Brazil, o Filme.
Sam Lowry é o herói acidental de um país inoperante, regido por ordens desconexas de uma burocracia obtusa emitidas por computadores obsoletos. Enquanto uma elite cafona se esbalda em festas nababescas na cobertura, tal qual os irmãozãos de Daniel Vorcaro, o couro come nas ruas. Funcionário do quarto escalão de uma repartição pública, oprimido pela mãe dominadora, Lowry acaba confundido com um terrorista ao se apaixonar por uma mulher “suspeita”. Para a sua sorte, ou azar, o Estado que o persegue é incompetente e indolente. Por isso, mais perverso. Brazil, o Filme, dos ingleses do Monty Phyton, chegou aos cinemas em 1985 e foi entendido como uma crítica à ditadura do maior país sul-americano, em agonia àquela altura, embora o grupo tenha dito que qualquer semelhança não passava de mera coincidência. Como outras criações da trupe de comediantes de sucesso retumbante nos anos 70 e 80 do século passado, a película parecia, até o domingo 4, uma obra datada. Mas sempre é uma imprudência subestimar o looping do Brasil com s ou com z. Há uma boa razão para o realismo mágico nunca ter fincado raízes nestas latitudes. Ou melhor, ter se instalado, mas sobre outra roupagem, o realismo e ponto. Aqui a arte não se atreve a imitar a vida. Diante da distopia que brotou das urnas, o roteiro de Brazil, o Filme, de tão ingênuo, a esta altura lembra, no entanto, uma comédia da Sessão da Tarde. A fauna eleita no domingo 4, em todos os recantos, é tão perigosa quanto excêntrica. Deputado federal mais votado em São Paulo, o arruaceiro Lucas Pavanato construiu uma carreira meteórica na Câmara de Vereadores da capital alicerçado em três pilares: arrumar confusão na USP, fiscalizar banheiros e bradar contra as cotas raciais. A vaga de Maria Eduarda Campopiano, de 23 anos, à Assembleia Legislativa do mesmo estado, apoiada por 1,9 milhão de eleitores, é um alento para as mulheres dedicadas a proteger o incompreendido patriarcado da fúria feminista. Em Brasília, aos oportunistas do Centrão se unirá uma leva de celerados, energúmenos e influenciadores que reduzem o Legislativo a cenários para selfies e lives. É impossível extrair uma única ideia ou propósito que leve em conta o futuro do País. Em um momento como este, ganha renovado sentido o surrado vaticínio de Ulysses Guimarães: “Está achando ruim este Congresso? Então espere o próximo: será pior. E pior, e pior”. Talvez o Senhor Diretas vislumbrasse o ano de 2026.
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FOTO: CAPA DA CARTA CAPITAL