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Dívida pública das grandes economias é bomba-relógio de que ninguém fala

Em Davos, Ken Griffin, fundador e CEO da Citadel, levou o debate para um ponto pouco frequente no Fórum Econômico Mundial: a deterioração fiscal das grandes economias e o retorno da pressão dos mercados de dívida sobre governos. Assunto árido, mas que representa um risco sistêmico, o mais urgente de todos.

Os dados mostram uma deterioração fiscal disseminada nas principais economias mundiais. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), o déficit fiscal médio das economias avançadas passou de cerca de 3,3% do PIB em 2019 para mais de 5% em 2024. Nos Estados Unidos, o déficit do governo federal ficou acima de 6% do PIB em 2024 e deve permanecer próximo disso em 2025, mesmo com crescimento econômico e desemprego baixo.

A dívida federal americana ultrapassou US$ 38 trilhões, o equivalente a aproximadamente 125% do PIB. O gasto anual com juros já supera US$ 1 trilhão, mais do que todo o orçamento do Departamento de Defesa.

Na Europa, o quadro é semelhante. A França encerrou 2024 com déficit de 5,8% do PIB, acima do limite de 3% previsto nas regras fiscais da União Europeia. A dívida pública francesa alcançou 112% do PIB. O custo anual do serviço da dívida francesa ultrapassou 50 bilhões de euros, valor superior ao orçamento de defesa do país. O spread (diferença) entre os títulos franceses e alemães de dez anos subiu para patamares acima de 80 pontos-base, refletindo maior percepção de risco.

O Reino Unido, após o episódio do mini-orçamento de 2022, reduziu o ritmo de expansão fiscal, mas ainda opera com déficit próximo de 4,5% do PIB. A dívida bruta britânica permanece na casa dos 93% a 95% do PIB. Os juros dos títulos britânicos de dez anos se estabilizaram em patamar estruturalmente mais alto do que na década anterior, em torno de 4% a 4,5%.

O Japão, também citado por Griffin em Davos, apresenta a maior dívida pública do mundo desenvolvido, acima de 230% do PIB. Em 2025, pela primeira vez em décadas, o Banco do Japão passou a tolerar maior volatilidade nos juros de longo prazo. Os títulos japoneses de 40 anos atingiram juros próximos de 4%, movimento inédito desde sua emissão, elevando o custo do serviço da dívida em um país onde o gasto com juros já consome parcela significativa do orçamento.

O FMI projeta que a dívida pública global ultrapasse US$ 100 trilhões em 2025, nível superior ao observado no auge da pandemia. Ao mesmo tempo, a despesa global com juros subiu de aproximadamente 1,8% do PIB em 2019 para 2,2% em 2024, com projeção de se aproximar de 2,8% até o fim da década, à medida que títulos antigos de juros baixos são substituídos por emissões mais caras.

Nos emergentes, o Brasil aparece como um dos casos mais graves. O país encerrou 2024 com déficit nominal próximo de 8% do PIB, um dos maiores do mundo, segundo estimativas de bancos e organismos multilaterais. Em 2025, as projeções apontam déficit entre 8% e 8,6% do PIB, superado apenas por poucos países em situação fiscal extrema.

A dívida bruta brasileira saiu de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 79% no fim de 2025, segundo o Banco Central. Para efeito de comparação, a média da dívida dos emergentes passa dos 60% do PIB, e a de países com rating (classificação de risco) semelhante ao do Brasil fica abaixo de 55%.

O custo do financiamento reflete essa deterioração. Os juros reais de longo prazo no Brasil operam entre 6% e 7% ao ano, enquanto os títulos americanos indexados à inflação rendem cerca de 2%. O prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros permanece elevado, mesmo em períodos de fluxo externo favorável.

O histórico recente do país reforça o alerta. Entre 2012 e 2015, sob Dilma Rousseff, o resultado primário do governo saiu de superávit de 2,4% do PIB para déficit de 1,9%. O déficit nominal ultrapassou 10% do PIB. A dívida bruta saltou de 51,5% para 66,5% do PIB. No mesmo período, a inflação atingiu 10,7%, o desemprego subiu de 6,5% para mais de 11% e o PIB acumulou retração próxima de 7% em dois anos. O país perdeu o grau de investimento.

Quem acha que o petismo aprendeu a lição, assim como seus porta-vozes na academia e na imprensa, não está acompanhando este governo com a devida atenção.

Griffin afirmou também que os “bond vigilantes”, ou patrulheiros de títulos, estão de volta. São investidores que passam a vender dívida soberana quando perdem confiança na trajetória fiscal de um país. Segundo ele, esse mecanismo ficou inativo por anos em função de juros baixos em diversos mercados, mas voltou a se manifestar à medida que o custo do dinheiro subiu.

Para o CEO da Citadel, o principal risco atual para a estabilidade econômica global não está no setor privado, como nas crises de 1929 e 2008, mas na expansão contínua do gasto público nas principais economias do planeta.

Griffin afirmou que, caso o mercado passe a exigir prêmios maiores para financiar a dívida americana, os efeitos se espalharão rapidamente para o custo do crédito, hipotecas, financiamento público e privado. Disse também que, quanto mais a correção fiscal das principais economias for adiada, maior tende a ser o ajuste quando ocorrer.

Num mundo em que todas as discussões racionais e relevantes foram eclipsadas por pautas elitistas, alienadas, emotivas ou identitárias, a política percebeu que ninguém estava olhando e meteu a mão no cofre do contribuinte. Os efeitos estão apenas começando, e os riscos não poderiam ser maiores.

Davos acordou de um sono de muitos anos e abriu seu microfone para quem tem a bússola virada para o lado certo. Resta saber se, desta vez, serão ouvidos.

FOTO: Xinhua/Lian Yi

FONTE: https://noticias.uol.com.br/colunas/alexandre-borges/2026/01/30/a-bomba-relogio-mundial-de-que-ninguem-esta-falando.htm