Nesse artigo, dissecamos os números da dívida pública federal em 2025 e mostramos as profundas disparidades entre os números que vêm sendo divulgados e o seu verdadeiro montante.
O gráfico representativo do orçamento federal executado em 2025 escancara o privilégio do Sistema da Dívida e o gasto exorbitante de R$ 2,135 trilhões com o pagamento de juros e amortizações com uma chamada dívida, sem contrapartida e sem qualquer transparência acerca dos nomes dos credores e beneficiários dos questionáveis mecanismos. Problema apontado há anos pela Auditoria Cidadã da Dívida (ACD).
Neste gráfico, mostramos as profundas disparidades entre os números que vêm sendo divulgados pela grande mídia e o verdadeiro montante da dívida pública federal, o efetivo gasto com juros dessa chamada dívida e a necessidade de auditoria.

Foto: ACD/Divulgação
Divergências grosseiras na informação sobre os juros pagos da dívida
O valor gasto com juros pagos ao Sistema da dívida em 2025 chegou a R$ 1,165 trilhão em 2025, conforme estimativa feita com base em dados oficiais de estoque e custo médio da dívida pública federal referentes ao ano passado.
Essa estimativa é feita de forma extremamente conservadora e foi obtida multiplicando-se o estoque da dívida no início de 2025 (ou seja, sequer consideramos as novas dívidas contraídas durante o ano) por seu custo médio no ano.
No entanto, o valor dos “Juros e Encargos da Dívida”, divulgado pelo Tesouro Nacional, foi de R$ 363 bilhões, menos de um terço da estimativa conservadora.
Conforme denunciado pela ACD desde 2010, a maior parte dos juros vem sendo contabilizada como se fosse amortização (“refinanciamento” ou “rolagem”) – o que é uma fraude e afronta o artigo 167, III, da Constituição Federal.
Muitos daqueles que criticam a ACD não perceberam ainda essa manobra.
Na verdade, todos os valores utilizados no pagamento da dívida devem ser considerados (inclusive os provenientes da emissão de novos títulos para o pagamento de juros ou amortização), pois poderiam e deveriam estar sendo destinados para investimentos sociais, como fazem países desenvolvidos, a juros muito mais baixos e prazos longos.
Divergências grosseiras na informação sobre o estoque da dívida
O Tesouro Nacional divulgou o Relatório Mensal da Dívida de dezembro de 2025 (veja a Tabela 2.1), apontando que a Dívida Pública Federal cresceu R$ 1,7 trilhão no ano passado, saltando de R$ 9,833 trilhões para R$ 11,496 trilhões. Portanto, esse é o dado oficial do estoque da dívida no final de 2025.
No entanto, a grande mídia e setores do próprio governo divulgam um estoque no valor de R$ 8,635 trilhões, pois omitem o montante de R$ 2,861 trilhões referentes aos títulos públicos entregues ao Banco Central (BC) – sobre os quais o Tesouro Nacional paga juros ao BC – para serem repassados aos bancos nas chamadas “operações compromissadas”.
Essas operações têm sido praticadas no Brasil de forma abusiva, em patamares elevadíssimos, sem paralelo no mundo, e pagando os juros mais elevados do planeta. Devido à falta de justificativa para tamanha benesse, a ACD tem denunciado esse abuso, caracterizando-o como uma verdadeira “Bolsa Banqueiro”.
A dívida pública retirou R$ 102 bilhões das áreas sociais em 2025
A análise dos dados demonstra a falsidade do discurso que vem sendo adotado pela grande mídia e personagens do setor financeiro no sentido de que no Brasil. Segundo eles, os juros seriam altos porque o governo estaria tomando mais empréstimos para abastecer as áreas sociais (especialmente o pagamento do funcionalismo e benefícios previdenciários), o que estaria gerando o “déficit público”, aumentando a dívida e assim levando o “mercado” a exigir taxas de juros maiores.
Ao analisarmos os dados do orçamento federal executado em 2025, por exemplo, evidencia-se a comprovação de que dívida pública continua RETIRANDO, e não colocando recursos nas áreas sociais, tendo em vista que:
- R$ 242 bilhões do gasto com juros e amortizações da dívida pública tem origem em receitas federais que nada têm a ver com a emissão de novos títulos da dívida. Ou seja, corresponde a recursos que deveriam ser empregados em áreas sociais;
- somente R$ 140 bilhões de recursos obtidos com a venda de novos títulos da dívida pública foram destinados para as áreas sociais.
No cotejo desses dados, depreende-se claramente que, em termos líquidos, a dívida pública retirou R$ 102 bilhões das áreas sociais em 2025.
Isso além de absorver praticamente a totalidade dos recursos advindos da emissão de novos títulos da dívida pública, que deveriam estar sendo empregados em nosso desenvolvimento socioeconômico e ambiental, como fizeram os países avançados.
Política monetária? Ou desculpa para transferir volumes cada vez maiores para bancos?
Seguindo exatamente o que bancos que ganham com os juros altos desejavam, na primeira reunião do Copom de 2026 a diretoria do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros Selic no abusivo patamar de 15% ao ano, sem qualquer justificativa técnica ou científica que se sustente.
Essa medida prejudica as indústrias; demais empresas; a maioria da população (80% das pessoas estão endividadas), e as contas públicas, pois os juros estão sendo pagos mediante a emissão de novos títulos, o que tem feito a chamada dívida pública explodir, sem qualquer contrapartida em investimentos de interesse da população.
Por meio dos juros abusivos e demais mecanismos operados pelo Banco Central, como a “Bolsa-banqueiro”, um volume brutal de recursos públicos tem sido transferido para o Sistema da Dívida.
Esse roubo disfarçado de “política monetária” é que o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Polícia Federal (PF) precisam investigar urgentemente, enquanto o Congresso Nacional precisa barrar a PEC 65, que pretende deixar o Banco Central mais à vontade ainda, transformando-o em empresa regida pelo direito privado, aprofundando a sua servidão ao mercado financeiro.
No entanto, o que se vê, é um oportunismo nefasto, aproveitando-se do caos decorrente das fraudes cometidas pelo banco Master, com reflexos em todo o sistema financeiro e rombo de dezenas de bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, para avançar a tramitação da PEC 65.
Até quando vamos conviver com um país dominado por questionáveis interesses financeiros? Esperamos que a Polícia Federal e todos os órgãos de controle atuem para punir exemplarmente o escândalo do banco Master e que o Congresso Nacional revogue a inconstitucional e desastrosa “independência” já concedida ao BC, e arquive a PEC 65.
Maria Lucia Fattorelli é coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz da CNBB (CBJP). Escreve mensalmente para o Extra Classe.
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/colunistas/2026/02/caso-de-policia-gastamos-mais-de-r-2-trilhoes-com-o-sistema-da-divida-em-2025/