Apesar do entusiasmo com a ampliação geopolítica, Paulo Nogueira Batista Júnior alertou para a importância de o Brasil não adotar uma postura ingênua nas negociações bilaterais.
247 — Diante de um cenário internacional marcado pela instabilidade promovida pelo eixo conservador nos Estados Unidos e de crescentes barreiras protecionistas no Norte global, o Brasil enfrenta o desafio estratégico de recalibrar sua inserção externa. Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, o economista e ex-diretor do FMI, Paulo Nogueira Batista Júnior, defendeu que o país deve aproveitar o momento geopolítico para aprofundar e diversificar suas relações com a China, maior economia produtiva do planeta e principal parceira comercial do Brasil.
A análise ocorreu no contexto do recente contato diplomático entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente chinês Xi Jinping, focado na expansão de parcerias em setores estratégicos como inteligência artificial, satélites, terras raras e transição energética. Para Paulo Nogueira, a aproximação com Pequim é um movimento natural e necessário para garantir a soberania brasileira diante de pressões externas e sanções veladas impostas por Washington.
“O Brasil tem que diversificar suas relações mais do que nunca, em razão das dificuldades e pressões que os Estados Unidos estão criando. A China é um candidato natural e essencial para essa diversificação soberana”, destacou o economista.
Equilíbrio Estratégico e Pragmatismo Comercial
Apesar do entusiasmo com a ampliação geopolítica, Paulo Nogueira Batista Júnior alertou para a importância de o Brasil não adotar uma postura ingênua nas negociações bilaterais. Ele chamou a atenção para os riscos de eventuais acordos de livre comércio irrestritos que possam expor a fragilizada indústria de transformação brasileira à massiva competitividade das manufaturas chinesas.
O economista enfatizou que o pragmatismo deve orientar as tratativas, exigindo contrapartidas claras para os investimentos produtivos no país, como a transferência efetiva de tecnologia, o adensamento das cadeias de valor locais e a preservação de tarifas defensivas para setores industriais vulneráveis.
Tarifaço Norte-Americano e Impactos Limitados
Ao avaliar o “tarifaço” e as retaliações comerciais norte-americanas promovidas por Donald Trump, Paulo Nogueira apontou que o impacto macroeconômico no Brasil tende a ser pontual e focado em setores específicos (como o aeronáutico e o siderúrgico). Por outro lado, a balança comercial brasileira tem registrado saldo positivo com a exportação de petróleo, embora o repasse dos preços internacionais acenda alertas sobre a inflação doméstica.
Soberania Nacional e a Quinta Coluna
Paulo Nogueira também comentou a ação de setores da política interna — classificados por ele como a “quinta coluna” — que tentam sabotar as relações diplomáticas sul-americanas e alinhar subservientemente o país aos interesses norte-americanos. A recente visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil, marcada por provocações e homenagens promovidas pela extrema-direita paulista, exemplifica a tentativa de semear a discórdia na integração regional.
Para o economista, a resposta brasileira deve ser firme na defesa das instituições e dos interesses nacionais, sem cair em contendas estéreis, consolidando a parceria com a China e o BRICS como o pilar de um desenvolvimento autônomo e multipolar.
FOTO: Ricardo Stuckert/PR | Brasil247
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/chegou-a-hora-de-aprofundar-a-relacao-com-a-china-diz-paulo-nogueira-batista-junior/