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CHINA – A BÚSSOLA DO EQUILÍBRIO GEOPOLÍTICO MUNDIAL OU O NOVO LÍDER DO MUNDO POLÍTICO?

Hoje Putin está na China, poucos dias depois da visita de Trump a Pequim, e isto não é apenas um acontecimento diplomático. É um símbolo. Talvez um dos mais reveladores do momento histórico que o mundo atravessa.

Durante décadas, o centro gravitacional da política internacional esteve claramente definido: Washington ditava o ritmo, a Europa acompanhava o discurso e o resto do mundo posicionava-se em função desse eixo. Hoje, porém, a fotografia global é outra. E essa mudança percebe-se precisamente no facto de dois líderes com agendas tão distintas como Trump e Putin procurarem, em momentos consecutivos, o mesmo interlocutor: Xi Jinping.

A questão deixou de ser saber se a China é uma potência global. Isso já ninguém discute. A verdadeira questão é perceber se Pequim se tornou apenas a bússola do novo equilíbrio mundial ou se está calmamente a assumir o papel de novo centro político do planeta.

Trump chegou à China com a narrativa habitual de força negocial e recuperação económica americana. Mas a leitura internacional da visita foi bastante diferente da encenação mediática construída para consumo interno nos Estados Unidos. Pequim não fez concessões estruturais relevantes, não alterou substancialmente os equilíbrios comerciais e limitou-se a gerir diplomaticamente a relação com uma América cada vez mais instável, polarizada e pressionada pela própria dívida, pela inflação e pela perda gradual de supremacia industrial.

No fundo, Trump precisa mais da China do que a China precisa de Trump. E isso representa uma inversão histórica profundamente significativa.

Os Estados Unidos ainda são a maior potência militar do mundo e uma referência tecnológica incontornável, mas já não conseguem impor unilateralmente as regras económicas globais como faziam há vinte ou trinta anos. O mundo multipolar deixou de ser teoria académica para se transformar em realidade prática. É precisamente nesse espaço que surge agora Putin.

A Rússia chega à China numa posição em que a guerra na Ucrânia expôs limitações económicas, militares e diplomáticas que Moscovo tentará ultrapassar com os seus aliados. Mas a estratégica indica que a Rússia continua a ser um ator decisivo no xadrez energético, militar e geopolítico global. Putin sabe que o futuro económico russo depende, em larga medida, da consolidação da parceria chinesa. Energia, comércio, tecnologia, sistemas financeiros alternativos e resistência às sanções ocidentais fazem hoje parte de um mesmo objetivo: construir uma esfera de influência capaz de reduzir a dependência do modelo dominado pelo Ocidente.

E a China percebe perfeitamente essa dependência. Talvez por isso esta relação seja frequentemente apresentada como uma aliança entre iguais, quando na verdade revela um novo equilíbrio de forças: Moscovo tornou-se indispensável para Pequim em algumas áreas estratégicas, mas é Pequim quem define hoje o ritmo da relação.

Enquanto isso, a Europa parece assistir a tudo isto numa posição cada vez mais desconfortável. A União Europeia continua economicamente poderosa, mas geopoliticamente hesitante. Presa entre a dependência militar americana, a necessidade económica chinesa e a hostilidade crescente em relação à Rússia, a Europa perdeu aquilo que mais lhe faltava perder: clareza estratégica sobre o seu próprio papel no mundo. O problema europeu já não é apenas económico ou militar. É psicológico e político.

A Europa continua muitas vezes a falar como se estivesse no centro do mundo, quando o centro das decisões globais se desloca rapidamente para outros corredores diplomáticos, outras alianças e outras prioridades geoestratégicas.

Pequim percebeu isso antes de todos. A China não precisa de dominar militarmente o planeta para exercer influência global. Basta-lhe aquilo que está a construir há anos: presença económica, capacidade industrial, estabilidade política interna, investimento internacional e uma diplomacia paciente e pragmática. Enquanto o Ocidente discute ciclos eleitorais, crises internas e guerras culturais, a China trabalha em décadas.

Talvez seja esse o maior choque civilizacional do nosso tempo. Porque o mundo começa lentamente a aceitar uma ideia que há poucos anos parecia impossível: o século XXI poderá já não ser liderado pelo modelo político ocidental, mas sim por uma nova ordem onde Pequim funciona simultaneamente como árbitro económico, parceiro estratégico e centro inevitável de negociação global.

A visita de Trump mostrou dependência. A chegada de Putin mostra necessidade. E a Europa, olhando para ambos, parece cada vez mais sem saber exatamente onde se posicionar. Talvez seja essa a verdadeira notícia destes dias. Não é apenas Putin chegar hoje à China. É o mundo inteiro começar a perceber que, para quase todas as grandes decisões futuras, o caminho passará inevitavelmente por Pequim.

FONTE: https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=1403623364862665&id=100056450448707