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Da república tecnológica à monarquia digital: quem governará o século XXI?

Data centers colocam o Brasil diante do desafio de transformar inteligência artificial, energia limpa e dados em soberania nacional sem repetir a lógica colonial.

O debate sobre data centers no Brasil poderia gerar menos energia e mais luz sobre o futuro da nação. Discute-se investimento, impactos no crescimento econômico e emprego sem discutir o poder, pois é exatamente sobre ele que trata a verdadeira revolução da inteligência artificial.

Sobre isso, aliás, cabe compreender melhor a disputa que está a definir os rumos do segundo quarto do século XXI. A proposta do estadunidense Alexander C. Karp, cofundador e diretor-executivo da Palantir Technologies, uma das maiores empresas de software e inteligência artificial do mundo, tornou explícito, na publicação A República Tecnológica, que a liderança dos Estados Unidos depende fundamentalmente da reconstrução da aliança do Estado com as grandes empresas de tecnologia, as universidades e o complexo militar.

Isso porque a tecnologia deixa de ser apenas um mercado para assumir a condição de instrumento fundante da soberania nacional, da segurança e da supremacia geopolítica. A mensagem é cristalina, uma vez que o domínio da inteligência artificial controla a economia mundial. Em síntese, o domínio da computação permite vencer a guerra, assim como a dominância dos dados condiciona e conduz o rumo da política mundial.

Por outro lado, há a formulação do também estadunidense Curtis Yarvin, teórico político e cientista da computação, defensor da substituição da democracia liberal por formas de governo autoritárias, como uma monarquia corporativa digital liderada por um empresário proveniente do conselho de CEOs, no chamado Iluminismo das Trevas. Ao partir da crítica à democracia liberal por considerá-la incapaz de responder aos desafios contemporâneos, propõe sistemas altamente centralizados, administrados como grandes corporações, nos quais eficiência e controle substituem representação e participação popular.

Embora sejam projetos distintos, caminham na mesma direção, propondo o deslocamento do centro do poder e, por isso, influenciando a Nova Direita. Não mais o Parlamento, os partidos e a própria esfera pública. O novo centro passa a ser a infraestrutura tecnológica.

Com isso, a suposta aliança atual entre a academia, a grande mídia e o sistema burocrático do Estado estaria superada, pois seria disfuncional ao operar de forma quase religiosa na promoção da agenda progressista para manter o controle ideológico da velha sociedade industrial. Em oposição, a aristocracia da computação constituiria os novos soberanos que, sem usar coroas e comandar castelos, controlariam plataformas e comandariam data centers.

Mesmo que não arrecadem tributos diretamente, capturam excedente por meio de dados produzidos diariamente por parcela crescente da população mundial. Nunca, na história do capitalismo, tanto poder esteve concentrado em tão poucas empresas.

Essas corporações conhecem hábitos de consumo, deslocamentos, preferências políticas, relações sociais, dados financeiros e até aspectos da saúde de bilhões de indivíduos. Ao mesmo tempo, desenvolvem os modelos de inteligência artificial que organizarão a produção, os serviços públicos, a educação, a medicina e a defesa.

Nestes termos, a infraestrutura digital converte-se na nova infraestrutura do poder. É nesse contexto que o Brasil precisa discutir a expansão dos data centers. Não porque sejam indesejáveis. Ao contrário. Eles serão indispensáveis para qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

O problema começa quando se aceita desempenhar apenas o papel de fornecedor de território, água, energia renovável e incentivos fiscais, enquanto a inteligência, os algoritmos, a propriedade intelectual e os lucros permanecem concentrados no exterior. Poderia ser uma mera atualização digital da velha economia colonial, dependente da exportação de ouro, minérios e outras commodities.

Agora, há possibilidade do comércio externo da capacidade energética, dos recursos hídricos e dos dados. A emergência climática torna essa discussão ainda mais decisiva. Energia limpa e água doce deixaram de ser apenas recursos da natureza, transformando-se em ativos estratégicos da geopolítica da inteligência artificial.

Cada megawatt destinado a alimentar grandes modelos computacionais é uma decisão política sobre o futuro do desenvolvimento. Cada litro de água utilizado para resfriar servidores representa uma escolha sobre prioridades nacionais.

Por isso, a resposta brasileira não poderia ser nem a rejeição da tecnologia nem sua aceitação passiva. O país precisa de um projeto nacional democrático de soberania digital, comprometido com a ciência, a sustentabilidade, a proteção climática, a inovação aberta e o interesse público.

Isso exige uma política nacional para data centers baseada em contrapartidas obrigatórias, como o processamento de dados estratégicos em território nacional, o desenvolvimento da inteligência artificial em português, o fortalecimento de empresas brasileiras, a formação de pesquisadores, o investimento em universidades, o compartilhamento tecnológico, a eficiência energética, o uso responsável da água e a proteção dos dados públicos.

O segundo quarto do século XXI tende a ser decidido menos pela quantidade de dados produzidos do que pela capacidade de transformá-los em conhecimento, riqueza e autonomia. Não se trata, portanto, de quantos data centers o Brasil conseguirá atrair, mas se poderá romper com a lógica colonial na economia da inteligência artificial, aceitando o roteiro do território a abastecer a República Tecnológica ou a Monarquia Digital global com energia, água e dados.

Como se sabe, a prevalência da maior emergência climática da história da civilização se propaga com secas prolongadas, enchentes extremas, ondas de calor e a perda acelerada da biodiversidade, que já deixaram de ser projeções científicas para se tornarem parte da vida cotidiana. Nesse cenário, a emergência climática passou a exigir uma nova racionalidade econômica, uma vez que energia limpa, água doce, florestas e minerais estratégicos tornaram-se ativos geopolíticos tão importantes quanto o petróleo foi no século XX.

É exatamente por isso que a corrida global pelos data centers precisa ser analisada com muito mais profundidade. A chamada “nuvem” não é imaterial. Ela ocupa extensas áreas territoriais, consome enormes quantidades de eletricidade e utiliza milhões de litros de água para resfriamento, exigindo redes de transmissão, fibras ópticas, sistemas de segurança e infraestrutura pública financiada, muitas vezes, pelo próprio Estado.

Cada novo data center representa uma decisão sobre o destino de recursos naturais cada vez mais escassos. Nos Estados Unidos e na Europa, comunidades têm questionado a expansão acelerada dessas instalações. O motivo não é rejeição à tecnologia, mas a constatação de que a inteligência artificial possui uma pegada ambiental crescente. A disputa pelo uso da água, o aumento da demanda elétrica e os impactos territoriais passaram a integrar o debate público.

Enquanto isso, muitos países em desenvolvimento enxergam apenas a promessa dos investimentos, correndo o risco de repetir um padrão conhecido de exportação de recursos estratégicos sem controlar a riqueza produzida a partir deles. O desafio atual é impedir que a transição digital reproduza a lógica da economia extrativista.

O Brasil reúne condições únicas para liderar uma economia digital de baixo carbono, pois possui uma das maiores matrizes elétricas renováveis do planeta, abriga a maior floresta tropical do mundo, fundamental para a estabilidade climática global, detém reservas estratégicas de minerais essenciais à transição energética e conta com universidades, centros de pesquisa e instituições públicas capazes de produzir conhecimento de excelência.

Essas vantagens não podem ser desperdiçadas. A política para data centers deve estar vinculada a um projeto nacional que combine soberania digital, política industrial, proteção ambiental e justiça climática.

Isso significa estabelecer critérios rigorosos de eficiência energética, uso responsável da água, aproveitamento do calor gerado, localização compatível com a disponibilidade hídrica e elétrica, utilização prioritária de fontes renováveis e exigências de investimentos em pesquisa científica e inteligência artificial desenvolvida no Brasil. Essa é a escolha histórica do Brasil, a questão estratégica mais importante do tempo presente e do futuro.

Data centers, emergência climática e soberania: o Brasil não

O entusiasmo em torno dos data centers tomou conta do debate econômico brasileiro. Estudos apontam bilhões de reais em investimentos, crescimento do PIB, geração de empregos e a possibilidade de o Brasil tornar-se um dos grandes polos da economia digital.

Esses benefícios são reais.

Mas são insuficientes para responder à pergunta decisiva: qual projeto de país queremos construir na era da inteligência artificial?

Vivemos a maior emergência climática da história da civilização. Secas prolongadas, enchentes extremas, ondas de calor e a perda acelerada da biodiversidade já deixaram de ser projeções científicas para se tornarem parte da vida cotidiana. Nesse cenário, energia limpa, água doce, florestas e minerais estratégicos tornaram-se ativos geopolíticos tão importantes quanto o petróleo foi no século XX.

No século XIX, exportávamos matérias-primas.

No século XX, energia barata e trabalho.

No século XXI, poderemos exportar água, eletricidade renovável, minerais críticos e dados.

A questão central não é ser contra os data centers.

Não faz sentido utilizar a energia renovável brasileira apenas para alimentar algoritmos desenvolvidos em outros países, enquanto continuamos dependentes de tecnologias, plataformas e modelos de inteligência artificial importados.

Também não faz sentido comprometer recursos hídricos estratégicos sem planejamento territorial, sem avaliação ambiental rigorosa e sem retorno tecnológico proporcional ao custo suportado pela sociedade.

Cada megawatt consumido por um data center deixa de estar disponível para outras atividades produtivas.

Cada litro de água destinado ao resfriamento dessas instalações precisa ser comparado às necessidades da agricultura, das cidades e da preservação dos ecossistemas.

Cada incentivo fiscal concedido deve ser acompanhado de contrapartidas concretas em inovação, pesquisa, formação de profissionais e fortalecimento da indústria nacional.

Mais do que atrair servidores, precisamos construir capacidades nacionais.

Mais do que hospedar algoritmos estrangeiros, precisamos desenvolver os nossos.

Mais do que exportar recursos naturais, devemos exportar conhecimento, tecnologia e inovação.

A inteligência artificial será um dos pilares da economia do século XXI.

Mas não haverá desenvolvimento verdadeiro se a infraestrutura digital ampliar a dependência tecnológica, aprofundar desigualdades e pressionar os recursos ambientais de um país que já ocupa posição estratégica no enfrentamento das mudanças climáticas.

A pergunta, portanto, não é quantos data centers o Brasil conseguirá atrair.

A pergunta é muito mais ambiciosa.

Seremos apenas o território onde a inteligência artificial mundial consome nossa energia, nossa água e nossos minerais?

Ou seremos uma nação capaz de transformar essa riqueza em soberania tecnológica, liderança científica e prosperidade sustentável?

O futuro climático e o futuro digital não podem caminhar em direções opostas.

Se o século XX foi marcado pela disputa em torno do petróleo, o século XXI será definido pela capacidade de harmonizar inteligência artificial, soberania nacional e equilíbrio ecológico.

FOTO: Divulgação/Meta

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/da-republica-tecnologica-a-monarquia-digital-quem-governara-o-seculo-xxi/