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Civilização sob pressão: Michael Hudson denuncia o avanço do capitalismo rentista

Economista afirma que juros, monopólios e privatizações travam a produção no Ocidente e intensificam a disputa global com China e Rússia.

247 – A ideia de que o mundo atravessa um período de decadência não é apenas retórica pessimista, mas um diagnóstico econômico e histórico que, segundo o professor Michael Hudson, ajuda a explicar o enfraquecimento do Ocidente e o surgimento de um novo conflito global. Para o economista, a civilização moderna estaria se afastando de suas bases produtivas e se aproximando de um modelo dominado por dívidas, juros e rendas improdutivas.

A análise foi apresentada em entrevista no YouTube, no programa conduzido por Glenn Diesen, em que Hudson discute o tema “O destino da civilização” e afirma que a crise contemporânea vai além de recessões ou ciclos de mercado: ela estaria ligada à transformação estrutural do capitalismo industrial em um sistema financeirizado, marcado pela supremacia de bancos, monopólios e grandes proprietários de ativos.

Hudson defende que existe uma diferença profunda entre o declínio de uma economia e o colapso de uma civilização. Em sua visão, o que está em jogo não é apenas uma desaceleração econômica, mas a corrosão do próprio projeto histórico que sustentou o avanço industrial e o desenvolvimento social no século XIX e no pós-guerra. “Há uma grande diferença entre o declínio de uma economia… e o declínio de uma civilização inteira”, afirma.

A ruptura entre produção e rentismo

O economista argumenta que o capitalismo industrial, tal como concebido pelos autores clássicos, tinha como meta reduzir o poder de grupos que acumulavam riqueza sem produzir. Para Hudson, a economia era vista como um sistema dividido em dois campos: o setor produtivo e o setor rentista. “Cada economia era dividida em duas partes. Havia uma parte de produção… e depois havia uma parte rentista”, diz.

Nesse modelo, o rentismo seria um “peso” sobre a economia real, pois eleva custos e reduz incentivos ao investimento produtivo. Hudson cita David Ricardo e John Stuart Mill para lembrar que, na economia política clássica, o excedente entre valor e preço era entendido como renda econômica, considerada “não merecida”. Ele destaca uma frase atribuída a Mill para ilustrar a lógica: “Os proprietários coletam rendas… enquanto dormem”.

Ricardo, as Corn Laws e a origem do alerta

Ao reconstruir a história britânica, Hudson afirma que a Revolução Industrial poderia ter sido travada por uma aristocracia fundiária que impunha tarifas para manter altos os preços dos alimentos. Esse conflito, segundo ele, moldou um dos grandes debates do século XIX: se a economia deveria servir à expansão industrial ou à preservação de rendas hereditárias.

O economista recorda que a luta contra as Corn Laws (tarifas sobre importações de grãos) durou cerca de três décadas e foi decisiva para reduzir o custo de subsistência dos trabalhadores. Com alimentos mais baratos, empregadores poderiam pagar salários menores sem comprometer a sobrevivência da população, aumentando a competitividade industrial.

Ricardo, segundo Hudson, alertava que a expansão da renda fundiária poderia extinguir os lucros e encerrar o ciclo de acumulação. O resultado seria um país onde a riqueza se concentraria em proprietários e cobradores de impostos e dívidas, em vez de estimular a produção.

“Não é mais capitalismo industrial, é capitalismo financeiro”

Hudson afirma que esse processo se repete hoje em escala maior, mas com protagonistas diferentes. Para ele, o Ocidente já não vive um capitalismo industrial, mas um capitalismo financeiro. “Não estamos mais em uma economia capitalista industrial… é capitalismo financeiro”, diz.

Nesse sistema, o crescimento do PIB não refletiria avanço produtivo, mas sim o aumento de rendas e cobranças financeiras incorporadas às estatísticas como se fossem serviços legítimos. “O PIB parece estar crescendo, mas quase todo esse crescimento… é renda rentista”, afirma, argumentando que juros, multas e tarifas bancárias entram como “produção” nas contas nacionais.

Habitação e dívida: o banco no lugar do senhorio

Um dos pontos centrais da entrevista é a crítica ao mercado imobiliário e ao endividamento das famílias. Hudson afirma que o modelo de moradia no Ocidente transformou a renda fundiária em fluxo permanente para o sistema financeiro. “A renda da terra é toda paga ao banqueiro, não a uma classe de senhores de terra”, diz.

Ele argumenta que, ao longo de uma hipoteca típica de 30 anos, o custo do crédito pode superar o valor recebido pelo vendedor do imóvel. “O banqueiro recebeu mais dinheiro em forma de juros do que o vendedor de uma casa recebeu”, afirma, sustentando que isso eleva artificialmente os preços e amplia a dependência social do endividamento.

Privatizações e a escalada do custo de vida

Hudson também associa o avanço do rentismo a um processo político de privatização de serviços públicos, sobretudo desde os anos 1980. Ele cita explicitamente Margaret Thatcher e Ronald Reagan como símbolos da guinada neoliberal. “Desde os anos 1980, de Margaret Thatcher a Ronald Reagan… houve um movimento para privatizar a infraestrutura pública”, diz.

Como exemplo, ele menciona a privatização da água e dos transportes no Reino Unido, alegando que o resultado foi aumento de tarifas e deterioração de serviços. Hudson afirma que empresas privatizadas passaram a cortar rotas e reduzir investimentos para maximizar lucros, elevando o custo para consumidores e indústrias.

Energia: o “novo trigo” que define o destino industrial

Ao traçar paralelos históricos, Hudson afirma que a energia ocupa hoje o mesmo papel estratégico que o preço dos grãos teve na Inglaterra do século XIX. “O equivalente hoje seria energia”, diz, argumentando que indústrias e famílias dependem de eletricidade, gás e combustíveis para sustentar produtividade e padrão de vida.

Nesse ponto, o economista critica a influência de setores fósseis sobre a política norte-americana e afirma que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump teria representado interesses ligados ao carvão e ao petróleo. “Eles compraram controle da administração Trump… Trump disse: eu represento a indústria do carvão”, afirma, acusando a Casa Branca de bloquear alternativas energéticas como solar e eólica.

Hudson argumenta que a recusa em investir em transição energética representa risco civilizacional, pois amplia vulnerabilidades diante de mudanças climáticas. Ele cita exemplos históricos de sociedades antigas destruídas por crises ambientais, como a Mesopotâmia e a civilização do Indo.

EUA e Europa: a nova dependência econômica

Hudson descreve o relacionamento entre Estados Unidos e Europa como uma dinâmica de subordinação econômica, sustentada por um discurso geopolítico de guerra fria. Segundo ele, Washington pressiona aliados europeus a abandonar fontes alternativas de energia e a depender do gás liquefeito norte-americano, elevando custos industriais.

O economista também afirma que o mesmo mecanismo se estende à tecnologia, especialmente no setor de inteligência artificial e plataformas digitais, onde empresas dos EUA buscam impor monopólios globais. “Eles querem substituir isso por rendas de monopólio de tecnologia da informação e inteligência artificial”, diz.

Para Hudson, esse processo faz parte de uma estratégia para compensar a desindustrialização americana e manter a hegemonia econômica através da extração de renda do resto do mundo.

China e Rússia: o efeito reverso das sanções

Ao comentar sanções e restrições comerciais, Hudson rejeita a ideia de que China e Rússia tenham se isolado voluntariamente. “Não é que eles se cortaram. Donald Trump e a América os cortaram… para benefício deles”, afirma.

Segundo ele, ao manter forte participação estatal e controlar preços de necessidades básicas, esses países preservaram competitividade industrial e impediram que bancos e monopólios capturassem a economia. Hudson sustenta que a China avançou ao tratar crédito como instrumento público. “O que a China fez… é dizer: dinheiro é uma utilidade pública”, afirma.

Ele argumenta que o modelo chinês utiliza bancos e crédito para financiar infraestrutura e indústria, e não para especulação e “engenharia financeira”, como ocorreria no Ocidente.

Democracia, autocracia e a “linguagem da decepção”

Outro eixo da entrevista é a crítica de Hudson ao vocabulário político contemporâneo. Ele afirma que termos como “democracia” e “autocracia” passaram a ser usados para legitimar interesses rentistas e atacar regulações sociais. “Eles estão fazendo a autocracia parecer algo realmente, realmente bom”, diz.

Hudson afirma que o neoliberalismo apagou deliberadamente o conceito de renda econômica e passou a tratar rentismo como produção legítima. “A grande ameaça à civilização ocidental é o neoliberalismo, que nega a existência de renda econômica”, afirma.

O economista acrescenta que essa mudança de linguagem dificulta que sociedades compreendam o que realmente está acontecendo com sua estrutura econômica. “A retórica do pensamento econômico foi mudada para um vocabulário de decepção”, sustenta.

Lições da Antiguidade: dívidas e colapso

Hudson encerra sua análise com uma leitura histórica ampla, defendendo que o endividamento excessivo e a concentração fundiária estiveram no centro de crises que destruíram civilizações antigas. Ele cita práticas recorrentes de cancelamento de dívidas em reinos da Mesopotâmia e do Egito como forma de impedir que oligarquias dominassem o Estado e empobrecessem a população.

Segundo Hudson, quando essas políticas falharam — como no caso romano — o resultado foi instabilidade prolongada, guerras civis e a consolidação de formas de servidão. Para ele, o presente se aproxima desse padrão ao normalizar dívidas e permitir que bancos e grandes proprietários capturem as estruturas políticas.

Ao final da entrevista, Hudson sustenta que civilizações entram em decadência quando passam a confundir crescimento estatístico com prosperidade real e quando permitem que rendas improdutivas substituam investimento produtivo. “Sem um vocabulário adequado, você não entende as dinâmicas reais de como a economia funciona”, conclui, ao alertar que a financeirização não é apenas uma mudança de política econômica, mas uma transformação capaz de reorientar — e comprometer — o futuro do próprio mundo ocidental.

Foto: Reprodução/Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/civilizacao-sob-pressao-michael-hudson-denuncia-o-avanco-do-capitalismo-rentista