“O conflito no Oriente Médio elevou significativamente o preço do petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 115 por barril”.
A “super quarta” trouxe decisões relevantes de política monetária tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, com sinais importantes para o cenário econômico global e doméstico. Começando pelo Federal Reserve, a decisão foi interpretada como mais dura (hawkish) do que o esperado por parte do mercado. Havia alguma expectativa de corte de 0,25 ponto percentual, especialmente por parte de membros mais inclinados a uma postura expansionista (dovish), mas prevaleceu a manutenção dos juros. Além disso, a comunicação do presidente Jerome Powell reforçou um tom cauteloso, indicando que o ciclo de cortes pode ser postergado. O mercado, que antes projetava reduções já neste ano, passou a precificar cortes apenas mais adiante, possivelmente em dezembro.
Essa mudança de expectativa está diretamente relacionada ao agravamento do cenário geopolítico. O conflito no Oriente Médio elevou significativamente o preço do petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 115 por barril. Trata-se de um choque relevante, com impacto direto sobre a inflação global. Esse movimento tende a contaminar indicadores como o CPI e o PPI nos próximos meses, especialmente considerando que os dados mais recentes ainda não incorporam plenamente a alta dos combustíveis.
O cenário, portanto, tornou-se mais complexo nos Estados Unidos. A inflação pode voltar a ganhar força, o que reduz o espaço para flexibilização monetária. A possibilidade de novos aumentos de juros, embora não seja o cenário base, voltou ao radar, evidenciando uma deterioração significativa das condições macroeconômicas.
No Brasil, o Banco Central do Brasil optou por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, o mínimo esperado pelo mercado. A decisão em si já era amplamente antecipada, mas o comunicado do Comitê de Política Monetária surpreendeu pelo tom bastante duro. Houve críticas de parte do mercado, com alguns analistas argumentando que, diante do cenário atual, sequer haveria espaço para iniciar o ciclo de cortes.
Ainda assim, o Copom optou por iniciar a flexibilização, deixando claro que os próximos passos dependerão fortemente da evolução do cenário externo, especialmente do conflito no Oriente Médio. O comunicado enfatiza o elevado grau de incerteza e destaca que futuras decisões estarão condicionadas à evolução dos preços de energia e seus impactos inflacionários.
Esse ponto é crucial. O Brasil já enfrenta uma defasagem relevante nos preços de combustíveis, estimada entre 30% e 40%. Embora a Petrobras tenha conseguido segurar parcialmente os reajustes, há limites para essa estratégia. Além disso, fatores como aumento das importações de diesel e risco de greve de caminhoneiros ampliam a pressão inflacionária.
Se o petróleo continuar subindo — cenário plausível caso o conflito se prolongue — os impactos sobre a inflação brasileira podem ser significativos. Estamos falando de um IPCA que pode se aproximar de 4,5% ou até 5%, acompanhado de uma taxa de câmbio mais depreciada, possivelmente na faixa de R$ 5,50 por dólar. Nesse contexto, o ciclo de queda da Selic fica ameaçado, e não se pode descartar, no limite, até uma reversão para alta de juros.
Por outro lado, a economia doméstica vinha apresentando sinais relativamente positivos até recentemente. Indicadores de atividade, como comércio, serviços e indústria, mostraram alguma recuperação no fim do ano passado e início deste ano. O mercado de trabalho segue resiliente, ainda que com sinais mistos. Esses elementos foram reconhecidos pelo Banco Central no comunicado. No entanto, o choque externo muda substancialmente o cenário. Sem o aumento do petróleo, o caminho parecia relativamente claro: uma trajetória de queda de juros levando a Selic para algo próximo de 12% ao final do ano. Agora, essa trajetória está em xeque.
A principal conclusão é que houve uma mudança relevante — e rápida — no cenário macroeconômico global. O conflito no Oriente Médio, já em sua terceira semana, tende a se prolongar, mantendo o petróleo em níveis elevados e pressionando a inflação mundial. Diante disso, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, os bancos centrais passam a adotar posturas mais cautelosas. O Fed sinaliza o adiamento do ciclo de cortes, enquanto o Banco Central brasileiro inicia a flexibilização de forma hesitante e altamente condicionada ao cenário externo.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/choque-do-petroleo-e-incerteza-global-a-virada-na-trajetoria-de-juros-no-brasil-e-no-mundo