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Chavismo sem Maduro: irmãos Rodríguez após a captura de Maduro redesenharam o chavismo

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA abriu uma disputa de narrativas em torno do papel dos irmãos Rodríguez; a tese que ganha força é a de pragmatismo calculado, não de uma “traição clássica”, em meio à combinação de pressão militar, ameaças judiciais e barganha geopolítica com o governo Trump.

Bastidores da operação contra Maduro

Na madrugada de 3 de janeiro, forças dos EUA realizaram ataques aéreos e uma operação especial que resultou na captura de Maduro em um de seus esconderijos, em Caracas, sob anúncio direto de Donald Trump, que falou em “remoção de um ditador” e em tutela temporária da Venezuela. Maduro governava há mais de uma década, e sua queda abriu um vácuo de poder que não foi preenchido por mobilização popular, mas por rearranjos internos da elite chavista e pela rápida intervenção norte‑americana na transição.

A virada dos irmãos Rodríguez

Delcy Rodríguez, vice‑presidente até a captura e hoje presidente interina, e o irmão Jorge Rodríguez, chefe da Assembleia Nacional, tornaram‑se o eixo do novo poder em Caracas. Reportagens baseadas em fontes diplomáticas e de inteligência apontam que, meses antes da operação, emissários dos EUA abriram canais discretos com Delcy e Jorge, sondando disposição para aceitar a saída de Maduro e garantir continuidade institucional sob nova orientação econômica.

Segundo apuração citada por veículos internacionais, Delcy teria sinalizado, em conversas reservadas com autoridades norte‑americanas e intermediários no Golfo, que “Maduro precisava sair” e que ela “lidaria com as consequências”, ao mesmo tempo em que rejeitava colaborar diretamente em um golpe, demarcando uma linha entre aceitar o fato consumado e participar da derrubada. Após a captura, a dupla se moveu rápido para ocupar o vácuo: Delcy assumiu interinamente o Executivo e Jorge manteve o controle do Legislativo, consolidando um chavismo “sem Maduro”, mas ainda com o aparelho de Estado e do partido nas mãos dos irmãos.

Pressão, chantagem e “pragmatismo na veia”

O governo Trump combinou dois instrumentos centrais de pressão sobre Delcy: a ameaça de acusações criminais de corrupção e lavagem de dinheiro, e a promessa de alívio de sanções e acesso a recursos se ela cooperasse com a agenda de Washington. Fontes ligadas ao Judiciário norte‑americano atribuem a procuradores federais a elaboração de minutas de denúncia contra Delcy, focando supostos esquemas na PDVSA entre 2021 e 2025, usadas como moeda de troca para garantir alinhamento político após a queda de Maduro.

Em paralelo, o Tesouro dos EUA retirou o nome de Delcy da lista de sancionados e suspendeu parte das restrições, abrindo caminho para acordos energéticos e minerais; na prática, Trump trocou pressão penal por concessões em petróleo, minerais e reorientação regulatória da indústria venezuelana. Esse desenho – ameaça judicial de um lado, normalização diplomática e negócios do outro – reforça a interpretação de que Delcy e Jorge optaram por preservar poder e patrimônio, aceitando redesenhar o modelo econômico e a relação com Washington para evitar isolamento e risco pessoal.

Nem “traidores” nem fiéis: um chavismo em mutação

Analistas próximos ao chavismo destacam que não há evidências diretas de que Delcy e Jorge tenham “entregado” Maduro operacionalmente; a hipótese predominante é a de uma operação militar e de inteligência liderada pelos EUA, auxiliada por infiltração e falhas na segurança, mais do que por uma delação explícita do núcleo político. A “traição”, no sentido estrito, exigiria prova de conluio ativo para capturar Maduro; o que se observa, até aqui, é uma aceitação rápida do fato consumado e uma mudança acelerada de agenda, algo mais próximo de realinhamento pragmático do que de sabotagem aberta.

Do ponto de vista interno, os irmãos Rodríguez mantêm símbolos e retórica da Revolução Bolivariana, ao mesmo tempo em que afastam figuras do círculo duro de Maduro e negociam com Washington a abertura do setor petrolífero e o reordenamento da elite econômica. No plano externo, a aproximação com Trump não elimina o discurso de soberania, mas o redefine: a disputa desloca‑se de “EUA versus chavismo” para “EUA versus madurismo”, com os irmãos vendendo a si mesmos como uma versão “gerenciável” da herança chavista.

Novo eixo de poder: petróleo, tutela e incerteza

Desde a captura de Maduro, a Casa Branca passou a usar a Venezuela como laboratório de uma estratégia mais agressiva de intervenção combinada: ação militar pontual, tutela sobre o governo interino e redesenho de contratos e regulações em favor de empresas norte‑americanas e europeias. Os primeiros acordos anunciados entre a PDVSA e multinacionais, sob a nova regulação aprovada pelo governo interino, sinalizam um giro em direção a um modelo de abertura controlada, mantendo o discurso de Estado forte, mas devolvendo protagonismo ao capital privado estrangeiro no setor de óleo e gás.

Do lado venezuelano, a população ainda mostra pouca mobilização – nem em celebração, nem em defesa de Maduro –, reflexo de cansaço social, fragmentação política e descrédito nas lideranças; a transição chefiada por Delcy e Jorge ocorre mais nos andares de cima do que nas ruas. Esse arranjo deixa o país em um equilíbrio instável: um governo interino tutelado, uma elite chavista reconfigurada e uma sociedade exausta, enquanto EUA e grandes empresas procuram transformar a queda de Maduro em ativo geopolítico e energético.

Foto: RS/Fotos Publicas

FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas

( Reprodução autorizada mediante citação da fonte: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas )