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Declaração de guerra contra o Brasil e a farsa do narcoterrorismo

A militarização do combate às drogas e a disputa por recursos estratégicos estão sendo usados para pressionar a soberania brasileira às vésperas de 2026.

Um alerta estratégico: documentos oficiais, declarações de autoridades americanas e movimentos geopolíticos recentes revelam a construção de um novo cerco ao Brasil. Este artigo expõe as engrenagens dessa ofensiva e aponta caminhos para que o país defenda sua democracia, seus recursos e seu futuro.

O DIA EM QUE WASHINGTON DECLAROU GUERRA AO BRASIL

Guerras contemporâneas raramente começam com tanques atravessando fronteiras. Elas começam com documentos, categorias jurídicas, alianças militares, reclassificações semânticas e operações de linguagem. No caso do Brasil, o ponto de inflexão já está dado. Ele aparece quando Washington deixa de tratar a América Latina como espaço diplomático e volta a defini-la, em documento oficial, como zona de influência estratégica, de contenção de rivais e de controle de ativos críticos. A National Security Strategy dos Estados Unidos, publicada em novembro de 2025, afirma com todas as letras que o hemisfério deve cooperar com Washington contra “narco-terrorists”, permanecer livre de “hostile foreign incursion or ownership of key assets”, sustentar cadeias críticas de suprimento e garantir acesso americano a posições estratégicas. E conclui com a frase que muda tudo: os Estados Unidos irão “assert and enforce a ‘Trump Corollary’ to the Monroe Doctrine”. Não se trata de retórica lateral nem de interpretação ideológica. Trata-se de formulação oficial de Estado.

Quando essa formulação é lida em conjunto com os acontecimentos de março de 2026, o sentido estratégico fica ainda mais nítido. Em 5 de março, no quartel-general do U.S. Southern Command, Stephen Miller declarou a líderes militares latino-americanos que cartéis “can only be defeated with military power” e que deveriam ser tratados “just as brutally” quanto Al Qaeda e Estado Islâmico. Na mesma conferência, Pete Hegseth defendeu maior cooperação operacional e associou o novo momento hemisférico à retomada da Doutrina Monroe, em tom de celebração. Reuters registrou ainda que Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações, sinal claro de desconforto com a nova escalada. O que estava em curso ali não era apenas uma conferência sobre crime organizado. Era a apresentação pública de uma nova gramática de poder para o continente.

Dois dias depois, a Casa Branca transformou essa gramática em diretriz explícita. Na proclamação presidencial de 7 de março de 2026, Trump afirmou que seu governo já havia designado cartéis e gangues transnacionais como organizações terroristas estrangeiras, celebrou a criação de uma Americas Counter Cartel Coalition com 17 países e declarou que os Estados Unidos e seus aliados deveriam coordenar-se para privar essas organizações de território, financiamento e recursos. Mais grave: anunciou que Washington irá treinar e mobilizar forças militares de nações parceiras para desmontar esses grupos e manter afastadas “malign foreign influences from outside the Western Hemisphere”. A frase é decisiva porque une, numa mesma chave, militarização, coalizão hemisférica e contenção de influências externas. Em linguagem direta, a Casa Branca está dizendo que segurança, geopolítica e soberania latino-americana passarão a ser filtradas pelos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

É nesse ponto que o Brasil entra no centro do alvo. Porque um país continental, integrante dos BRICS, detentor de reservas estratégicas, protagonista em minerais críticos, agricultura, energia, infraestrutura de dados e política externa autônoma não cabe com conforto dentro de uma doutrina hemisférica que exige cooperação contra “narco-terrorists”, bloqueio de influências rivais e proteção de ativos estratégicos sob liderança americana. O problema, portanto, não é apenas Lula, embora Lula seja o principal obstáculo político imediato. O problema é o que o Brasil representa quando tenta decidir por conta própria com quem negocia, como regula plataformas, como explora seus recursos e como se posiciona diante da disputa entre Washington e Pequim. A chamada “guerra ao narcoterrorismo” funciona, nesse quadro, menos como política de segurança do que como linguagem de enquadramento para disciplinar governos recalcitrantes e reordenar o continente segundo prioridades imperiais.

Por isso, o que está em jogo não pode ser lido como mera sucessão de episódios desconexos. A doutrina vem primeiro. Depois, a militarização do discurso. Em seguida, a reclassificação do crime como terrorismo. Por fim, a coalizão hemisférica, a pressão por alinhamento e a contenção de potências rivais. Esse encadeamento não prova, por si só, um plano operacional fechado contra o Brasil em todos os seus detalhes. Mas prova algo suficientemente grave: Washington já formulou, oficializou e começou a operacionalizar uma arquitetura de poder incompatível com qualquer projeto brasileiro de soberania robusta. É essa arquitetura que precisa ser nomeada com frieza. Porque, em política internacional, há momentos em que a guerra começa muito antes do primeiro tiro. E, para o Brasil, esse momento já chegou.

A NOVA DOUTRINA MONROE DO SÉCULO XXI

A nova Doutrina Monroe não precisa mais ser inferida nas entrelinhas. Ela foi assumida de forma explícita pelo próprio Estado norte-americano. Na National Security Strategy de novembro de 2025, a Casa Branca afirma que quer um hemisfério que coopere com Washington contra “narco-terrorists”, que permaneça livre de “hostile foreign incursion or ownership of key assets”, que sustente cadeias críticas de suprimento e que preserve o acesso dos Estados Unidos a locais estratégicos. Em seguida, o texto abandona qualquer eufemismo e anuncia que o governo irá “assert and enforce a ‘Trump Corollary’ to the Monroe Doctrine”. A mensagem é cristalina: a América Latina volta a ser tratada oficialmente como espaço de disciplina geopolítica, contenção de rivais e proteção de interesses materiais dos Estados Unidos.

O que muda em relação ao passado é o método. A Doutrina Monroe do século XIX falava a linguagem crua da tutela hemisférica. A versão do século XXI fala a linguagem da segurança integrada, das cadeias de suprimento, dos minerais críticos, da tecnologia e do combate ao terrorismo. O conteúdo estratégico, porém, permanece reconhecível. O documento americano liga diretamente o hemisfério à necessidade de impedir “ownership of key assets” por atores hostis e, na mesma seção, afirma que os padrões e tecnologias dos EUA, especialmente em IA, biotecnologia e computação quântica, devem orientar o mundo. Não se trata apenas de impedir bases militares rivais. Trata-se de disputar portos, minas, infraestrutura digital, satélites, energia, normas técnicas e fluxo de dados. É a Monroe Doctrine atualizada para a era das plataformas, dos semicondutores e das terras raras.

Essa reatualização deixa o Brasil em posição especialmente sensível. Porque o país reúne, ao mesmo tempo, massa territorial, recursos estratégicos, protagonismo agrícola e energético, peso diplomático, inserção nos BRICS e margem real para negociação com múltiplos polos de poder. Um Brasil plenamente subordinado interessa a Washington como fornecedor confiável de commodities, parceiro de contenção e mercado regulado segundo padrões americanos. Um Brasil soberano, que queira processar seus minerais, decidir com quem compartilhar infraestrutura crítica, diversificar alianças e regular big techs, passa a ser visto como variável incômoda dentro dessa arquitetura. É por isso que a nova Doutrina Monroe não pode ser lida como abstração ideológica. Ela é, na prática, um programa de reorganização do hemisfério sob liderança dos Estados Unidos.

Os acontecimentos de março de 2026 mostram que essa doutrina já começou a descer do plano estratégico para o plano operacional. Em 5 de março, no SOUTHCOM, Stephen Miller declarou que cartéis “can only be defeated with military power” e que deveriam ser tratados “just as brutally” quanto Al Qaeda e Estado Islâmico. Reuters observou que Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações, o que indica resistência de atores centrais da região à nova escalada. Dois dias depois, Trump assinou a proclamação que formaliza a Americas Counter Cartel Coalition, com representantes de 17 países, defendendo o uso de “hard power”, a coordenação para privar cartéis de território e financiamento, o treinamento e mobilização de forças militares parceiras e a necessidade de manter afastadas “malign foreign influences from outside the Western Hemisphere”. A doutrina, portanto, já ganhou sua primeira tradução prática: militarização hemisférica, coalizão securitária e contenção de influências externas sob comando americano.

É precisamente nesse encaixe entre doutrina e operacionalização que o Brasil passa a correr risco maior. Porque a linguagem do combate ao cartel, quando fundida à linguagem da contenção de influência externa, permite que qualquer país que preserve autonomia diplomática ou tecnológica seja gradualmente enquadrado como problema de segurança hemisférica. A nova Doutrina Monroe não precisa invocar ocupação formal nem intervenção clássica para produzir efeito. Basta criar o consenso de que certos governos são frágeis demais, permissivos demais ou autônomos demais para gerir seu próprio território, suas cadeias estratégicas e suas alianças internacionais. É assim que começa a tutela no século XXI: não mais com frotas na costa, mas com coalizões, classificações, pressão financeira, integração militar e captura narrativa. E é exatamente por isso que o debate sobre “narcoterrorismo” não é periférico. Ele é uma das chaves de entrada dessa nova arquitetura de subordinação.

A FARSA DO “NARCOTERRORISMO”

Nenhuma arquitetura de poder se impõe apenas com documentos estratégicos. Para que uma doutrina geopolítica se torne operacional, é necessário produzir uma linguagem capaz de justificar sua aplicação. No caso da nova agenda hemisférica dos Estados Unidos, essa linguagem atende por um nome específico: narcoterrorismo. A palavra parece descrever uma realidade objetiva, mas na prática funciona como instrumento político. Ela mistura duas categorias distintas — crime organizado e terrorismo — para produzir um novo enquadramento de segurança que amplia drasticamente o espaço de intervenção internacional.

No direito brasileiro, essa categoria simplesmente não existe. A Lei nº 13.260, de 2016, que define os crimes de terrorismo no país, estabelece critérios claros: atos motivados por extremismo político, religioso, racial ou ideológico destinados a provocar terror social ou pressionar autoridades. Facções criminosas como PCC e Comando Vermelho não se enquadram nesse conceito. Elas são organizações criminosas, com fins econômicos e territoriais, e são tratadas juridicamente dentro da legislação de combate ao crime organizado. Mesmo assim, a pressão para deslocar essa classificação começou a aparecer de forma explícita na relação entre Washington e Brasília.

Em 2025, autoridades dos Estados Unidos solicitaram formalmente que o Brasil considerasse classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O pedido foi recusado pelo governo brasileiro. Quem explicou a decisão foi Mário Sarrubbo, secretário nacional de Segurança Pública, ao afirmar que, pela legislação brasileira, essas facções não se enquadram na tipologia de terrorismo. A recusa não foi apenas jurídica; foi também política. Aceitar a classificação significaria importar automaticamente o enquadramento estratégico dos Estados Unidos para dentro do sistema legal brasileiro.

A insistência nessa reclassificação revela o objetivo real da narrativa do narcoterrorismo. Quando uma organização é enquadrada como terrorista, o repertório de ação internacional muda completamente. Abrem-se portas para sanções financeiras, cooperação militar ampliada, extraterritorialidade jurídica e operações de inteligência internacional. O combate ao crime deixa de ser apenas questão de segurança pública e passa a ser tratado como problema de segurança global. Foi exatamente esse mecanismo que sustentou o Plano Colômbia nos anos 1990, quando a luta contra cartéis e guerrilhas serviu de base para a presença militar e institucional dos Estados Unidos no país.

Ao transformar o tráfico em terrorismo, cria-se também um novo enquadramento narrativo para o Brasil. O país deixa de ser visto como Estado enfrentando organizações criminosas e passa a ser apresentado como território vulnerável a ameaças transnacionais de caráter terrorista. Essa mudança tem consequências concretas. Afeta avaliações de risco em mercados financeiros, influencia relatórios de segurança internacional e legitima pressões diplomáticas por maior alinhamento com estratégias hemisféricas de combate ao terrorismo.

A narrativa do narcoterrorismo, portanto, cumpre uma função estratégica muito clara. Ela fornece a ponte semântica entre a política de segurança interna e a arquitetura geopolítica da nova Doutrina Monroe. É por meio dessa linguagem que crime organizado pode ser transformado em ameaça hemisférica e que problemas domésticos podem ser reclassificados como riscos globais. Não se trata apenas de um debate conceitual. Trata-se de uma operação política de grande escala: redefinir a natureza da violência criminal para abrir caminho a novos mecanismos de controle regional.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser meramente jurídica e se torna estratégica. Porque, quando um país aceita que sua própria realidade seja interpretada a partir da gramática de segurança de outra potência, ele começa a perder algo fundamental: o direito de definir por si mesmo o que é ameaça, o que é ordem e quais instrumentos devem ser usados para proteger sua soberania.

A MILITARIZAÇÃO DA AMÉRICA LATINA

Se a narrativa do narcoterrorismo é a chave semântica da nova arquitetura hemisférica, a militarização da agenda latino-americana é sua tradução operacional. Nos últimos anos, Washington vem gradualmente deslocando o debate sobre crime organizado do campo policial para o campo da segurança estratégica. O que antes era tratado como problema de polícia, inteligência e cooperação judicial passa a ser enquadrado como ameaça de segurança continental. Essa mudança de linguagem tem efeitos diretos sobre as políticas que passam a ser consideradas legítimas.

Esse deslocamento ficou evidente em março de 2026, durante uma conferência regional realizada no quartel-general do U.S. Southern Command (SOUTHCOM), em Miami. Ali, diante de representantes militares e autoridades de segurança de vários países latino-americanos, Stephen Miller, assessor central da Casa Branca, afirmou que cartéis “can only be defeated with military power” e que deveriam ser enfrentados com a mesma brutalidade empregada contra organizações como Al Qaeda ou Estado Islâmico. A comparação não foi casual. Ela estabelece um paralelo deliberado entre organizações criminosas e grupos terroristas globais, deslocando o combate ao tráfico para o terreno da guerra. Esse enquadramento permite justificar o uso de instrumentos militares, inteligência estratégica e cooperação operacional ampliada entre forças armadas do hemisfério.

A mesma conferência contou com declarações do secretário de Defesa Pete Hegseth, que defendeu maior coordenação militar regional contra cartéis e ressaltou a necessidade de impedir que “potências externas hostis” ampliem sua influência na América Latina. A frase sintetiza a nova lógica estratégica: segurança pública e disputa geopolítica passam a ser tratadas como dimensões de um mesmo problema. Combater cartéis torna-se, simultaneamente, forma de combater rivais globais e de consolidar a liderança dos Estados Unidos na região.

A ausência de delegações oficiais de Brasil, México e Colômbia nesse encontro foi interpretada por analistas como sinal de cautela diante dessa nova abordagem. Esses três países concentram grande parte do peso econômico, demográfico e político da América Latina, e todos têm razões próprias para resistir a uma agenda que militariza o combate ao crime e pode abrir espaço para maior presença institucional norte-americana em seus sistemas de segurança.

O passo seguinte veio dois dias depois. Em 7 de março de 2026, o presidente Donald Trump anunciou a criação de uma Americas Counter Cartel Coalition, reunindo representantes de dezessete países do continente. Na proclamação presidencial que oficializa a iniciativa, a Casa Branca afirma que o objetivo é coordenar esforços para privar organizações criminosas de território, financiamento e infraestrutura, além de ampliar o treinamento e a mobilização de forças militares parceiras. No mesmo documento, Trump destaca que os Estados Unidos trabalharão para impedir “malign foreign influences from outside the Western Hemisphere”. A frase conecta diretamente a luta contra cartéis à disputa geopolítica com potências externas, especialmente a China.

Esse conjunto de movimentos revela uma mudança profunda no paradigma de segurança regional. A chamada “guerra contra o narcotráfico”, que já marcou décadas de política externa norte-americana na América Latina, está sendo gradualmente reformulada como guerra contra redes híbridas de narcoterrorismo. A diferença não é apenas terminológica. Ela amplia o escopo de atuação das forças armadas, reforça a integração entre segurança interna e política externa e cria um ambiente em que cooperação militar e alinhamento geopolítico se tornam praticamente inseparáveis.

Para o Brasil, essa transformação traz desafios delicados. Um país com território continental, fronteiras extensas e presença relevante no sistema internacional não pode ignorar o impacto de uma estratégia que militariza o debate sobre segurança regional e redefine o crime organizado como ameaça de escala hemisférica. Ao mesmo tempo, qualquer adesão automática a essa lógica implica aceitar uma moldura estratégica construída fora do país, com prioridades que nem sempre coincidem com os interesses brasileiros.

A militarização da agenda latino-americana, portanto, não é apenas um capítulo da política de segurança dos Estados Unidos. Ela é parte de um processo mais amplo de reorganização do poder no hemisfério. E, dentro desse processo, o Brasil se encontra numa posição particularmente sensível: grande demais para ser ignorado, estratégico demais para ser deixado fora do tabuleiro.

O BRASIL NO CENTRO DA DISPUTA POR RECURSOS E TECNOLOGIA

Se a narrativa do narcoterrorismo e a militarização da segurança hemisférica formam o invólucro político da nova arquitetura regional, o seu núcleo material é muito mais concreto: recursos estratégicos, tecnologia e cadeias críticas de suprimento. É nesse terreno que o Brasil se torna peça central do tabuleiro geopolítico contemporâneo. O país reúne algumas das maiores reservas minerais do planeta, uma das maiores potências agrícolas do mundo, um sistema energético diversificado e crescente protagonismo na infraestrutura de dados e telecomunicações. Em um cenário de rivalidade entre grandes potências, esse conjunto de ativos transforma o território brasileiro em espaço de disputa.

A própria National Security Strategy dos Estados Unidos deixa claro que cadeias críticas de suprimento, minerais estratégicos e infraestrutura tecnológica são hoje componentes centrais da segurança nacional americana. O documento afirma que Washington precisa garantir acesso seguro a materiais essenciais e proteger cadeias industriais fundamentais para setores como defesa, tecnologia avançada e energia. Quando essa lógica é aplicada ao hemisfério ocidental, a conclusão é direta: a América Latina passa a ser tratada como fonte estratégica de recursos e espaço prioritário de reorganização das cadeias produtivas. Nesse contexto, o Brasil aparece como um dos principais pontos de interesse.

Um exemplo concreto dessa disputa pode ser visto no setor de terras raras, minerais fundamentais para a indústria contemporânea. Esses elementos são essenciais para a produção de turbinas eólicas, baterias, eletrônicos, equipamentos militares e semicondutores. Durante décadas, a cadeia global desses minerais ficou concentrada na China, o que levou Estados Unidos e aliados a buscar novas fontes de fornecimento. Em fevereiro de 2026, a U.S. International Development Finance Corporation (DFC) anunciou um pacote de financiamento de aproximadamente 565 milhões de dólares para a mineradora brasileira Serra Verde, localizada em Goiás. O objetivo declarado é ampliar a produção de terras raras fora da cadeia dominada por Pequim e garantir abastecimento para indústrias estratégicas ocidentais.

Operações como essa não são necessariamente hostis em si mesmas. Investimentos estrangeiros fazem parte da dinâmica econômica internacional. O que importa, porém, é o contexto em que ocorrem. Quando são analisadas à luz da nova Doutrina Monroe, da disputa entre Washington e Pequim e da crescente securitização de cadeias produtivas, essas iniciativas revelam uma dimensão geopolítica clara. O acesso a minerais estratégicos passa a ser tratado como questão de segurança nacional, e os países que os possuem tornam-se elementos-chave na competição entre potências.

Essa lógica não se limita aos minerais. Ela também envolve infraestrutura digital, dados e tecnologia avançada. Nos últimos anos, o Brasil se tornou campo de disputa entre diferentes ecossistemas tecnológicos globais. Empresas americanas dominam grande parte das plataformas digitais e da infraestrutura de nuvem no país, enquanto a China expandiu sua presença em áreas como telecomunicações, satélites e cooperação científica. Esse cenário transforma o território brasileiro em espaço de competição silenciosa entre modelos tecnológicos distintos.

Foi nesse contexto que surgiu, nos Estados Unidos, um relatório de um comitê da Câmara sugerindo que instalações espaciais ou projetos científicos ligados à China em território brasileiro poderiam ter aplicações estratégicas ou de vigilância. As instituições brasileiras citadas reagiram rapidamente. A Força Aérea Brasileira, a Universidade Federal da Paraíba e a startup Alya Space afirmaram que os projetos mencionados são iniciativas de cooperação científica e não possuem caráter militar. Ainda assim, o episódio mostra como a cooperação tecnológica entre Brasil e China passou a ser interpretada em Washington através da lente da segurança estratégica.

A disputa por recursos e tecnologia coloca o Brasil em uma posição paradoxal. De um lado, o país é cortejado por investimentos e parcerias que podem ampliar sua capacidade industrial e tecnológica. De outro, cada movimento nesse terreno é observado com atenção por potências que disputam influência global. O resultado é um ambiente em que decisões sobre mineração, infraestrutura digital, energia ou cooperação científica deixam de ser apenas políticas econômicas e passam a ser interpretadas como escolhas geopolíticas.

É nesse ponto que a narrativa do narcoterrorismo e a militarização da agenda hemisférica encontram seu fundamento material. Porque, no fim das contas, nenhuma doutrina de segurança se sustenta apenas em conceitos abstratos. Por trás das palavras sempre existem interesses concretos: territórios, cadeias produtivas, tecnologias e recursos estratégicos. E, no cenário global atual, poucos países concentram tantos desses elementos quanto o Brasil.

A GUERRA INFORMACIONAL E A FABRICAÇÃO DO CAOS

A guerra híbrida raramente se apresenta como guerra. Ela se infiltra no cotidiano através de narrativas, escândalos, crises amplificadas e disputas simbólicas capazes de alterar a percepção coletiva sobre estabilidade política e capacidade de governo. Em ambientes de alta polarização, a disputa pela narrativa torna-se tão decisiva quanto qualquer movimento diplomático ou militar. É nesse terreno que a guerra informacional passa a operar como instrumento de pressão e desestabilização.

Nos últimos anos, o Brasil se tornou um dos principais laboratórios globais desse tipo de conflito. Desde a eleição de 2018, passando pela crise institucional que culminou nos eventos de 8 de janeiro de 2023, até as disputas atuais sobre regulação das plataformas digitais, o país vive sob intensa circulação de campanhas de desinformação, operações de influência digital e narrativas de colapso institucional. O funcionamento dessas operações segue um padrão relativamente conhecido: amplificação de escândalos, distorção de fatos, uso de redes automatizadas e produção massiva de conteúdo emocional destinado a produzir medo, indignação ou descrédito nas instituições.

Um exemplo recente dessa dinâmica apareceu no caso do Banco Master, envolvendo o empresário Daniel Vorcaro. Em março de 2026, Vorcaro foi preso novamente em uma investigação que apura corrupção, lavagem de dinheiro e influência indevida sobre agentes públicos e reguladores. A investigação também atingiu ex-integrantes do Banco Central e levantou suspeitas sobre redes de pressão política e financeira ligadas ao sistema bancário. Como ocorre frequentemente em episódios dessa natureza, o caso rapidamente se transformou em matéria-prima para disputas narrativas mais amplas.

Nas redes sociais e em determinados circuitos de comunicação política, começaram a circular conteúdos que tentavam associar o escândalo a figuras próximas ao governo federal. Um dos exemplos mais visíveis foi a circulação de um áudio supostamente envolvendo Janja da Silva, primeira-dama do Brasil. Investigações jornalísticas e verificações independentes indicaram que o material era falso e provavelmente gerado por ferramentas de inteligência artificial. O episódio mostra como crises financeiras ou institucionais podem ser rapidamente incorporadas a campanhas de desinformação destinadas a ampliar desgaste político e produzir percepção de desordem generalizada.

Esse mecanismo não se limita a episódios isolados. Ele opera como parte de um ecossistema informacional mais amplo, que envolve redes digitais, influenciadores políticos, portais ideológicos e até mesmo veículos internacionais interessados em enquadrar determinados países como exemplos de instabilidade. Quando crises locais são amplificadas nesse circuito, elas passam a alimentar relatórios de risco, análises de mercado e debates diplomáticos que reforçam a imagem de fragilidade institucional.

É nesse ponto que a guerra informacional se conecta à disputa geopolítica. Um país constantemente retratado como instável, polarizado ou incapaz de controlar suas próprias crises torna-se mais vulnerável a pressões externas. Narrativas de caos político ou colapso institucional não apenas afetam o debate doméstico, mas também influenciam decisões de investimento, classificações de risco e avaliações estratégicas de outros Estados.

No caso brasileiro, esse ambiente informacional se intensifica justamente no período que antecede as eleições de 2026. O país entra no ciclo eleitoral carregando disputas narrativas sobre segurança pública, corrupção, regulação tecnológica, política externa e soberania econômica. Cada um desses temas pode ser convertido em combustível para campanhas de desinformação capazes de polarizar ainda mais o debate público.

A guerra informacional, portanto, não é apenas um fenômeno digital ou comunicacional. Ela se tornou parte integrante das disputas contemporâneas por poder e influência. E, em um país com o peso estratégico do Brasil, controlar a narrativa sobre estabilidade política, capacidade de governo e legitimidade institucional pode ser tão decisivo quanto qualquer movimento no campo diplomático ou econômico.

A CONVERGÊNCIA ENTRE PRESSÃO EXTERNA E OPERAÇÕES INTERNAS

Nenhuma estratégia de influência internacional se sustenta apenas a partir do exterior. Para que pressões geopolíticas produzam efeitos duradouros, elas precisam encontrar ecos internos, atores políticos, mediáticos ou institucionais capazes de amplificar determinadas narrativas e transformá-las em força política doméstica. Essa convergência entre pressões externas e disputas internas é um dos mecanismos mais característicos da guerra híbrida contemporânea.

No caso brasileiro, essa convergência tornou-se visível sobretudo a partir da reorganização do campo da extrema direita após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022. Desde então, parte desse campo político passou a investir fortemente na internacionalização do conflito político brasileiro, especialmente nos Estados Unidos. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2025, quando Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, realizou uma série de encontros em Washington com parlamentares e figuras ligadas ao governo americano para denunciar supostas violações de liberdade de expressão no Brasil e pedir sanções contra autoridades brasileiras.

A movimentação foi tratada pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma tentativa de mobilizar o poder de um Estado estrangeiro contra instituições brasileiras. Em entrevista concedida em agosto de 2025, Lula afirmou que Bolsonaro e seu filho teriam incentivado autoridades americanas a adotar medidas contra o Brasil, classificando a atitude como comportamento incompatível com o interesse nacional. O episódio evidenciou um fenômeno raro, mas não inédito na história latino-americana: a tentativa de internacionalizar disputas políticas domésticas buscando apoio de potências externas.

Ao mesmo tempo, a administração norte-americana começou a sinalizar maior interesse direto no cenário político brasileiro. Em fevereiro de 2026, o governo Trump nomeou Darren Beattie para uma posição estratégica relacionada à política para o Brasil. Beattie é conhecido por sua proximidade com setores da extrema direita americana e por críticas frequentes ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal. Sua nomeação foi interpretada por analistas como indicação de que Washington pretende acompanhar mais de perto a evolução política brasileira no período que antecede as eleições de 2026.

Essa combinação de fatores cria um ambiente particularmente delicado. De um lado, o Brasil enfrenta pressões externas ligadas à disputa geopolítica por recursos, tecnologia e influência regional. De outro, atores internos com forte presença política e mediática demonstram disposição para utilizar essas pressões como instrumento de disputa doméstica. Quando essas duas dimensões se encontram, o resultado pode ser um processo de retroalimentação de conflitos, em que narrativas produzidas internamente reforçam percepções externas e, por sua vez, retornam ao debate nacional com peso ampliado.

A história política latino-americana oferece vários precedentes desse tipo de dinâmica. Em diferentes momentos do século XX, crises domésticas foram amplificadas por intervenções diplomáticas, pressões econômicas ou campanhas de comunicação que redefiniram o equilíbrio interno de poder. No século XXI, essas operações raramente assumem a forma de golpes militares clássicos. Elas operam através de pressão institucional, disputas narrativas, sanções econômicas e articulação transnacional de atores políticos.

No Brasil de hoje, o encontro entre pressão externa e polarização interna cria um ambiente de alta volatilidade política. Narrativas sobre segurança pública, corrupção, liberdade de expressão ou estabilidade institucional podem rapidamente ultrapassar o debate doméstico e ganhar dimensão internacional. E, uma vez internacionalizadas, essas narrativas passam a influenciar decisões diplomáticas, econômicas e estratégicas que retornam ao cenário brasileiro com impacto ampliado.

Essa convergência não significa que todos os conflitos internos sejam produto de influência externa, nem que toda crítica internacional ao Brasil seja necessariamente parte de uma estratégia de desestabilização. Mas significa que, em um ambiente de disputa geopolítica intensa, fraturas internas podem se tornar pontos de entrada para pressões externas. É nesse cruzamento entre política doméstica e competição internacional que o futuro institucional do país começa a ser disputado.

CENÁRIOS DE DESESTABILIZAÇÃO PARA 2026

À medida que o Brasil se aproxima do ciclo eleitoral de 2026, as tensões geopolíticas, informacionais e políticas descritas nos tópicos anteriores começam a convergir em um conjunto de cenários plausíveis de instabilidade. Não se trata de prever eventos específicos com precisão absoluta, mas de identificar mecanismos de pressão que historicamente aparecem em contextos de disputa estratégica entre potências e em momentos de polarização interna. Quando esses mecanismos se sobrepõem, o risco de desestabilização institucional aumenta significativamente.

O primeiro desses cenários envolve a intensificação da guerra informacional. O período eleitoral tende a ampliar a circulação de campanhas de desinformação, vazamentos seletivos e narrativas destinadas a minar a credibilidade de instituições públicas. Em um ambiente digital altamente polarizado, conteúdos manipulados ou fabricados podem ganhar alcance massivo em poucas horas, influenciando o debate público e pressionando autoridades a reagirem sob forte carga emocional. Esse tipo de dinâmica já foi observado em eleições recentes em diversos países e encontra terreno fértil em sociedades com alta fragmentação política.

Um segundo cenário diz respeito à pressão econômica indireta. Países envolvidos em disputas geopolíticas frequentemente utilizam instrumentos financeiros, comerciais ou regulatórios para sinalizar descontentamento com determinadas políticas de governos estrangeiros. Tarifas, restrições tecnológicas, investigações comerciais ou mudanças em classificações de risco podem alterar o ambiente econômico de um país em momentos politicamente sensíveis. Mesmo quando essas medidas não têm como objetivo explícito interferir em eleições, seus efeitos sobre inflação, câmbio ou investimentos podem influenciar percepções públicas sobre estabilidade econômica.

Um terceiro cenário envolve a internacionalização de conflitos institucionais. Em contextos de polarização intensa, disputas internas podem rapidamente ganhar dimensão internacional por meio de denúncias em organismos multilaterais, audiências em parlamentos estrangeiros ou campanhas transnacionais em defesa de determinados grupos políticos. Quando isso ocorre, o debate doméstico passa a ser acompanhado e, em alguns casos, influenciado por atores externos que possuem interesses próprios no desfecho político do país.

Há ainda um quarto cenário possível: o aumento da securitização do debate político, especialmente em temas ligados à segurança pública e ao crime organizado. Narrativas que enquadram problemas domésticos como ameaças de escala internacional podem gerar pressão por respostas cada vez mais duras, alterando o equilíbrio entre segurança e direitos civis. Em períodos eleitorais, esse tipo de discurso costuma ganhar força, pois oferece respostas rápidas para crises complexas e mobiliza emoções intensas no eleitorado.

Esses cenários não são mutuamente exclusivos. Na prática, eles podem ocorrer simultaneamente e se reforçar mutuamente. Uma crise de segurança amplificada por campanhas digitais pode alimentar disputas institucionais; essas disputas podem ser internacionalizadas; e, ao mesmo tempo, pressões econômicas externas podem agravar o ambiente político interno. O resultado é um ciclo de instabilidade que altera a percepção de governabilidade e amplia a sensação de crise permanente.

O desafio para o Brasil é reconhecer que essas dinâmicas fazem parte de um ambiente internacional em que disputas por poder, recursos e influência raramente se manifestam de forma direta. No século XXI, a competição entre Estados frequentemente se expressa através de pressões graduais, narrativas estratégicas e disputas institucionais, que podem se intensificar justamente em momentos de maior sensibilidade política. Entender esses mecanismos não significa assumir que todos os conflitos internos sejam manipulados externamente, mas reconhecer que, em um sistema internacional competitivo, processos domésticos podem rapidamente se tornar peças de um tabuleiro mais amplo.

COMO O BRASIL PODE RESPONDER

Se o diagnóstico apresentado até aqui estiver correto, a principal conclusão estratégica é simples e ao mesmo tempo exigente: o Brasil precisa tratar a disputa atual como uma questão de soberania de Estado, e não apenas como um episódio de política doméstica. Quando pressões geopolíticas, narrativas de segurança hemisférica, disputas tecnológicas e conflitos políticos internos começam a se entrelaçar, a resposta não pode vir apenas de um ministério, de um governo ou de uma eleição. Ela precisa envolver o conjunto das instituições nacionais.

O primeiro passo é preservar autonomia narrativa e jurídica. O Brasil precisa insistir na definição soberana de suas próprias categorias legais e de segurança. Isso significa manter a distinção entre crime organizado e terrorismo prevista na legislação nacional e resistir a enquadramentos externos que tentem redefinir a realidade brasileira segundo prioridades estratégicas de outras potências. O controle da linguagem jurídica é mais do que um detalhe semântico: ele determina quais instrumentos podem ou não ser utilizados no campo internacional.

O segundo passo envolve soberania tecnológica e informacional. A crescente dependência de plataformas digitais, sistemas de vigilância e infraestrutura de dados controlados por empresas estrangeiras cria vulnerabilidades reais para qualquer país. O Brasil precisa ampliar sua capacidade de processamento de dados, fortalecer centros nacionais de pesquisa em inteligência artificial e segurança cibernética e desenvolver políticas públicas que garantam maior controle sobre suas infraestruturas digitais críticas. Sem autonomia tecnológica mínima, a capacidade de defesa informacional permanece limitada.

Um terceiro eixo estratégico diz respeito à diversificação diplomática e econômica. Em um cenário de competição entre grandes potências, países de médio e grande porte tendem a ganhar margem de manobra quando mantêm relações amplas com diferentes polos de poder. Isso exige diplomacia ativa, capacidade de negociação e participação em fóruns multilaterais que ampliem o espaço de decisão nacional. Para o Brasil, iniciativas como os BRICS, o G20 e a integração regional latino-americana podem funcionar como instrumentos de equilíbrio diante de pressões externas.

O quarto passo envolve fortalecimento institucional interno. Polarização política extrema fragiliza a capacidade de resposta de qualquer país diante de desafios internacionais complexos. Instituições sólidas, sistema judicial independente, imprensa plural e forças armadas comprometidas com a ordem constitucional formam a base de qualquer estratégia de defesa democrática. Sem esse alicerce, pressões externas encontram terreno fértil para explorar divisões internas.

Por fim, há um elemento que muitas vezes recebe menos atenção, mas que se revela cada vez mais central no século XXI: a capacidade de comunicação estratégica do Estado. Em um ambiente de guerra informacional permanente, governos precisam ser capazes de explicar suas decisões, responder rapidamente a campanhas de desinformação e construir narrativas que transmitam estabilidade institucional e previsibilidade política. A disputa por percepção internacional tornou-se parte integrante da política externa e da segurança nacional.

Nenhuma dessas medidas oferece solução imediata ou garantia absoluta contra pressões externas. O que elas fazem é ampliar o espaço de decisão soberana e reduzir vulnerabilidades estruturais. Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, países que preservam capacidade institucional, autonomia tecnológica e margem diplomática tendem a atravessar períodos de turbulência com maior estabilidade.

O Brasil possui recursos naturais, dimensão territorial, população e peso econômico suficientes para ocupar posição relevante no sistema internacional. A questão central não é se o país será alvo de pressões externas — isso é inevitável para qualquer potência regional —, mas como responder a essas pressões sem abrir mão de sua autonomia política e estratégica. É essa escolha que definirá o lugar do Brasil no cenário global nas próximas décadas.

CONCLUSÃO — O BRASIL JÁ ESTÁ EM UMA GUERRA HÍBRIDA

A sequência de fatos analisada ao longo deste artigo revela um quadro que não pode mais ser tratado como coincidência ou ruído isolado. A reativação explícita da Doutrina Monroe na estratégia de segurança dos Estados Unidos, a militarização crescente da agenda latino-americana, a tentativa de reclassificar o crime organizado como “narcoterrorismo”, a disputa por minerais críticos e infraestrutura tecnológica e a intensificação das operações informacionais compõem um mesmo cenário estratégico. Separadamente, cada um desses elementos poderia ser interpretado como parte normal da política internacional contemporânea. Juntos, eles desenham algo mais profundo: um ambiente de pressão multidimensional sobre a soberania brasileira.

Guerras no século XXI raramente assumem a forma clássica de confrontos militares entre Estados. Elas se manifestam através de disputas narrativas, pressões econômicas, competição tecnológica, operações de influência e conflitos institucionais que atravessam fronteiras. Esse tipo de confronto não tem declaração formal, não possui linha de frente visível e frequentemente se desenvolve dentro do próprio espaço político das nações envolvidas. É por isso que o conceito de guerra híbrida passou a ocupar lugar central no debate estratégico internacional.

O Brasil encontra-se hoje dentro desse tipo de ambiente. A combinação de riqueza territorial, posição geopolítica relevante, protagonismo agrícola e energético, inserção em fóruns multilaterais e relações com diferentes polos de poder transforma o país em ator estratégico num mundo cada vez mais competitivo. Essa condição, ao mesmo tempo que amplia oportunidades, também atrai pressões de diferentes naturezas. Países com peso regional dificilmente escapam desse tipo de disputa.

Reconhecer esse contexto não significa adotar visão conspiratória da política internacional nem reduzir todos os conflitos domésticos a interferência externa. Significa apenas aceitar um fato básico das relações entre Estados: interesses estratégicos geram disputas, e essas disputas frequentemente se manifestam através de instrumentos indiretos. A história da América Latina oferece inúmeros exemplos de como pressões externas e divisões internas podem se combinar de maneiras inesperadas.

O desafio brasileiro consiste em navegar esse cenário preservando suas instituições democráticas e sua capacidade de decisão soberana. Isso exige lucidez estratégica, maturidade política e compromisso institucional com o interesse nacional. Países que entram em disputas geopolíticas profundas sem coesão interna acabam vulneráveis a pressões externas. Por outro lado, Estados que mantêm estabilidade institucional e clareza estratégica tendem a transformar momentos de tensão em oportunidades de afirmação internacional.

No fim das contas, o ponto central não é determinar se o Brasil enfrenta ou não uma “declaração de guerra” formal de qualquer potência estrangeira. A questão decisiva é compreender que o país está inserido em um ambiente internacional de competição intensa, no qual narrativas, recursos estratégicos, tecnologia e política interna se entrelaçam de maneira cada vez mais complexa. Entender essa realidade é o primeiro passo para enfrentá-la.

A soberania de um país não se perde apenas quando tropas estrangeiras cruzam suas fronteiras. Ela pode se enfraquecer gradualmente quando a capacidade de definir suas próprias prioridades estratégicas se torna limitada por pressões externas e conflitos internos mal administrados. Preservar essa capacidade é tarefa permanente de qualquer Estado democrático.

O Brasil possui história, recursos e instituições suficientes para atravessar esse momento com autonomia. Mas, para isso, precisa reconhecer a natureza do desafio que enfrenta. Em um mundo de guerras híbridas, a primeira defesa de um país continua sendo a consciência estratégica de sua própria sociedade.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

FOTO: The White House

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/declaracao-de-guerra-contra-o-brasil-e-a-farsa-do-narcoterrorismo