O erro histórico da esquerda ao abandonar o caráter antissistêmico no momento mais crítico da disputa por poder no Brasil.
Enquanto o governo federal e a Polícia Federal avançam sobre as engrenagens financeiras do crime organizado, parte da esquerda escolhe proteger instituições patrimonialistas e relativizar práticas antiéticas no topo do Estado. O resultado é a perda da autoridade moral, o abandono da crítica ao sistema e o desperdício de uma janela histórica para começar a desmontar, de fato, a máquina que sempre operou contra o povo.
O erro de leitura que custa caro à esquerda
Parte do campo progressista ainda trata o caso Banco Master como um ruído jurídico, um excesso midiático ou uma disputa lateral entre instituições. Essa leitura é equivocada e perigosa. O que está em curso não é um episódio isolado, nem uma crise circunstancial de imagem. É uma disputa estrutural pelo controle das engrenagens do Estado brasileiro em um momento pré-eleitoral marcado por guerra híbrida, pressão externa e reorganização da extrema-direita.
Desde 2025, com a Operação Carbono Oculto, ficou evidente que o governo Lula abandonou a lógica defensiva e decidiu atacar o coração material do crime organizado: o sistema financeiro, a lavagem de dinheiro, os operadores sofisticados e os circuitos que conectam capital ilegal, política e captura institucional. Essa inflexão não nasce de voluntarismo, mas de realismo político. Lula sabe que, em 2026, o crime organizado não será apenas um problema de segurança pública, mas um instrumento ativo de desestabilização democrática, amplificado por plataformas digitais, financiamento opaco e operações psicológicas.
O erro de setores da esquerda está em não compreender essa mudança de patamar. Ao tratar o caso Master como algo que “não é prioridade” ou como um tema perigoso demais para ser enfrentado agora, esses setores confundem prudência com omissão estratégica. Em política real, omissões não são neutras. Elas produzem efeitos concretos na correlação de forças e, quase sempre, favorecem o adversário.
Mais grave ainda: ao evitar o debate ético-institucional em nome de uma suposta defesa da estabilidade, parte da esquerda abdica de seu papel histórico de crítica ao sistema e entrega à extrema-direita um terreno decisivo. Não se trata de escolher entre apoiar o governo ou questionar instituições. Trata-se de entender que, neste momento, apoiar o governo Lula passa justamente por compreender o alcance da ofensiva contra o sistema financeiro do crime e por não reduzir essa disputa a uma narrativa confortável, jurídica ou moralmente asséptica.
A história mostra que momentos de inflexão não se anunciam com clareza. Eles se revelam quando estruturas antes intocáveis começam a reagir. O caso Master é um desses sinais. Ignorá-lo ou minimizá-lo não é cautela. É perder o timing da história — e pagar, mais uma vez, o preço da omissão.
Da Operação Carbono Oculto ao coração financeiro do crime
A Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2025, marcou uma ruptura silenciosa, porém decisiva, na política de segurança do Estado brasileiro. Pela primeira vez, o foco deixou de ser o varejo do crime para atingir seu atacado: lavagem de dinheiro, operadores financeiros, cadeias de combustíveis, empresas de fachada e circuitos que conectam capital ilegal, política e captura institucional. Não foi espetáculo. Foi método.
Essa inflexão revela cálculo estratégico. O governo Lula compreendeu que, às vésperas de 2026, o crime organizado não atuaria apenas como economia ilícita, mas como infraestrutura de guerra híbrida. Dinheiro sujo financia campanhas opacas, compra proteção institucional, irriga desinformação e amplia a capacidade de coerção política. Cortar esse fluxo é cortar poder.
O caso Banco Master emerge exatamente nesse contexto. Ele não inaugura a ofensiva; é um efeito dela. Quando o Estado sobe a pirâmide e encosta no sistema financeiro, as reações deixam de ser policiais e passam a ser institucionais, midiáticas e políticas. É aí que se mede a profundidade da mudança — e é aí que parte da esquerda erra ao tratar o episódio como secundário.
Crime organizado como instrumento de guerra híbrida
Tratar o crime organizado como um problema restrito à segurança pública é um erro analítico grave. No Brasil contemporâneo, ele opera como infraestrutura política. Controla territórios, financia circuitos eleitorais opacos, infiltra-se em setores regulados da economia e alimenta campanhas de desinformação. Em contextos de instabilidade, esse aparato é facilmente convertido em instrumento de guerra híbrida.
É exatamente esse o cálculo que explica a antecipação do governo Lula. A experiência latino-americana e global demonstra que, em anos eleitorais críticos, crime, extrema-direita e interesses externos tendem a convergir. O dinheiro ilegal funciona como lubrificante do caos: financia atos, sustenta redes digitais, compra silêncio institucional e amplia a capacidade de pressão sobre o Estado. Não é improviso, é padrão.
Ao atacar o sistema financeiro do crime, o Estado não apenas reprime ilegalidades. Ele interfere na capacidade operacional da desestabilização. É por isso que a reação não vem apenas de facções ou operadores marginais, mas de setores que dependem da opacidade financeira para manter influência política. Ignorar essa dimensão é subestimar o conflito real que se aproxima de 2026.
Patrimonialismo institucional: o verdadeiro protagonista
O fio condutor dessa crise não são indivíduos nem episódios isolados. É o patrimonialismo institucional como forma histórica de funcionamento do Estado brasileiro. Uma lógica que confunde interesses públicos e privados, opera por autoproteção corporativa e reage sempre que circuitos de poder são expostos ao escrutínio real.
Quando o ataque do Estado se aproxima do topo da pirâmide financeira, a resposta deixa de ser técnica e passa a ser institucional. Surgem defesas cruzadas, apelos à “estabilidade”, acusações de excesso e tentativas de enquadrar qualquer crítica como ameaça à democracia. Esse reflexo não é novo. Ele é estrutural. O sistema se fecha quando sente risco.
O caso Banco Master deve ser lido exatamente assim: como um ponto de atrito entre uma ofensiva estatal inédita contra o dinheiro do crime e uma cultura institucional moldada para evitar responsabilização no alto escalão. Reduzir isso a disputa jurídica ou a conflito de narrativas é errar o diagnóstico. O protagonista é a engrenagem patrimonialista — e é ela que está sendo, ainda que parcialmente, tensionada.
O falso dilema: “não é hora de mexer no STF”
O argumento de que “não é hora de mexer no STF” soa prudente, mas é estrategicamente equivocado. Ele parte de um falso dilema: como se exigir padrões éticos e mecanismos de controle institucional fosse incompatível com a defesa da democracia ou com o enfrentamento ao golpismo. Não é. Blindagem corporativa não é estabilidade democrática.
A crítica ética não fragiliza o combate aos inquéritos do golpe nem às redes de desinformação. Ao contrário, fortalece a legitimidade do Estado ao mostrar que ninguém está acima de regras mínimas de conduta. Tratar qualquer cobrança como ameaça institucional confunde defesa da democracia com autopreservação de poder.
Ao adiar esse debate, setores da esquerda abrem mão de um terreno decisivo. Em política real, o vazio não fica vazio. Ele é ocupado. E, neste momento, está sendo ocupado por quem instrumentaliza a pauta ética para fins opostos aos interesses democráticos.
A extrema-direita ocupa o vazio moral
Ao recuar da crítica ética institucional, parte da esquerda abriu um flanco previsível. O MBL e setores da extrema-direita avançaram para ocupar esse espaço, encenando uma defesa seletiva da moralidade pública. Não se trata de conversão ética, mas de operações psicológicas típicas da guerra híbrida: produzir desconforto, apontar incoerências e disputar a hegemonia moral às vésperas de 2026.
O método é conhecido. Isola-se um caso, amplifica-se a indignação, acusa-se o campo progressista de omissão e tenta-se colar a ideia de conivência com o crime. O objetivo não é depurar instituições, mas deslegitimar o adversário e capturar a narrativa ética. Funciona porque encontra um silêncio estratégico onde deveria haver iniciativa.
Essa captura só é possível porque a esquerda hesitou. Ao evitar a pauta ética para “não tensionar”, entregou à extrema-direita uma arma que sempre foi sua. Em ano eleitoral, essa ambiguidade cobra preço alto — e o pagamento costuma vir nas urnas.
A ética é uma arma histórica da esquerda
A ética e a moral na política nunca foram patrimônio da direita. São bandeiras históricas da esquerda, ligadas à ideia de igualdade perante a lei, controle do poder e compromisso com o interesse público. Abandoná-las por medo de tensionar instituições é um erro estratégico que cobra seu preço rapidamente.
Exigir um código de conduta ético para toda a máquina do Estado — incluindo o STF — não enfraquece o governo Lula. Faz o oposto. Reforça sua posição ao alinhar o combate ao crime organizado com coerência moral e legitimidade política. Quem enfrenta o dinheiro do crime precisa, necessariamente, enfrentar práticas patrimonialistas que o protegem.
Recuperar o discurso ético sem concessões não é moralismo. É realismo político. É fechar o flanco por onde a extrema-direita tenta entrar travestida de paladina da moral. É recolocar a esquerda no lugar que lhe é próprio: crítica ao sistema, defesa do interesse público e coragem para enfrentar privilégios — onde quer que estejam.
A janela histórica que não pode ser desperdiçada
O Brasil vive uma janela rara de correlação de forças. O Estado voltou a agir sobre o núcleo material do poder criminoso ao subir a pirâmide financeira, enquanto a extrema-direita ainda depende de narrativas para compensar a perda de capacidade institucional. Janelas assim não duram. Ou são ocupadas com iniciativa política, ou se fecham sob reação coordenada.
Se a esquerda hesitar agora, o custo será alto. A captura da pauta ética pela extrema-direita, a erosão da legitimidade do campo progressista e a consolidação de uma psyop moral em ano eleitoral criam um ambiente propício à desestabilização. Não é hipótese abstrata; é padrão histórico.
A alternativa é agir: combinar combate financeiro ao crime, cobrança ética institucional e iniciativa comunicacional. Não como defensiva, mas como ofensiva política. Quem perde o timing perde a disputa. E 2026 não perdoará omissões.
Conclusão: ajudar Lula é enfrentar o sistema
Apoiar o presidente Lula, neste momento histórico, não é proteger instituições patrimonialistas nem silenciar diante de práticas antiéticas. É enfrentar o sistema onde ele é mais resistente: no dinheiro, na captura institucional e na blindagem corporativa. Foi isso que o governo começou a fazer ao acionar o Ministério da Justiça e a Polícia Federal contra o coração financeiro do crime organizado.
A esquerda precisa compreender o tamanho da tarefa. Defender a democracia exige mais do que reagir ao golpismo. Exige iniciativa ética, cobrança pública e coragem para disputar a hegemonia moral. A pauta da ética não pode ser terceirizada nem abandonada por cálculo tático. Quando isso acontece, a extrema-direita ocupa o espaço e transforma cinismo em arma política.
O preço da omissão já é conhecido. Ele se traduz em perda de legitimidade, confusão estratégica e fragilização eleitoral. A alternativa está dada: ir às ruas, às redes e ao debate público com clareza, exigir padrões éticos para toda a máquina do Estado e sustentar, sem concessões, o espírito antissistêmico que sempre definiu a esquerda. Em 2026, não vencerá quem silenciar melhor, mas quem compreender o conflito real e agir no tempo certo.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/crime-e-castigo-o-preco-da-omissao#google_vignette