Venda bilionária transfere controle estratégico de recursos brasileiros e levanta debate sobre soberania mineral e dependência externa.
247 – Os controladores da mineradora brasileira Serra Verde se tornarão os principais acionistas da empresa americana USA Rare Earth após a conclusão de uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões, segundo informações publicadas pelo jornal Valor Econômico nesta segunda-feira. O acordo prevê, além de pagamento em dinheiro, a emissão de ações que colocará os antigos donos da empresa brasileira como sócios relevantes da companhia dos Estados Unidos.
A transação envolve a mina de Pela Ema, localizada em Goiás, considerada uma das mais importantes fora da Ásia na produção de terras raras pesadas — insumos estratégicos para a indústria de alta tecnologia, incluindo carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.
Exportação integral para os Estados Unidos
Um dos pontos mais sensíveis da operação é a previsão de que 100% da produção de terras raras da Serra Verde será destinada a agências e cadeias produtivas ligadas aos Estados Unidos. Na prática, isso significa que um recurso estratégico brasileiro passará a abastecer diretamente a indústria norte-americana, sem garantia de fornecimento prioritário ao mercado interno.
A movimentação ocorre em um contexto de disputa geopolítica crescente por minerais críticos, especialmente entre Estados Unidos e China, que atualmente domina a cadeia global de terras raras.
Mudança no controle e estrutura societária
Pelos termos do acordo, os antigos controladores da Serra Verde receberão cerca de US$ 300 milhões em dinheiro e uma participação acionária relevante na USA Rare Earth, por meio da emissão de mais de 100 milhões de novas ações. Com isso, passam a ser os maiores acionistas individuais da companhia americana.
Essa estrutura transforma os empresários brasileiros em sócios estratégicos de uma empresa posicionada no centro da política industrial dos Estados Unidos para reduzir a dependência da China em minerais críticos.
Ativo estratégico em Goiás
A mina de Pela Ema é considerada um dos poucos projetos em operação fora da Ásia com capacidade de produção de elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — essenciais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses materiais são fundamentais para tecnologias de transição energética e também para aplicações militares, o que eleva o interesse estratégico sobre o ativo.
Debate sobre soberania e política mineral
A operação reacende o debate sobre a política mineral brasileira e o grau de controle nacional sobre recursos considerados críticos. Especialistas apontam que o Brasil, apesar de possuir reservas relevantes, ainda não consolidou uma estratégia industrial capaz de internalizar valor agregado na cadeia de terras raras.
Ao direcionar integralmente a produção para o exterior, o acordo pode reforçar um modelo histórico de exportação de commodities, com baixa agregação tecnológica no país.
Além disso, a vinculação direta com agências e cadeias produtivas dos Estados Unidos insere o Brasil, ainda que indiretamente, na disputa global por minerais estratégicos — em um momento de reorganização das cadeias produtivas internacionais.
Movimento alinhado à estratégia dos EUA
A USA Rare Earth tem como objetivo construir uma cadeia completa de produção de terras raras fora da China, incluindo mineração, processamento e fabricação de ímãs nos Estados Unidos. A aquisição da Serra Verde é vista como peça central desse plano.
O financiamento da operação conta com apoio de instrumentos ligados ao governo norte-americano, reforçando o caráter estratégico do investimento.
Com isso, o Brasil passa a ocupar posição relevante como fornecedor de matéria-prima crítica para a indústria e a segurança nacional dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que levanta questionamentos sobre os benefícios diretos dessa integração para o desenvolvimento industrial brasileiro.
Foto: Divulgação/Freepik
FONTE: https://www.brasil247.com/economia/donos-da-serra-verde-serao-socios-de-empresa-americana-e-exportarao-100-das-terras-raras-para-agencias-dos-estados-unidos