Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

Dívida, IA e conflitos globais podem tornar EUA “irreconhecíveis” em cinco anos, prevê bilionário

Investidor Ray Dalio afirma que crise fiscal, avanço da IA e tensões geopolíticas podem abalar a economia e o poder dos EUA.

247 – O bilionário Ray Dalio, fundador da gestora Bridgewater Associates, voltou a fazer um duro alerta sobre a economia dos Estados Unidos e afirmou que o país caminha para um período de turbulência profunda que poderá transformá-lo em uma nação “quase irreconhecível” nos próximos cinco anos. As declarações foram feitas em entrevista ao colunista Ross Douthat, do jornal The New York Times, repercutidas em reportagem da revista Fortune e publicada no Brasil pelo InfoMoney.

Há anos Dalio sustenta que o crescimento acelerado da dívida pública norte-americana representa um risco estrutural para a maior economia do mundo. Agora, porém, ele afirma que a questão fiscal é apenas parte de um processo muito mais amplo, marcado por tensões políticas internas, disputas geopolíticas, impactos climáticos e o avanço da inteligência artificial.

Segundo o investidor, os Estados Unidos estão entrando em uma fase de “grande turbulência”, marcada por mudanças rápidas e profundas. Dalio descreveu o momento como uma espécie de “salto no tempo”, expressão usada para transmitir a velocidade e a dimensão das transformações que, na visão dele, já começaram a remodelar a sociedade americana.

Dívida pública preocupa investidores

O alerta de Dalio se concentra, em primeiro lugar, no crescimento contínuo da dívida dos Estados Unidos. Atualmente, o governo norte-americano gasta cerca de US$ 7 trilhões por ano, mas arrecada aproximadamente US$ 5 trilhões, ampliando o déficit fiscal e pressionando o pagamento de juros da dívida.

Para explicar o cenário, o bilionário comparou a situação financeira do país ao “acúmulo de placas” em uma artéria. Segundo ele, o “ataque cardíaco” econômico ainda não aconteceu, mas os sinais indicam que a crise poderá se tornar inevitável caso os gastos não sejam controlados.

Dados citados pela reportagem mostram que os Estados Unidos pagaram cerca de US$ 970 bilhões em juros da dívida em 2025, enquanto projeções do Congressional Budget Office (CBO) apontam que esse valor pode superar US$ 1 trilhão em 2026, o equivalente a aproximadamente US$ 20 bilhões por semana.

Risco de estagflação e perda do poder do dólar

Na avaliação de Dalio, o desfecho mais provável é uma espiral de estagflação semelhante à vivida pelos Estados Unidos na década de 1970, combinando inflação elevada, baixo crescimento econômico e perda do poder de compra da moeda.

Ao comentar os impactos da dívida sobre as futuras gerações, o investidor afirmou: “Meus netos e bisnetos que ainda nem nasceram vão acabar pagando essa dívida em dólares desvalorizados”.

Para Dalio, a emissão de dinheiro pelo Federal Reserve para sustentar o pagamento das obrigações públicas pode acelerar a desvalorização do dólar e comprometer a confiança global na moeda norte-americana, considerada atualmente a principal reserva financeira do planeta.

Cinco forças pressionam os Estados Unidos

O fundador da Bridgewater afirmou que a dívida pública é apenas uma das cinco forças que estão convergindo simultaneamente e aumentando o risco de instabilidade nos Estados Unidos.

Entre os fatores apontados por ele estão o agravamento da polarização política, a desigualdade social crescente e o que definiu como “diferenças irreconciliáveis” entre esquerda e direita. Segundo Dalio, esse ambiente pode evoluir para uma desordem mais ampla antes da próxima eleição presidencial.

O investidor também citou a rivalidade internacional envolvendo Estados Unidos e China, além das tensões no Oriente Médio, especialmente em torno do Irã e do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo.

Inteligência artificial e mudanças estruturais

Dalio também destacou os efeitos da inteligência artificial sobre a economia global. Na visão dele, a tecnologia pode impulsionar ganhos de produtividade capazes de compensar parte do avanço da dívida pública, mas também representa um fator potencial de desestabilização social.

Em artigo publicado anteriormente na revista Fortune, o investidor afirmou que “os dias em que as pessoas tomavam decisões apenas na própria cabeça estão chegando ao fim”, em referência ao impacto crescente da IA sobre empresas, governos e estruturas de poder.

Segundo Dalio, a automação em larga escala poderá deslocar milhões de trabalhadores e alterar profundamente o equilíbrio econômico entre as potências globais, ampliando ainda mais as tensões internacionais.

Comparação com a crise de Suez

Um dos pontos mais sensíveis do alerta do bilionário envolve a possibilidade de perda de influência global dos Estados Unidos. Para explicar o risco, Dalio fez uma comparação com a Crise de Suez, em 1956, considerada um marco do declínio do poder britânico no pós-guerra.

Na avaliação dele, um eventual fracasso dos Estados Unidos em demonstrar força geopolítica poderá fazer o mundo questionar a posição privilegiada do dólar como principal moeda de reserva internacional.

Reportagens publicadas por veículos como PoliticoThe Telegraph e Middle East Eye também discutiram recentemente a possibilidade de que um confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã possa representar um momento equivalente ao vivido pelo Reino Unido durante a crise de Suez.

Ceticismo sobre a classe política

Dalio demonstrou forte pessimismo em relação à capacidade da classe política norte-americana de enfrentar os problemas estruturais do país. Segundo ele, o próprio sistema democrático cria incentivos para evitar medidas impopulares, como aumento de impostos, cortes de benefícios e redução de gastos públicos.

Na avaliação do investidor, políticos que tomam decisões duras acabam perdendo apoio eleitoral, o que dificulta qualquer tentativa de ajuste fiscal profundo.

Como alternativa, Dalio defende o surgimento de “um líder forte do centro”, capaz de construir consenso político em um país cada vez mais dividido e implementar reformas estruturais nas áreas fiscal e educacional.

Estratégia para investidores

Diante do cenário de incerteza, Dalio recomenda que investidores ampliem a diversificação das carteiras e busquem proteção contra a perda de valor do dólar.

O bilionário defende uma redução da dependência da estratégia tradicional de investimentos baseada em 60% de ações e 40% de renda fixa. Em vez disso, sugere que parte do patrimônio seja direcionada para ativos considerados reservas de valor, como ouro e criptomoedas.

Segundo ele, até 15% das carteiras poderiam ser destinados a esses ativos como forma de proteção em um cenário de inflação persistente, desvalorização monetária e turbulência econômica global.

Foto: Brasil 247

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/divida-ia-e-conflitos-globais-podem-tornar-eua-irreconheciveis-em-cinco-anos-preve-bilionario