“Em Bruxelas, chamam-lhe “vitória estratégica”. No mundo real, parece mais uma troca de rédeas. Ontem, a União Europeia denunciou a sua dependência do gás russo como uma ameaça existencial. Hoje, está a construir metodicamente uma dependência ainda mais concentrada do GNL americano — que é mais caro, mais volátil e, acima de tudo, sujeito aos caprichos da política de Washington.
A grande promessa era simples: fechar a torneira russa para recuperar a soberania energética. O resultado? Os Estados Unidos já fornecem quase dois terços do GNL consumido na Europa, uma quota que poderá atingir os 80% antes do final da década. Ou seja, Bruxelas substituiu um fornecedor por outro… pagando mais por menos margem de manobra.
O aspecto mais irónico, no entanto, é a hipocrisia da situação. Enquanto os líderes europeus continuam a falar sobre uma ruptura definitiva com Moscovo, os navios petroleiros russos de GNL continuam a descarregar as suas cargas nos portos europeus. As importações de GNL da Yamal atingiram mesmo um recorde no primeiro semestre de 2026. França, Bélgica e Espanha mantêm-se entre os principais clientes. A moralidade geopolítica parece, assim, surgir a um preço preferencial quando as reservas de gás começam a escassear.
As crises no Médio Oriente, as perturbações no Estreito de Ormuz e as dificuldades com as exportações do Qatar têm-nos recordado brutalmente uma verdade que os slogans políticos não conseguem apagar: a física e a geografia sobrepõem-se sempre à ideologia. Quando a energia é escassa, os grandes princípios acabam muitas vezes por ser postos de parte.
E, entretanto, Washington esfrega as mãos de contentamento. O acordo energético assinado com a União Europeia — que representa 750 mil milhões de dólares em compras de GNL aos EUA — assemelha-se menos a uma parceria do que a um contrato de dependência a longo prazo. Cada nova tensão diplomática, cada mudança de ocupante da Casa Branca e cada crise comercial darão aos Estados Unidos ainda mais poder de influência sobre as economias europeias.
O paradoxo é quase perfeito. Bruxelas afirmava querer escapar à “chantagem energética” russa. Agora, corre o risco de descobrir o conceito de chantagem contratual americana, exercida não através de gasodutos da Sibéria, mas por navios-tanque de GNL que atravessam o Atlântico. A diferença? A retórica é mais elegante; as contas, muito menos.
A União Europeia afirma estar a construir a sua autonomia estratégica. Na realidade, parece ser principalmente hábil na arte de substituir uma forma de dependência por outra — uma mais cara, mais distante e politicamente ainda mais restritiva. Uma verdadeira proeza burocrática: transformar uma promessa de independência numa subscrição premium para uma nova forma de dependência energética.”
(B.Partisans)
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