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Centrão foca em controlar emendas e deixa disputa presidencial em segundo plano

Estratégia de MDB, União Brasil e PP prioriza controle de emendas e poder no Congresso em detrimento de alianças nacionais para o Planalto.

247 – Enquanto os principais nomes cotados para a corrida ao Palácio do Planalto começam a se movimentar, partidos do chamado centrão adotam outra prioridade para as eleições de 2026. A estratégia passa longe, ao menos por ora, da definição de um projeto presidencial unificado e concentra esforços na ampliação das bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. As informações são do UOL, que ouviu parlamentares de MDB, PP e União Brasil.

As siglas planejam montar chapas robustas para deputado federal e senador, sem abrir espaço para concessões motivadas por alianças presidenciais. A lógica que orienta a movimentação é pragmática: tamanho de bancada significa poder político e maior acesso a recursos.

As decisões estratégicas devem ser tomadas de forma conjunta entre as executivas nacionais e os diretórios estaduais, com tendência de prevalecer a realidade local sobre acordos nacionais. Nesse contexto, cresce a possibilidade de neutralidade na disputa pelo Planalto, permitindo que cada partido maximize seu desempenho parlamentar sem amarras eleitorais.

O foco nas bancadas está diretamente ligado ao controle das emendas parlamentares. As emendas impositivas garantem valores fixos a cada congressista, independentemente da posição política, mas o montante total disponível cresce conforme o tamanho da representação partidária. No último ano, cada um dos 513 deputados teve direito a R$ 37 milhões, enquanto cada um dos 81 senadores contou com R$ 68 milhões.

Ampliar o número de cadeiras significa, portanto, aumentar a capacidade de irrigar bases eleitorais com recursos públicos, fortalecendo alianças locais e criando condições mais favoráveis para eleições municipais futuras, como as de 2028, quando estarão em jogo prefeituras e câmaras de vereadores.

Além das emendas individuais, entram na conta as emendas de comissão. Comissões permanentes, como as de Saúde, Educação e Agricultura, administram fatias relevantes do orçamento federal. A maior bancada tem prioridade na escolha das presidências desses colegiados, o que garante maior influência sobre a destinação dos recursos — especialmente em áreas tradicionalmente mais financiadas, como a saúde.

PSD tenta equilibrar projeto presidencial e força no Congresso

Dentro desse cenário, o PSD busca uma estratégia híbrida. Na semana passada, o partido filiou seu terceiro pré-candidato à Presidência da República. O presidente da sigla, Gilberto Kassab, sinalizou que desta vez a candidatura é para valer, diferentemente do recuo observado em 2022.

Mesmo assim, a prioridade parlamentar segue preservada. Um integrante do PSD afirmou ao UOL que a candidatura ao Planalto será usada como instrumento para ampliar a bancada no Congresso. A avaliação interna é que a presença de um presidenciável aumenta a visibilidade do partido, facilitando a memorização do número da legenda pelo eleitor no momento do voto para deputado e senador.

Esse mesmo dirigente destacou que o nome lançado à Presidência não pode ser meramente simbólico. A candidatura precisa “somar” e contribuir para fortalecer o partido como um todo, mantendo, inclusive, a posição do PSD como a maior bancada do Senado.

Dificuldades para unificar a centro-direita

A opção do centrão por priorizar o Congresso impõe obstáculos à tentativa de unificação da centro-direita em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A família Bolsonaro defende uma aliança nacional ampla, mas a estratégia esbarra na resistência de partidos que não querem comprometer seus projetos regionais.

O próprio PSD ilustra essa dificuldade. A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, adicionou um elemento de complexidade à equação. Com perfil ligado ao agronegócio, Caiado pode impulsionar candidaturas em estados com forte presença ruralista, mas enfrenta rejeição em regiões como o Nordeste, onde o eleitorado historicamente tende a votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Diante desse cenário, setores do partido passaram a defender a neutralidade. O senador Otto Alencar (PSD-BA), aliado de Lula, manifestou publicamente a posição de que os diretórios estaduais deveriam ter liberdade para firmar alianças conforme seus interesses locais.

A resistência interna ajuda a explicar por que a indicação de Flávio Bolsonaro, formalizada em dezembro, ainda não se consolidou como um projeto nacional competitivo. A falta de coesão entre as siglas dificulta a formação de uma frente única para enfrentar Lula.

Do lado do PT, o movimento é visto com alívio. A avaliação no partido era de que o centrão dificilmente abraçaria o projeto de reeleição do presidente, mas havia preocupação com a possibilidade de os partidos transferirem tempo de televisão e estrutura para um adversário forte. A decisão de priorizar bancadas e manter a neutralidade acabou simplificando o cenário para o governo.

Foto: Abr

FONTE: https://www.brasil247.com/poder/centrao-foca-em-controlar-emendas-e-deixa-disputa-presidencial-em-segundo-plano