” rumo a uma moeda de reserva estável, criticando as deficiências inerentes de moedas nacionais baseadas em crédito como o dólar. Sua proposta, ecoando debates pós-Bretton Woods, enfatiza a expansão do SDR (Direitos Especiais de Saque é um ativo de reserva internacional criado pelo FMI) para incluir economias maiores, o que poderia democratizar o acesso a liquidez global, reduzir volatilidades causadas por políticas monetárias unilaterais dos EUA e pavimentar o caminho para uma governança financeira mais inclusiva, onde nações como China e Índia influenciam normas que historicamente as marginalizaram. Bem ao estilo chinês:comedido, zero foguetório, gente que sabe que o tempo para ouvir deve ser o dobro do tempo para falar.
Jacques Sapir, economista francês, prevê que o Brics+ deslocará 70-80% do comércio para fora do dólar nos próximos cinco anos via mecanismos como o Brics Clear, marcando uma “desdolarização em prática” como o “Santo Graal” do bloco. Concordo com a previsão do francês. Essa projeção, ancorada em tendências de expansão do bloco e adoção de tecnologias financeiras, ilustra como a desdolarização não apenas fragmenta o monopólio americano, mas reconstrói redes comerciais baseadas em reciprocidade, potencialmente elevando o PIB coletivo do Sul Global ao mitigar custos de transação e exposição a ciclos recessivos impostos por Washington, fomentando uma ordem multipolar que equilibra poder econômico com justiça distributiva.
Diferenças internas, como as tensões entre Índia e China, e a falta de infraestrutura tecnológica unificada desafiam a coesão. A pressão ocidental, com sanções e barreiras comerciais, permanece uma ameaça constante. Ainda assim, o Brics Pay acende uma faísca de transformação. Mais que uma plataforma, é um símbolo de resistência, um convite para que o Sul Global deixe de ser coadjuvante e passe a ditar as regras de um sistema financeiro multipolar.
O caminho, sabemos, é tortuoso. Mas não será melhor transitar nele mais um pouco ao tempo em que se constrói uma autoestrada com várias pistas, acostamentos mais largos e bem mais seguras e sinalizadas? Você já viu como são desativadas as pontes velhas e que apresentam rachaduras? Ela sofre reparos paliativos e ao lado dela uma nova começa a tomar forma. De um lado uma ponte é desintegração e de outro uma ponte em construção
Outro perigo: E se de quatro em quatro anos assistirmos na Casa Branca uma nova versão do filme “Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu!”, aquela comédia de 1980, dirigida pelo trio David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker?
O dólar ainda reina, mas sua coroa já não brilha sem contestação.
Foto: Ricardo Stuckert / PR
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/brics-pay-pode-quebrar-o-dominio-do-dolar-no-mundo