Leonardo Sobreira, jornalista e secretário de redação do Brasil 247 e diretor de conteúdo do Instituto Sul Global, avalia em entrevista à UBA que o resultado desta eleição deve ser analisado em relação à situação econômica do país.
Por Alma Olaechea, da ANCCOM, a agência de notícias da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA)
O Brasil voltou às urnas neste domingo para definir o próximo presidente e renovar seu Congresso, em uma eleição marcada por forte polarização política e com impacto no cenário regional. Para vencer as eleições no primeiro turno, era necessário superar 50% dos votos. E, embora às 18h, com 41% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro liderasse com 50,41% dos votos, horas depois ficou definido um segundo turno para o próximo dia 25 de outubro, com menos de dois pontos percentuais de diferença: 47,03% para a oposição e 45,16% para o atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
Além de votar para presidente, os brasileiros elegeram governadores, 54 senadores — dois terços do Senado —, 513 deputados federais e representantes das assembleias legislativas estaduais e distrital.
Na Argentina, o voto brasileiro também deixou um sinal. Lula venceu entre os eleitores residentes no país, com 66% dos votos, obtendo uma ampla vantagem sobre Bolsonaro. Os resultados da votação no exterior começaram a ser conhecidos antes dos registrados em território brasileiro e mostraram um mapa bastante dividido, com Lula vencendo em 17 países, entre eles Argentina, China, Austrália, Itália e Alemanha, enquanto Bolsonaro obteve seus principais apoios no Japão, em Israel e em outros países da Ásia e do Oriente Médio.
O resultado do voto brasileiro na Argentina volta a colocar em foco a relação entre os dois países. Para Eduardo Crespo, doutor em Economia, cientista político e especialista em Desenvolvimento Econômico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Nacional de Moreno, um eventual governo Bolsonaro poderia gerar uma relação política mais próxima com a administração de Javier Milei: “Os dois, tanto o governo Milei quanto o que seria um eventual governo Bolsonaro, são governos alinhados com os Estados Unidos, com Israel. Em princípio, fariam parte de uma mesma coalizão internacional”, afirma.
A eleição ocorre em um cenário político latino-americano marcado pelo avanço de governos de direita em diferentes países da região. Nesse mapa, o Brasil ocupa um lugar particular por seu peso econômico, demográfico e político, de modo que uma continuidade do projeto de Lula manteria o país entre os governos de esquerda, enquanto uma eventual chegada de Bolsonaro modificaria essa orientação.
O resultado desenha uma geografia eleitoral bem marcada. Bolsonaro foi o candidato mais votado em 15 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula venceu em 12 estados. O petista voltou a ter o Nordeste como seu principal reduto, ganhando nos nove estados da região. Bolsonaro, por sua vez, ficou em primeiro lugar nos três estados do Sul, nos quatro do Centro-Oeste, nos quatro do Sudeste e em quatro estados do Norte.
Em São Paulo, embora Bolsonaro tenha ficado em primeiro lugar, o clima eleitoral foi marcado por uma forte mobilização dos dois campos. Rocco Famularo, jornalista e analista internacional que acompanhou a votação na cidade, disse em entrevista à ANCCOM que, desde sua chegada, havia percebido uma presença maior de simpatizantes de Lula, especialmente depois do encerramento da campanha do presidente: “A caminhada que Lula fez no sábado mobilizou mais de dez mil pessoas, a ponto de convulsionar o centro de São Paulo”, relatou Famularo. Ainda assim, ele também observou mobilizações favoráveis ao candidato de oposição: “Em São Paulo, os dois movimentos tinham capacidade de mobilização”, afirmou.
Para o jornalista, um aspecto central desse resultado pode ser encontrado em um fenômeno também observado em outros países da região: “o voto de protesto”. “As pessoas se cansaram da política tradicional”, sustenta. Nesse cenário, a insegurança pode pesar mesmo quando outros indicadores, como a economia, são favoráveis: “Você pode estar bem economicamente, mas há questões como a insegurança, entre outras coisas, que as pessoas não perdoam em uma eleição”. Segundo Famularo, parte do eleitorado que acompanha Bolsonaro o faz principalmente por rejeição a Lula e pela identificação com o sobrenome do pai: “São anti-Lula mais do que pró-Bolsonaro. Não apoiam Flávio Bolsonaro por ser Flávio Bolsonaro, apoiam por ele ser filho de Jair Bolsonaro”.
Famularo afirma que a eleição também define qual lugar o Brasil buscará ocupar no cenário internacional: “No Brasil está em jogo o objetivo principal, que é ser uma potência mundial, não uma potência intermediária”, sustenta. Nesse sentido, identifica uma diferença entre os projetos de política externa: “Lula com os BRICS, multilateralismo, China mais presente. Bolsonaro, mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos”.
Para Leonardo Sobreira, jornalista e secretário de redação do Brasil 247 e diretor de conteúdo do Instituto Sul Global, o resultado desta eleição deve ser analisado em relação à situação econômica do país. Embora o Brasil atravesse um cenário de inflação baixa e desemprego reduzido, o jornalista afirma que “há uma crise do custo de vida em meio a uma situação de pleno emprego e de trajetória de queda da inflação”, relacionando o problema especialmente ao preço dos alimentos.
Por outro lado, em sua avaliação, existe uma pressão dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral: “Do Palácio do Planalto, o que se transmite é que há uma interferência direta dos Estados Unidos em todo o processo eleitoral”. O jornalista cita como parte dessa pressão as ações do Departamento de Estado e do secretário Marco Rubio: “Há um alinhamento de todos os países a uma agenda que não é produtiva. Não é uma agenda que os Estados Unidos proponham para a América Latina”, afirma. Para Sobreira, essa disputa também ocorre no ambiente digital, por meio da circulação de conteúdos nas redes sociais.
Na mesma linha, ao analisar o rumo econômico do país e as relações internacionais, Crespo avalia que o eventual alinhamento de um governo Bolsonaro com os Estados Unidos de Donald Trump poderia aproximar politicamente Brasil e Argentina, embora considere que as tendências econômicas de fundo não seriam alteradas: “São duas economias que essencialmente se primarizam, duas economias que produzem commodities para os mercados internacionais, fundamentalmente para a China”, explica. Nesse cenário, alerta que a relação com a China continuará tendo peso central: “O viés anti-China deve ser visto com muito cuidado porque a China é o principal parceiro comercial do Brasil”, de modo que “também não há tanta margem para brigar com a China”, esclarece.
A mesma análise vale para o Mercosul. Crespo afirma que seu futuro está ligado à capacidade de construir uma integração mais produtiva: “O Mercosul faz sentido enquanto houver uma indústria regional”. Nesse sentido, considera que, se Argentina e Brasil continuarem orientados principalmente para a exportação de commodities, a relação poderá ficar limitada aos planos diplomático e comercial.
Em relação às políticas que poderiam ser adotadas por um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Crespo prevê uma continuidade de algumas das linhas que caracterizaram o governo de seu pai: “Parece-me que é nessa direção que aponta toda essa direita”, afirma, mencionando a possibilidade de uma política “mais favorável às universidades privadas” e de maior aproximação com as igrejas evangélicas. “Um pouco mais do mesmo que já se viu com o pai”, resume o economista.
Com o primeiro turno definido, Brasil e mundo aguardam um novo capítulo desta disputa eleitoral no próximo dia 25 de outubro. Lula e Bolsonaro se enfrentarão em um cenário marcado por uma diferença estreita, um mapa territorial dividido e um eleitorado atravessado tanto pela polarização quanto pela rejeição a um ou outro candidato. A campanha voltará a colocar em debate os rumos econômico e político do país e o lugar que o Brasil ocupará na região e no cenário internacional.
FOTO: Ricardo Stuckert | Reprodução/Instagram/@flaviobolsonaro
FONTE: https://www.brasil247.com/america-latina/dois-modelos-de-pais-em-disputa/