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Dois brasileiros e uma taxa de juros durante 30 anos

Três décadas de juros elevados moldam expectativas, comportamentos e relações de poder.

Desde o Plano Real, o Brasil convive com uma peculiaridade raramente discutida fora dos círculos especializados em Finanças Pessoais: uma taxa básica de juros persistentemente elevada ao longo de três décadas. A média mensal da Selic, segundo a SGS 4390 do Banco Central do Brasil (taxa de juros Selic acumulada no mês – % a.m.), desde 1995, gira em torno de 1,17% ao mês, equivalente a cerca de 15% ao ano. Houve picos ocasionais, mas se configurou um regime financeiro.

Essa regularidade estatística, na média da série tal como no fim dela, não é neutra. Ela revela uma escolha institucional com efeitos profundos sobre crescimento, distribuição de renda e formação da riqueza no país.

Para entender o significado disso na prática, vale recorrer a um experimento mental simples para enxergar o escondido pelos números agregados: como a Selic elevada produziu estagnação no emprego e no fluxo de renda do trabalho e expansão do estoque de riqueza financeira pessoal de castas de natureza ocupacional.

Imagine dois brasileiros baby boomers, no mesmo país, após a “crise de meia-idade”, em meados dos anos 1990. Essa crise, ocorre, geralmente, após os 40-45 anos, quando o homem se pergunta: — “Sou feliz na minha vida? Realizei meus sonhos da juventude?”

Ela é caracterizada como um “novo começo” ou período a partir do qual se emerge com maior autoconhecimento, sabedoria e foco em desejos pessoais. É uma transição focada em ressignificar a vida, resgatar sonhos reprimidos e priorizar o bem-estar físico e mental, transformando a crise em oportunidades de renovação.

Mas aqueles com formação universitária de qualidade e carreira profissional bem-sucedida, tendo já comprado a moradia e criado filho(s), pensam: — “Manterei o padrão de vida alcançado hoje após minha aposentadoria?”

Porém, muitos sem educação financeira, seja familiar, seja escolar, desdenham “o dinheiro” e priorizam só o bem-estar imediato sem maiores sacrifícios em termos de poupança. Ilustremos o caso com a narrativa sobre dois trabalhadores, um manual, outro intelectual. Vivem no mesmo país, enfrentam as mesmas crises, votam nos mesmos governos e são afetados pela mesma política monetária.

A diferença entre eles não está só em talento ou esforço, mas em: ou sorte de berço extraordinária ou, mais acessível, oportunidade e vontade para obter o melhor desempenho escolar até obter todas as titulações em Universidades de excelência. Além disso, está na forma como cada qual se relaciona com a taxa de juros.

O brasileiro ao viver somente do trabalho depende essencialmente do salário. Seu rendimento cresce pouco, sofre interrupções em períodos de crise, quando é corroído por desemprego, informalidade ou perda de poder de barganha.

O crédito, quando perde as contas no uso dos cartões de crédito, é caríssimo, devido à inadimplência de 60% dos “pecadores” pela qual pagam os “justos”. Juros altos significam parcelas maiores, consumo adiado e maior fragilidade financeira.

Ao longo de 30 anos, seu fluxo de renda oscila. Pode melhorar em algumas conjunturas, piorar em outras, mas raramente entra em uma trajetória sustentada de crescimento real.

Em contrapartida, o brasileiro de castas de natureza ocupacional consegue poupar regularmente e aplica de forma disciplinada em ativos financeiros indexados à Selic. Não empreende, não inova, não assume riscos produtivos. Apenas reaplica os rendimentos financeiros dos juros compostos mês após mês.

Para ele, juros altos não são obstáculo: são a forma de enriquecimento patrimonial. Cada elevação da Selic acelera o crescimento de seu estoque de riqueza.

O ponto central desse experimento não está no valor exato acumulado, mas na ordem de grandeza do resultado como efeito cumulativo do tempo e da taxa. Um aporte mensal constante de R$ 1.800, ao longo de 360 meses, rendendo em média 1,17% ao mês, produz um patrimônio final da ordem de R$ 10 milhões, ou seja, o cliente do Varejo de Alta Renda alcança o limiar do segmento Private Banking.

A partir desse valor, com a atual taxa de juro de 15% a.a., equivalente a 1,17% a.m., ele recebe R$ 117 mil em um mês de 22 dias úteis, ou seja, R$ 5.318 por “dia de trabalho” da Selic 252. No Brasil, profissões com rendas superiores a 30 salários- mínimos – em 2025, ultrapassava R$ 45.000,00 mensais com base no salário de R$ 1.518,00 – concentram-se em cargos de alta gestão, áreas técnicas especializadas, Direito público e Medicina especializada. Geralmente, esses salários incluem remuneração fixa, bônus e Participação nos Lucros e Resultados (PLR).

Esse enriquecimento financeiro não decorre de ganhos de produtividade, criação de empregos ou inovação tecnológica. Ele resulta simplesmente da combinação de tempo prolongado com juros elevados e estáveis, garantidos pelo próprio Estado.

O trabalhador de alta renda com educação financeira o aproveita. O trabalhador manual, por sua vez, termina o período com uma renda mensal, em termos reais, não muito superior à recebida há muitas décadas.

Visualmente, o contraste é didático. Imagine um gráfico simples capaz de resumir tudo: no eixo horizontal, o tempo (1995 até hoje); no eixo vertical, valores em reais dos rendimentos. A linha do trabalhador manual é quase horizontal, com pequenas oscilações. Cresce pouco, cai em crises, recupera-se lentamente. A linha do trabalhador intelectual e rentista começa baixa e discreta, mas após 10 ou 15 anos curva-se para cima. Nos anos finais, dispara exponencialmente pelos juros compostos somados à renda do trabalho.

Esse gráfico ensina algo essencial: a desigualdade não nasce grande. Ela explode com o tempo, quando o sistema capitalista implantado no Brasil remunera estoques financeiros muito mais rapidamente diante fluxos de renda do trabalho.Esse padrão ajuda a nomear um fenômeno característico do Brasil recente: a estagdesigualdade. De um lado, há estagnação do fluxo de renda com crescimento baixo, investimento produtivo contido por juros elevados, mercado de trabalho instável e salários apenas com reposição inflacionária. De outro, há concentração do estoque de riqueza financeira com juros compostos elevados, baixo risco, remuneração automática e forte acumulação patrimonial.Não se trata apenas de desigualdade de renda corrente do trabalho, mas sim de uma desigualdade intertemporal. Nela, o passado acumulado pelo rentista se capitaliza continuamente, enquanto o presente produtivo patina.

Uma Selic média próxima de 15% ao ano por três décadas não pode ser explicada apenas como resposta técnica à inflação. Ela indica a política monetária brasileira ter operado, na prática, como um mecanismo estrutural de valorização patrimonial.

Ao longo do período, o Banco Central priorizou a preservação do valor real dos ativos financeiros, tratou a inflação quase exclusivamente como fenômeno monetário, subestimou efeitos distributivos e de custo financeiro e naturalizou retornos elevados como condição de “credibilidade”. O resultado foi um ambiente no qual aplicar tornou-se estruturalmente mais vantajoso diante produzir – e o tempo passou a trabalhar a favor de quem já tinha capacidade de poupar.O debate público, no jornalismo econômico neoliberal, se concentra no “nível adequado” da Selic em determinado momento do ciclo. Essa abordagem costuma esconder o essencial: não é apenas a taxa de juros pontual o de importância, mas muito mais o regime persistente.

Três décadas de juros elevados moldam expectativas, comportamentos e relações de poder. Criam resistência política à redução estrutural da taxa. Transformam a política monetária em um dos principais vetores de concentração de riqueza.

O experimento dos “dois brasileiros” não é uma fábula moralista nem um ataque à poupança dos rentistas esforçados. É uma lente analítica para enxergar como decisões institucionais aparentemente técnicas moldam trajetórias sociais inteiras.

Durante os últimos 31 anos, no Brasil, trabalho manual foi apenas para sobreviver, o intelectual buscou aplicar para enriquecer. Não só por mérito individual, mas para se aproveitar do desenho do sistema monetário-financeiro. Enquanto essa assimetria não for reconhecida explicitamente, o país continuará preso a um modelo no qual o crescimento é fraco, a desigualdade patrimonial explode e o futuro é constantemente sacrificado para remunerar o passado.

Foto: Pedro França/Agência Senado

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/dois-brasileiros-e-uma-taxa-de-juros-durante-30-anos