Ex-chanceler e assessor de Lula cita histórico do acordo de Teerã e dificuldades nas negociações para explicar impasse atual.
247 – O ex-chanceler e assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência, Celso Amorim, afirmou que a “quebra de confiança” entre Estados Unidos e Irã dificulta a construção de um acordo para o fim de conflitos envolvendo o país persa. Ao discursar no Fórum Diplomático de Antalya, ele avaliou que, sem confiança, as chances de avanço nas negociações são reduzidas.
As declarações foram feitas durante painel sobre mediação internacional, onde Amorim retomou a experiência do Brasil nas negociações do programa nuclear iraniano ao lado da Turquia.
Acordo de Teerã e tentativa de construção de confiança
Amorim relembrou que, no final de 2009, Brasil e Turquia iniciaram esforços para contribuir com uma solução para o impasse nuclear iraniano. À época, ele atuava como ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo o diplomata, a proposta central envolvia a troca de 1,2 mil kg de urânio pouco enriquecido por 120 kg de combustível nuclear, medida concebida como instrumento de construção de confiança entre as partes.
Ele relatou que, em julho de 2009, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manifestou preocupação com o programa nuclear iraniano e indicou a necessidade de interlocutores capazes de dialogar com Teerã. “Preciso de amigos que possam conversar com aqueles com quem não consigo falar”, disse Obama, segundo Amorim.
Negociações complexas e avanços diplomáticos
De acordo com o relato, as negociações com o Irã foram marcadas por dificuldades, devido à complexidade dos processos internos de decisão do país. Amorim destacou que cada avanço exigia tempo e esforço conjunto entre Brasil e Turquia.
Após momentos de incerteza, uma carta enviada por Obama aos presidentes Lula e Recep Tayyip Erdoğan reforçou parâmetros para um gesto de confiança por parte do Irã, incluindo quantidade de urânio a ser enviada ao exterior, cronograma e local de armazenamento.
Impulsionados pelo documento, os líderes viajaram a Teerã, onde, após intensas negociações, foi assinada a Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010. O acordo recebeu apoio de figuras internacionais, como o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, e o diplomata norte-americano Tom Pickering.
Sanções e ruptura de confiança
Apesar da avaliação positiva inicial, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, no mês seguinte, novas sanções contra o Irã, com apoio das potências nucleares. Brasil e Turquia votaram contra a medida.
Amorim afirmou que, anos depois, um ex-integrante do governo Obama reconheceu que a iniciativa de Brasil e Turquia contribuiu para a construção do acordo nuclear posterior com o Irã.
Para o diplomata, a sequência de eventos evidencia uma quebra de confiança que compromete negociações futuras. Ele também mencionou o impacto de conflitos recentes que eclodiram em meio a tentativas diplomáticas.
Defesa do diálogo e crítica à violência
No discurso, Amorim alertou para o efeito de ações que eliminam interlocutores políticos. “Quando pessoas que poderiam negociar são mortas, restam apenas aqueles dispostos a usar a força. Em outras palavras, quando se matam os negociadores, ficam os guerreiros”, afirmou.
Ao final, o assessor defendeu a necessidade de ampliar esforços de mediação internacional. Segundo ele, “o ingrediente essencial de qualquer negociação é a confiança”, e sua ausência reduz significativamente as possibilidades de acordos duradouros.
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FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/celso-amorim-aponta-quebra-de-confianca-entre-eua-e-ira-e-acordo-dificil-para-o-fim-da-guerra