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China vê guerra contra o Irã como erro estratégico dos Estados Unidos

Análise publicada pela revista The Economist aponta que Pequim aposta no desgaste americano para ampliar sua própria vantagem global.

247 – A China enxerga a guerra contra o Irã não como uma demonstração de força capaz de conter sua ascensão, mas como um grave erro estratégico dos Estados Unidos, segundo análise publicada pela revista The Economist na seção Leaders da edição de 4 de abril de 2026. Na leitura predominante em Pequim, o conflito tende menos a reforçar a hegemonia americana do que a expor seus limites em uma conjuntura internacional cada vez mais instável.

Quando a ofensiva contra o Irã começou, seus defensores mais entusiastas sustentavam que a guerra poderia remodelar o Oriente Médio ao enfraquecer um regime visto como hostil e ao bloquear suas ambições nucleares. Mas essa expectativa ia além da região. Para esses setores, o confronto também serviria para reordenar o equilíbrio global ao intimidar a China, mostrando como o controle dos Estados Unidos sobre o fluxo de petróleo poderia deixar os chineses em posição vulnerável.

Essa mesma tese previa ainda um ganho adicional para Washington: o fortalecimento da capacidade de dissuasão militar. A superioridade bélica dos Estados Unidos, em contraste com a eventual relutância ou incapacidade da China de socorrer aliados e parceiros, seria uma mensagem direta ao sistema internacional. A guerra, nesse raciocínio, funcionaria como prova concreta de que Pequim continua exposta a choques estratégicos e dependente de rotas energéticas sob influência americana.

Um mês depois do início dos combates, porém, essa lógica parece, segundo a análise da The Economist, equivocada e marcada por excesso de confiança. Em vez de enxergar a guerra como um movimento brilhante de contenção, a elite política e intelectual chinesa a interpreta como uma iniciativa desastrosa de Washington. A publicação relata ter conversado com diplomatas, conselheiros, acadêmicos, especialistas e autoridades chinesas, atuais e antigas. Quase todos classificaram a guerra como um erro grave dos Estados Unidos.

Na visão desses interlocutores, o posicionamento de Pequim tem sido calculado. A China optou por se manter à margem, evitando envolver-se diretamente no conflito. Essa postura, segundo os relatos reunidos pela revista, decorre da avaliação de que os dirigentes chineses compreendem bem a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte: jamais interromper o inimigo quando ele está cometendo um erro. A ideia central é simples: quanto mais os Estados Unidos se desgastarem em uma guerra de consequências amplas, maior poderá ser o espaço de manobra para a China no tabuleiro internacional.

Esse cálculo ajuda a explicar por que Pequim não trata o conflito como uma armadilha estratégica para si, mas como um episódio que pode acelerar o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos. Em vez de aceitar a narrativa de vulnerabilidade energética ou de humilhação geopolítica, a China parece apostar que o principal efeito da guerra será corroer a posição americana, tanto no Oriente Médio quanto na disputa de longo prazo pela liderança global.

No centro dessa avaliação está uma diferença decisiva de perspectiva. Para os setores mais agressivos em Washington, a guerra teria capacidade de restaurar o medo e reafirmar a supremacia dos Estados Unidos. Para Pequim, no entanto, o conflito reforça justamente o contrário: a tendência de dispersão estratégica americana, o custo crescente de suas intervenções e a dificuldade de transformar poder militar em estabilidade política duradoura.

A leitura chinesa, tal como retratada pela The Economist, revela uma confiança fria e pragmática. Em vez de reagir impulsivamente, Pequim prefere observar o desenrolar dos acontecimentos e deixar que o próprio adversário arque com os custos de sua escolha. Nessa visão, a guerra contra o Irã não representa uma derrota antecipada para a China, mas uma oportunidade histórica para assistir ao desgaste de Washington sem precisar entrar diretamente no confronto.

Foto: Xinhua

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/china-ve-guerra-contra-o-ira-como-erro-estrategico-dos-estados-unidos