Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Com supercomputador e Nuvem Brasileira, governo impulsiona soberania tecnológica no país

Em evento no RN, governo Lula oficializa Nuvem Brasileira e centro de processamento em IA.

247 – Em evento oficial realizado nesta quinta-feira (20) no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba (RN), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um conjunto de medidas estratégicas para consolidar a autonomia tecnológica do país.

O pilar central da cerimônia foi a consolidação da implantação do supercomputador “PAX RN”, uma estrutura voltada para inteligência artificial, modelagem computacional e aplicações científicas, tecnológicas e do setor produtivo. Um edital no valor de R$ 1 bilhão será lançado para a aquisição do equipamento, que terá sede no estado potiguar. A compra do supercomputador representa a primeira grande entrega da iniciativa, elevando a capacidade de processamento brasileira a um novo patamar.

As medidas anunciadas estão enquadradas no Plano Brasileiro de IA (PBIA), formulado em 2024. A estratégia nacional baseia-se em três pilares fundamentais: a capacidade de processamento computacional, o desenvolvimento de modelos próprios de IA e a gestão segura de dados. O objetivo do plano é estruturar um ecossistema nacional capaz de impulsionar a criação de tecnologias próprias, superando gargalos como as limitações de infraestrutura e a carência global de formação de recursos humanos na área de P&D.

Presente ao evento, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, defendeu a necessidade de uma soberania digital “na veia”. A ministra enfatizou a importância de o Brasil desenvolver tecnologias nativas e expandir sua capacidade de processamento interno frente às pressões internacionais pelo acesso a dados estratégicos. “Precisamos também no Sul Global ter mais autonomia tecnológica”, afirmou Luciana, acrescentando que as contrapartidas do projeto “envolvem benefícios estruturantes”.

A solenidade contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.

Durante o ato, Bezerra ressaltou que o Rio Grande do Norte dispõe de um enorme potencial energético limpo e destacou que o anúncio “coloca o estado no mapa do Brasil e do mundo”. Na mesma ocasião, Motta chamou a atenção para a vulnerabilidade do armazenamento de dados no país, alertando que os dados do Pix estão atualmente localizados na Califórnia, o que pode gerar “problemas”.

A expansão da infraestrutura de armazenamento e a segurança da informação foram detalhadas pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck. A ministra observou que, historicamente, a maior parte dos dados brasileiros ficava hospedada no exterior, sobretudo nos EUA, sob o domínio de um oligopólio composto por cinco empresas americanas e uma chinesa. Segundo Dweck, a criação da Nuvem Brasileira integra um esforço de repatriar dados para estruturas gerenciadas por empresas públicas, garantindo a capacidade de recuperação de informações em eventuais litígios ou apreensões.

A Nuvem Brasileira consiste em uma evolução da infraestrutura governamental existente — uma versão plus com tecnologia nacional operada por órgãos públicos. O projeto resultará de uma cooperação técnica entre o MGI, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e o Serpro. A proposta visa assegurar a gestão autônoma sobre os serviços públicos e mitigar a dependência de hardwares estrangeiros, com a modelagem do sistema prevista para conclusão até o final do ano.

Contextualizando a disputa geopolítica da inovação, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, alertou para os riscos do atraso tecnológico: “As oportunidades estão aí, mas elas não se autodesenvolvem”. Belchior contrapôs a antiga economia extrativista de matérias-primas ao cenário atual, no qual o domínio tecnológico dita o controle econômico. “Com a IA, estamos diante da encruzilhada entre seguir uma lógica extrativista ou o caminho da soberania, com parceiros, mas com a direção sendo definida pelo povo brasileiro”, pontuou a ministra, ressaltando que o país não pretende atuar de forma isolada.

No pilar de desenvolvimento de modelos, o governo trabalha em parcerias internacionais para criar Large Language Models (LLMs) em português do Brasil e espanhol, integrando um projeto pan-americano. Uma das frentes prevê o treinamento de modelos sobre infraestrutura tecnológica fornecida pela multinacional Huawei.

Paralelamente, o país investirá em tecnologias de arquitetura aberta e não-proprietária, como os processadores RISC-V, desenvolvidos por um consórcio global que reúne Estados Unidos, Europa, Índia e China. A tecnologia aberta permitirá integração com a arquitetura de supercomputadores, diversificando fornecedores e reduzindo a dependência do mercado fechado.

No âmbito da governança e ética, será criado o Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, em cooperação com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O centro terá como foco estabelecer diretrizes para a garantia de uma “IA boa”, antecedendo o diálogo direto com as grandes empresas de tecnologia (big techs).

Embora a plataforma da NVIDIA seja atualmente dominante no mercado de software e hardware, o governo indicou que o ecossistema brasileiro permanecerá aberto a soluções concorrentes de elevado desempenho, como as processadas por chips AMD e Intel, acompanhando a evolução global da concorrência.

Os projetos apresentados contarão com aportes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e mantêm perspectiva de captação de investimentos do setor privado.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/brasil-soberano/com-supercomputador-e-nuvem-brasileira-governo-impulsiona-soberania-tecnologica-no-pais/