Em entrevista ao Opera Mundi, economista analisa relatório da Oxfam, critica bilionários, big techs e papel dos EUA na financeirização da economia mundial.
247 – A divulgação do novo relatório da Oxfam, por ocasião do Fórum Econômico Mundial de Davos, reacendeu o debate internacional sobre a escalada da desigualdade e o poder concentrado nas mãos de poucos. Em entrevista ao portal Opera Mundi, o economista Ladislau Dowbor analisou os dados do estudo e afirmou que o atual nível de concentração de riqueza ultrapassa qualquer parâmetro histórico razoável, colocando em risco não apenas a justiça social, mas também a própria democracia.
Logo no início da entrevista, Dowbor chama atenção para o que define como “números explosivos, mas pouco conhecidos”. Ele destaca um dado central do relatório: “os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de quatro bilhões de pessoas”. Segundo o economista, o quadro se agrava quando se observa que “uma pessoa em cada quatro está em insegurança alimentar”, evidenciando um contraste que ele classifica como absurdo.
Para ilustrar a lógica de concentração, Dowbor recorre a um exemplo didático. Ele descreve o caso de um investidor que aplica R$ 1 bilhão em títulos da dívida pública brasileira, com retorno anual de 15%. O resultado, segundo ele, é um ganho de R$ 150 milhões por ano, o equivalente a R$ 411 mil por dia, obtidos “de mãos no bolso, sem produzir nada e drenando os nossos impostos”. Ao comparar esse mecanismo com as fortunas superiores a US$ 100 bilhões detidas por cada um dos bilionários citados no relatório, o economista aponta o chamado efeito bola de neve: “quanto mais rico você é, mais rapidamente você enriquece”.
De acordo com Dowbor, o relatório da Oxfam confirma que a acumulação de riqueza entre os bilionários ocorre de forma cada vez mais acelerada. Ele observa que esse grupo concentra hoje cerca de US$ 18 trilhões, enquanto a maioria da população mundial enfrenta dificuldades básicas para fechar o mês. Para o economista, a realidade cotidiana da maior parte das pessoas está longe da ideia de abundância: não se trata de decidir o que fazer com o dinheiro que sobra, mas de encontrar meios de sobreviver.
Ao ser questionado sobre o conceito de rentismo, Dowbor explica que se trata de ganhos obtidos sem contribuição produtiva. Ele afirma que a financeirização da economia permite que grandes fortunas cresçam “sem produzir absolutamente nada, apenas fazendo ‘o dinheiro trabalhar’”. Para ele, esse mecanismo representa uma forma ainda mais ampla de concentração de renda do que a exploração clássica por meio de salários baixos, já que hoje não há sequer a contrapartida de geração de empregos, produção de bens ou pagamento proporcional de impostos.
No caso brasileiro, Dowbor destaca a isenção de impostos sobre lucros e dividendos distribuídos desde 1995. Segundo ele, essa estrutura favorece diretamente os detentores de grandes fortunas e explica o interesse político na manutenção de taxas de juros elevadas. O economista também cita o sistema de cartões de crédito como exemplo de apropriação de renda, mencionando que o lucro global da Visa chega a cerca de 55% ao ano, obtido apenas pela intermediação financeira, sem produção direta.
A entrevista também aborda a dimensão internacional da financeirização. Dowbor ressalta que, nos países mais pobres, em média 42% dos orçamentos públicos são destinados ao pagamento de dívidas externas, transferindo recursos para grandes grupos financeiros sediados nos países ricos. Esses ganhos, segundo ele, costumam ser direcionados a paraísos fiscais, como Luxemburgo, Ilhas Virgens Britânicas e o estado de Delaware, nos Estados Unidos, que ele classifica como “o maior paraíso fiscal do mundo”.
O economista observa que o próprio relatório da Oxfam denuncia o impacto político dessa concentração extrema de riqueza. Ele cita o trecho que afirma que “esse poder dá aos bilionários controle sobre o futuro de todos nós, enfraquecendo a liberdade política e desrespeitando os direitos da maioria”, e conclui que, a partir de determinado nível de desigualdade, “não há espaço para a democracia”.
Dowbor detalha ainda o papel dos grandes grupos financeiros e das big techs nesse processo. Ele menciona que Elon Musk ganha em poucos segundos o equivalente ao rendimento anual de uma pessoa comum e compara o poder de gestores de ativos como a BlackRock, que administrou US$ 13,5 trilhões em 2025, valor muito superior ao orçamento federal dos Estados Unidos. Para o economista, a concentração se consolida em torno das chamadas “sete magníficas” — Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla — que formariam um “oligopólio planetário”.
Segundo Dowbor, o controle financeiro global está diretamente articulado ao controle da informação e da chamada indústria da atenção. Ele explica que, nesse modelo, os lucros resultam menos da produção e mais da apropriação de dados privados, com grande potencial de manipulação comercial e política. Ele observa que cerca de 98% dos lucros do Facebook provêm da publicidade, custos que acabam embutidos nos preços pagos pelos consumidores e no tempo perdido com interrupções constantes.
Ao analisar o papel dos Estados Unidos, Dowbor afirma que o país opera o maior sistema de dreno financeiro da história. Ele lembra que a economia norte-americana consome mais do que produz e sustenta esse modelo por meio do endividamento, que já alcança US$ 38 trilhões, superando o próprio PIB do país. Para ele, a capacidade de emitir dólares sem lastro, utilizados como reserva internacional, garante aos Estados Unidos uma posição singular no sistema global.
Por fim, o economista avalia que a desigualdade extrema produziu um planeta fraturado, dividido entre Norte Global e Sul Global. Ele ressalta que 16% da população mundial concentram 56% da riqueza global e associa movimentos como o dos BRICS à tentativa de construir uma divisão internacional mais justa. Dowbor conclui que “a desigualdade não é uma herança infeliz, é um processo construído ativamente e em plena expansão”, e considera escandaloso que, apesar da capacidade produtiva global, milhões de pessoas sigam passando fome em um mundo marcado pela abundância concentrada.
Foto: 247
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/dowbor-afirma-que-rentismo-acelera-desigualdade-global-e-ameaca-a-democracia