A maior delegação brasileira já enviada ao país asiático marca o auge da aproximação bilateral recente, em meio a um cenário geopolítico desafiador.
O Brasil se prepara para o Carnaval neste fim de semana, quando o país literalmente para, mas em Brasília os preparativos seguem intensos para a próxima visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, acompanhado por uma delegação empresarial composta por 260 companhias.
A maior delegação brasileira já enviada à Índia representa o ponto culminante do mais alto nível de aproximação entre os dois países nos últimos anos — em um cenário geopolítico desafiador. A viagem também pode ser o último grande compromisso internacional do líder brasileiro antes de o país entrar em ritmo eleitoral para as eleições presidenciais de outubro deste ano.
Após a reunião bilateral do primeiro-ministro Narendra Modi com Lula em Brasília, em julho de 2025, quando discutiram a ampliação do comércio entre os dois países, a viagem do presidente brasileiro a Nova Délhi, entre 19 e 21 de fevereiro, vem sendo tratada como prioridade máxima pelo governo brasileiro.
Celso Amorim, que atua como principal assessor de política externa de Lula, vê a visita como uma oportunidade para colaboração em setores estratégicos entre duas economias emergentes. “A cooperação entre Brasil e Índia pode ser muito ampla, mas eu destacaria, acima de tudo, dois domínios: tecnologia e defesa”, disse Amorim ao jornal The Hindu.
“Brasil e Índia desenvolveram, cada um à sua maneira, aspectos muito importantes também na biotecnologia. Na ciência espacial, a Índia nos deu um grande exemplo de como é possível alcançar grandes conquistas sem necessariamente recorrer à tecnologia dos países ricos”, afirmou Amorim, que anteriormente ocupou os cargos de ministro das Relações Exteriores e ministro da Defesa durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, respectivamente.
Desde a reunião bilateral de 2025, o lado brasileiro vem trabalhando para fortalecer seus vínculos comerciais com a Índia. Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), disse ao The Hindu que Lula pediu no ano passado que ele organizasse uma delegação como parte do esforço para ampliar as relações comerciais com a Índia.
“Em Délhi, o presidente participará da cúpula de Inteligência Artificial, mas também estamos organizando um enorme encontro empresarial em colaboração com nosso Ministério das Relações Exteriores. A Apex também está abrindo um escritório em Délhi, pois vemos a Índia, a nação mais populosa, como uma das economias com maior potencial de crescimento”, afirmou Viana ao The Hindu a partir de Brasília. “Até o ano passado, a Índia era nosso 10º maior parceiro comercial, mas agora, nos últimos meses, tem competido para ser o quinto. Pode se tornar o terceiro maior”.
Em 2025, o Brasil comprou produtos indianos no valor de US$ 8,5 bilhões, enquanto as exportações brasileiras para a Índia totalizaram US$ 7 bilhões — principalmente nos setores de petróleo, açúcar, melaço, gorduras e óleos vegetais, além de minério de ferro. No entanto, segundo Viana, os brasileiros agora querem diversificar suas exportações para o mercado indiano.
“Temos 260 empresas brasileiras participando do evento que a Apex está organizando em Délhi. Temos representantes de todos os setores estratégicos. Estamos levando muitas pessoas da área da saúde, inclusive nosso ministro da Saúde, porque a Índia é um grande fornecedor de medicamentos para o Brasil. Também temos importantes empresas de etanol e biocombustíveis a bordo, porque já existe um acordo entre Brasil e Índia nessa área”. Ele acrescentou que pode haver um grande anúncio sobre a chegada da Embraer, fabricante brasileira de aeronaves, à Índia.
Com a segurança energética e a sustentabilidade redesenhando os alinhamentos globais — e ameaçando romper a ordem mundial existente diante do aumento das rivalidades geopolíticas — o Brasil demonstra interesse em aprofundar sua aproximação com a Índia nesses temas. “Temos que trabalhar juntos pela transição energética, sem esquecer que ainda temos um grande comércio de petróleo. Não podemos, de uma hora para outra, abandonar o petróleo, mas precisamos trabalhar para que o mundo seja mais sustentável. E sustentável não apenas do ponto de vista econômico e energético, mas também do ponto de vista político”, afirmou Amorim, uma das vozes brasileiras mais influentes nos assuntos internacionais nas últimas duas décadas.
Embora o comércio deva dominar a agenda de Lula em Délhi, o Brasil também observa a presidência indiana do BRICS em 2026 como uma oportunidade para avançar o debate sobre governança global e multilateralismo, atualmente sob ameaça. Para Amorim, o grupo precisa discutir reformas na ordem global para refletir os interesses do Sul Global.
“É importante que a presidência indiana do BRICS conduza essa discussão sobre a atual ordem mundial e como mudá-la. Todos sabemos da luta que existe pela expansão do Conselho de Segurança da ONU. Um mundo sem regras é um mundo muito difícil. Índia e Brasil sempre trabalharam com regras — as regras que ajudaram a construir e que nos beneficiaram. E isso só é possível dentro de um sistema multilateral equilibrado, que o BRICS tem que ajudar a fortalecer e reconstruir”, disse o assessor de Lula.
Com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abandonando as regras do comércio internacional, economias emergentes passaram a explorar mais comércio com outros países e blocos. Poucas semanas antes de a Índia assinar um Acordo de Livre Comércio (FTA, na sigla em inglês) com a União Europeia, o bloco sul-americano Mercosul, do qual o Brasil faz parte, também finalizou seu pacto com os europeus. Agora, o há muito aguardado acordo Mercosul-Índia também pode entrar em discussão séria durante a visita de Lula.
“A tensão dos EUA com o mundo inteiro gerou oportunidades para países como o Brasil, que não têm disputas com ninguém. O acordo Mercosul–UE está avançando bem. Embora seja um acordo multilateral e envolva muitas tarifas, vamos discuti-lo com o lado indiano”, afirmou Viana, que é membro do Partido dos Trabalhadores de Lula e um aliado próximo do presidente.
O Brasil ainda não firmou um acordo comercial com os Estados Unidos. Mas, com a maior delegação empresarial já enviada à Índia durante seu terceiro mandato como presidente, Lula busca fechar grandes acordos com um parceiro do BRICS antes de retornar ao país, após o fim do Carnaval.
Foto: Ricardo Stuckert
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/com-foco-em-acordos-comerciais-e-na-reforma-da-governanca-global-lula-vai-a-india-com-260-empresas