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Como Rússia e Índia veem a guerra contra o Irã

A parceria estratégica Rússia-Irã – embora não inclua um tratado militar – opera em diversos níveis entrelaçados.

Esta é a Parte 2 de um análise de duas partes. Leiam a Parte 1 aqui.

O Presidente Putin enviou uma mensagem muito cordial ao Aiatolá  Mojtaba Khamenei, cumprimentando-o pessoalmente por sua eleição como Líder Supremo da República Islâmica do Irã.

Palavras são de fato (itálicos meus) importantes:

“Em um momento em que o Irã se confronta com a agressão armada, seus esforços, nessa tão elevada posição, certamente irão exigir grande coragem e dedicação. Estou confiante de que o senhor, de forma digna, dará continuidade ao trabalho de seu pai e unirá o povo iraniano face a essa grande tribulação”. 

Após ressaltar a “agressão” estrangeira e a continuidade do governo, Putin reiterou a parceria estratégica em termos inequívocos:

“De minha parte, eu gostaria de reafirmar nosso inabalável apoio a Teerã e nossa solidariedade com nossos amigos iranianos. A Rússia vem sendo e continuará a ser um parceiro confiável da República Islâmica”. 

Muda a cena para um desesperado Presidente Trump, ou Neocalígula, telefonando para Putin, basicamente para pedir a ele que interviesse como mediador para convencer  o Irã a aceitar um cessar-fogo. Mas o que ele ouviu foi uma polida listagem de fatos desagradáveis relativos à guerra eletiva lançada pelo Sindicato Epstein contra o Irã.

Trump está entregando a cabeça de seu enviado favorito, Steve Witkoff,  e também a do pífio Jared Kushner e a do palhaço dos push-ups que  posa de Secretário das Guerras Eternas, como tendo sido eles que o forçaram a bombardear o Irã. Foi Witkoff que afirmou, após o telefonema, que a Rússia declarou não estar transferindo dados de inteligência ao Irã, como confirmado, segundo ele, pelo assessor presidencial para assuntos internacionais  Yuri Ushakov.

Bobagem. Ushakov jamais disse coisa semelhante. Os russos do primeiro escalão político não comentam questões militares relativas a suas parcerias estratégicas com o Irã e com a  China.

Agora, vamos aos fatos.

Inteligência russa, execução iraniana e nenhuma ameaça militar 

Não é segredo que Moscou tenha compartilhado com Teerã o que pode ser definido como quantidades industriais de inteligência – e dados de combate – coletados na Ucrânia. Grandes quantidades de tecnologia de interferência avançada  e inteligência de satélites que levaram à destruição em série de radares THAAD, radares Patriot e todos os demais tipos de instalações de radar fixas e ultra pesadas  vêm da Rússia e da China.

Embora filmagens de sistemas S-400 e Krasukha russos conseguindo interceptar mísseis americanos não tenham sido divulgadas e provavelmente nunca venham a ser, o fato é que técnicos russos vêm ajudando as equipes iranianas a ajustar com precisão  a trajetória de drones e mísseis durante o voo.

De modo que há uma sofisticada interação prática entre imagens orbitais de alta resolução e de apoio à mira chinesas e russas, e multidões de drones baratos de 20.000 dólares.

A Rússia forneceu ao Irã  drones Geran-3 e Geran-5, superpotentes e testados em combate.  Esses drones são, na verdade,  Shaheds russos: mísseis de cruzeiro letais e baratos, equipados com tecnologia anti-interferência por meio de sua antena Komet, e capazes de alcançar 600 quilômetros por hora. Eles, agora, estão por todo o campo de batalha.

E agora, a parte extremamente suculenta.

Pouco mais de uma semana antes do ataque de decapitação  do Sindicato Epstein contra Teerã, em 28 de fevereiro, a inteligência russa enviou à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC ) o relato detalhado do plano de ataque dos Estados Unidos – do qual constavam matrizes de alvos, plataformas de lançamento e sequências temporais.

De modo que o IRGC sabia exatamente o que esperar.

Seis semanas antes, em dezembro do ano passado, Moscou firmou com o Irã um acordo de armamentos no valor de 500 milhões de euros, que incluía a entrega de 500 lançadores Verba MANPADS e 2.500 mísseis avançados  9M336.

Essencialmente, a Rússia está fornecendo ao Irã inteligência e defesa aérea, enquanto a China fornece mísseis antinavio e vigilância por satélite em tempo real.

O melhor disso tudo é que não há uma aliança trilateral formal. Nem tratado militar. Está tudo encaixado em suas parcerias estratégicas entrelaçadas.

Levando em conta tudo o que foi dito acima,  não é de admirar que um desconcertado Sindicato Epstein esteja culpando a inteligência da Rússia e da China pelos ataques certeiros já confirmados, tais como a estação de comunicação por satélite que faz parte da unidade de comunicações e ciberdefesa  das forças armadas israelenses próximo a Beer Sheeba.

E sequer estamos falando da próxima e inevitável jogada russa: instalar o extremamente poderoso sistema de defesa  Prometheus S-500 no Irã.

Como capturar uma fatia do mercado sem suar a camisa

A parceria estratégica Rússia-Irã – mesmo não incluindo um tratado militar – funciona em diversos níveis entrelaçados.

Na frente da energia, Moscou, sob as ordens de Putin, vem avaliando o que pode vir a se converter em uma interrupção preemptiva definitiva do restante das exportações para a União Europeia, para que elas possam ser direcionadas para a Ásia a preços cada vez mais elevados.

A União Europeia,  afinal de contas, vem reduzindo gradativamente as exportações de gás russo: os contratos de curto prazo serão proibidos a partir de fins de abril, a proibição total de GNL se dará ao final do ano e a proibição do gás de gasodutos em 2017.

Uma boa parte do GNL já vem sendo direcionada para China, Índia, Tailândia e Filipinas. Ao estilo Siga o Dinheiro: navios-tanque de GNL que tiveram sua rota alterada no meio do percurso, sendo desviados de portos europeus para a Ásia, que oferece melhores preços à vista.

Cada dia que o Estreito de Ormuz permanecer fechado – e ele vai permanecer fechado – a Rússia conseguirá novos mercados, em qualquer lugar, sem suar a camisa.

O Secretário do Conselho de Segurança Iraniano, Ali Larijani, deixou meridianamente claro em diversos idiomas, inclusive o russo: quando se trata de Ormuz, há “oportunidades abertas a todos”, como nas parcerias com os aliados Rússia e China, e isso é “um beco-sem-saída  para os belicistas” como o Sindicato Epstein e outras nações hostis.

A Rússia certamente não precisa do Estreito de Ormuz aberto. Mesmo assim, entendeu a piscadela de Larijani reconhecendo a parceria entre os dois países.

A guerra do Sindicato Epstein contra o Irã vem se tornando altamente lucrativa para o orçamento estatal russo – algo jamais visto desde os aumentos de preços de inícios de 2022. Com o Estreito de Ormuz fechado e o GNL do Qatar totalmente fora de cena, a energia russa é a única opção viável. E por falar da Guerra contra o Irã aumentando a capacidade bélica do petróleo e do gás russos.

O que sua dupla traição ensinará à Índia 

A Índia, ao contrário, é um caso capaz de quebrar qualquer consultório de psicanálise. Nova Delhi está presidindo os  BRICS em 2026. O país é um dos fundadores dos BRICS, e o Irã é membro pleno da organização. Todos os BRICS originais condenaram a guerra do Sindicato Epstein contra o Irã: Brasil, Rússia, China, África do Sul. A Índia esperou três dias para, basicamente, dizer que o Irã e os Estados Unidos deveriam conversar com civilidade.

Enquanto o Primeiro-Ministro  Modi assinava acordos de defesa com aquele Culto à Morte do Oeste Asiático – 40% de suas exportações de armamentos vão para a Índia – um outro membro dos BRICS estava sendo bombardeado com algumas dessas mesmas armas.

Modi, na verdade, estava em Israel falando altissonantemente da “Terra-Mãe” (Índia)  e da “Pátria” (Israel) apenas 48 horas antes do Culto à Morte do Oeste Asiático e do Sindicato Epstein lançarem seu ataque de decapitação sobre Teerã.

Para todos os fins práticos, a gangue de Modi privilegiou os acordos de armamentos  – e o alívio das tarifas de Trump– colocando-os acima do direito internacional.

E fica ainda mais imundo.

A Índia foi incapaz de sequer publicar uma declaração pro forma condenado o ataque por torpedos dos Estados Unidos contra o navio de guerra iraniano Iris Dena em águas internacionais – após a Marinha Indiana ter recebido o Iris Dena para um exercício militar. Todos os membros dos BRICS condenaram o ataque. Menos a Índia.

A controvérsia continua existindo: a Índia pode ter dado as coordenadas do Iris Dena – desarmado e atendendo a convite– para os estadunidenses. E agora, o Sri Lanka, sob pressão dos Estados Unidos, recusa-se a entregar os corpos ao Irã.

A avaliação de até que ponto a traição da Índia conseguiu estraçalhar os BRICS levará tempo. Nas atais circunstâncias, os BRICS estão em coma.

Talvez essa situação traga algo de auspicioso. E isso graças à ilimitada finesse iraniana.

Subrahmanyam Jaishankar, Chanceler da Índia, telefonou  a Abbas Araghchi, Chanceler do Irã.

Aragchi portou-se como um consumado cavalheiro. Ele não fez sermões à Índia nem explodiu em um ataque de raiva – ao estilo americano. Ele foi contido, deixando a Índia perceber que o Irã tem pleno conhecimento de que Nova Delhi está em uma situação extremamente desconfortável, e que Teerã interpreta essa ambiguidade estratégica como relativamente útil, e não hostil.

Em termos práticos, o Irã é praticamente vizinho da Índia: a costa do Makran, ao sul do Irã é separada da costa oeste indiana pelo Mar da Arábia. Kandla Port, no Gujarat, fica a uma distância de apenas 500 milhas marítimas de  Chabahar, no  Sistão-Baloquistão. E esse corredor marítimo, durante séculos, foi uma Rota da Seda Marítima entre os dois estados-civilização.

E essa ligação está de volta como parte do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), que conecta três BRICS: Rússia, Irã e Índia, o tema do meu  documentário ‘Golden Corridor’ filmado no ano passado no Irã.

Além do mais, o Irã é a fonte mais próxima de petróleo e GNL para a Índia.

A Rússia está ensinando à Índia uma lição. Nova Delhi vai ter que pagar caro por ela – significando que não haverá mais descontos de energia, mesmo se Moscou optar pela possibilidade de aumentar a participação da Índia  nas importações de petróleo cru russo para 40%, como confirmado pelo Primeiro-Ministro Adjunto  Alexander Novak.

Nova Delhi pode ter se tornado irrelevante por não compreender o  enorme grau de interesse que o Sindicato Epstein tem no Irã.

Moscou-Pequim, entretanto, são uma outra conversa. As duas capitais vêm investindo no melhor resultado possível: uma guerra que o Império do Caos não conseguirá vencer, a um preço que ele não conseguirá pagar.

A cena está montada. A Rússia avisou o Irã sobre o que iria acontecer. Rússia-China forneceriam inteligência crucial e vigilância por satélite 24/7, enquanto o   Mosaico Descentralizado  faria o trabalho pesado. O “plano” de ataque excepcionalista teve graves falhas já de partida.

Tradução de Patricia Zimbres

FOTO: Avash Media

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/como-russia-e-india-veem-a-guerra-contra-o-ira