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Condições econômicas para o quarto mandato de Lula são mais difíceis, adverte Rui Costa Pimenta

“As condições agora são muito piores, porque a dívida pública está escapando de controle”, diz o presidente do PCO.

247 — O desfecho das eleições presidenciais e o início da transição para o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva colocam o Palácio do Planalto diante de uma encruzilhada estrutural muito mais severa do que as enfrentadas nos mandatos anteriores. A advertência foi feita pelo presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, em transmissão exibida pela TV 247.

Para o dirigente, a leitura predominante em setores da esquerda de que a vitória eleitoral representou uma estabilização tranquila da Nova República ignora as armadilhas econômicas que cercam o país. Segundo Pimenta, o modelo baseado estritamente na conciliação com a burguesia e em políticas sociais compensatórias — sem alterações no modelo macroeconômico e sem ruptura com os interesses do capital financeiro — chegou ao limite.

Dívida pública e a armadilha dos juros

Ao comparar o novo governo que se desenha com as gestões de 2003 e 2023, Rui Costa Pimenta ressaltou que as margens de manobra orçamentárias se estreitaram de forma dramática, sobretudo pelo descontrole da dívida pública e pela manutenção de taxas de juros em patamares extorsivos:

“As condições agora são muito piores, porque a dívida pública está escapando de controle: ela é substancialmente maior e a taxa de juros elevada produz um efeito devastador, drenando mais de R$ 1 trilhão por ano em despesas financeiras. A situação toda é muito complicada. O endividamento da população é alto, a maioria vive de medidas compensatórias ou no subemprego, e tentar governar administrando apenas os mesmos parâmetros neoliberais moderados é caminhar para um beco sem saída.”

Conforme avaliou o presidente do PCO, a insistência em perseguir metas de equilíbrio fiscal ditadas pelo mercado financeiro impede que o Estado brasileiro formule um projeto soberano de desenvolvimento econômico. Em sua visão, ao sinalizar compromisso rígido com as exigências da banca privada, o governo assume o ônus de preparar um ajuste fiscal que inevitavelmente recairá sobre o bolso e a renda da classe trabalhadora.

O esgotamento do ciclo compensatório

Pimenta sustentou que o recado das urnas expôs fraturas profundas na sociedade brasileira, simbolizadas pelo resultado apertado na disputa e pela votação maciça obtida pela oposição no primeiro turno. Na avaliação do dirigente, o fenômeno decorre da frustração de parcelas expressivas da população que não enxergam horizonte de transformação econômica concreta no cotidiano:

“O ciclo de políticas compensatórias se esgotou. É como uma vaca que não dá mais leite. A burguesia e os governos neoliberais não têm saída para o país, mas o PT também precisa compreender que apenas distribuir migalhas orçamentárias sem tocar na estrutura do capital não resolve o problema. A grande mensagem da eleição é essa: há um sentimento de mudança difuso, e se o governo não apresentar respostas audaciosas, o descontentamento popular vai transbordar.”

O líder socialista apontou que experiências internacionais mostram que governos progressistas precisam ter a ousadia de confrontar o rentismo — citando posições adotadas por lideranças da esquerda europeia, como o debate sobre a suspensão do pagamento de parcelas ilegítimas da dívida pública — em vez de recuar imediatamente diante das pressões do mercado de capitais.

Riscos de desestabilização nas ruas

Outro ponto central levantado na análise diz respeito ao perigo de desmobilização social frente à reorganização da extrema direita. Pimenta alertou que substituir a organização popular concreta por estratégias virtuais ou acordos de cúpula com partidos tradicionais do centro e da direita deixa o governo desprotegido em caso de deterioração da economia:

  • Pressão popular: O dirigente alertou para a possibilidade de o governo vir a ser alvo de protestos de rua caso a carestia e o custo de vida aumentem, repetindo dinâmicas de instabilidade vistas em momentos anteriores da história recente;
  • Governo de crise: A composição ampla com setores da burguesia e a falta de reformas estruturais — como a reestatização integral de setores estratégicos de energia e petróleo — tendem a manter a administração sob cerco permanente;
  • Pauta de reivindicações: Para o PCO, a tarefa da esquerda não reside em chancelar ajustes ou ilusões institucionais, mas em construir um movimento combativo em torno de eixos claros: auditoria e não pagamento da dívida pública aos banqueiros, soberania energética e garantia de plenos direitos à classe trabalhadora.

Pimenta concluiu frisando que, embora a vitória de Lula tenha sido o cenário mais favorável para a preservação das liberdades democráticas e da atuação política das organizações populares, o novo mandato não desfrutará de períodos de trégua: “Para que esse governo dê certo sem romper com as amarras do sistema, seria necessária uma reviravolta na economia mundial que não está no horizonte. O que temos pela frente é um governo de disputa intensa, onde a realidade material vai exigir posições firmes”.

FOTO: Felipe L. Gonçalves/Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/condicoes-economicas-para-o-quarto-mandato-de-lula-sao-mais-dificeis-adverte-rui-costa-pimenta/