Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

Dowbor revela estrago da Selic: bilionário ganhou R$ 400 mil por dia

Economista diz que juros a 15% ao ano estimulam renda sem produção, travam investimento e aprofundam a desigualdade no Brasil.

247 – O economista Ladislau Dowbor, 84, afirma que a Selic em patamar elevado cria um mecanismo de enriquecimento diário para quem já concentra capital, sem contrapartida produtiva, e ajuda a explicar por que a economia brasileira patina, com demanda enfraquecida, investimento baixo e desigualdade persistente. Professor titular de pós-graduação da PUC-SP e ex-consultor de agências da ONU, ele sustenta que o país opera um sistema em que “ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos”.

Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, Dowbor recorre a exemplos do cotidiano para mostrar como o dinheiro circula num capitalismo cada vez mais mediado por plataformas, conglomerados e cadeias financeiras globais — e como essa dinâmica transfere renda dos mais pobres para grupos gigantescos. “Pago R$ 350 pelo dia de trabalho da minha faxineira, valor transferido para a conta dela de maneira digital. Como ela tem problemas de saúde, contratou um desses planos geridos por empresas que não entendem nada de saúde. Então descubro que entre os sócios deste grupo está a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, que administra trilhões de dólares. Ou seja: parte do dinheiro que eu pago para uma pessoa pobre no Brasil vai para um grupo americano riquíssimo –que também é acionista da bandeira de cartão de crédito que eu uso para pagar o café da manhã na padaria.”

“Sem produzir nada”, o ganho diário de um bilionário

Para Dowbor, a dificuldade de visualizar grandes cifras impede que parte da sociedade perceba o tamanho do desequilíbrio. Ele aponta o PIB brasileiro — R$ 12,3 trilhões — e faz uma conta simples para ilustrar o potencial de bem-estar caso a renda fosse menos concentrada. Na sequência, contrasta esse cenário com a lógica financeira que remunera mais o capital do que o trabalho.

O exemplo central usado por ele é direto: “Imagine o dono de R$ 1 bilhão que, em vez de investir em serviços ou produtos, compra títulos do governo atrelados à Selic, que pagam 15% de juros ao ano. Sem produzir nada, esse bilionário vai ganhar mais de R$ 400 mil ao dia.” Na leitura do economista, quanto maior o patrimônio, maior o volume aplicado e, portanto, mais acelerado o enriquecimento — num círculo que se retroalimenta.

Ele contrapõe esse ganho automático ao cotidiano da maioria: “É algo completamente diferente do que acontece com 80% da população, que não só não acumula, como enfrenta dificuldade em manter o que tem. O problema deles não é ‘o que que eu faço com o meu dinheiro?’. O que ganham nem dá para fechar o mês.” Para Dowbor, quando o dinheiro não vai para investimento produtivo, ele deixa de gerar emprego e renda, e a economia perde robustez.

Juros altos travam o investimento e empobrecem a demanda

Dowbor descreve um ciclo perverso: a concentração de renda reduz a demanda, a demanda fraca desestimula a produção, e a produção fraca limita o emprego e a renda. Nesse quadro, o custo do crédito aparece como barreira adicional para quem pensa em empreender ou industrializar.

Ele compara o Brasil com outras regiões: “Se quiser pegar um empréstimo no banco para montar um negócio, vai pagar 25% ao ano —na China, é 2% ao ano, na Europa, entre 3% e 4%.” E conclui que, diante dessa diferença, a escolha “racional” para quem tem capital passa a ser a aplicação em títulos públicos: “Por outro lado, ele tem a opção de comprar ativos do governo que pagam 15% de juros. Por que esse sistema se mantém?”

Para o economista, a explicação envolve a captura política pelo rentismo. “Se você visita deputados, senadores, vai descobrir que eles mantêm aplicações financeiras e vivem disso. Eles têm consciência de que nós temos um sistema que drena em vez de gerar recursos, o núcleo básico da economia.”

“Escala 6×1” e o debate sobre trabalho: o problema é sistêmico

Ao tratar do mercado de trabalho e do deslocamento de trabalhadores para serviços por aplicativo, Dowbor argumenta que a discussão não pode ficar restrita à relação imediata entre empresa e salário, mas precisa olhar o arranjo macroeconômico.

“A questão central não é o empresário que paga R$ 2.000 ao mês ao trabalhador da escala 6×1, que muitas vezes decide prestar serviços para os aplicativos, esperando ganhar mais? É o conjunto do sistema que está travando a economia.” Para ele, o travamento vem do prêmio ao capital financeiro e da compressão das políticas que poderiam elevar renda e demanda.

Arcabouço fiscal “palhaçada” e a ideia de “salário indireto”

Dowbor critica diretamente a forma como o debate fiscal é formulado no Brasil. “Se, em vez de se preocupar com o arcabouço fiscal —que eu chamo de ‘palhaçada’, não de maneira irresponsável—, você se preocupa com políticas sociais, colocando mais dinheiro na educação, na saúde, é uma maneira de enriquecer as famílias.” O raciocínio é que serviços públicos bem estruturados liberam renda privada e ampliam consumo, elevando vendas e lucro, e permitindo que empresas paguem melhor.

A crítica se aprofunda quando ele descreve o que chama de “salário indireto”, isto é, a parcela do bem-estar que não depende do dinheiro no bolso, mas da presença do Estado na vida cotidiana. “Nas economias que funcionam, 40% do bem-estar econômico das famílias não correspondem a quanto elas têm no bolso, mas sim o quanto elas têm de hospitais públicos na região onde moram, as ruas do bairro asfaltadas, o parque perto de casa —tudo isso é salário indireto.”

Para ilustrar, Dowbor compara Canadá e Estados Unidos e, depois, Estados Unidos e China: “O Canadá, por exemplo, tem um salário mais baixo que o dos americanos, mas lá as pessoas contam com creche, escola, universidade, hospital, tudo bom e de graça, parques por toda parte, água limpa.” Em seguida: “A esperança de vida do americano é de 78 anos, ao custo de US$ 11 mil ao ano por pessoa para o sistema de saúde. Na China, a esperança de vida é de 79 anos, ao custo de US$ 1.000 ao ano.” Para ele, investir em prevenção e infraestrutura básica aumenta eficiência e reduz gastos futuros, mas costuma ser registrado apenas como “gasto” na contabilidade do debate fiscal.

Investimento social, infraestrutura e combate a paraísos fiscais

No lugar do ajuste permanente, o economista propõe priorizar inclusão produtiva, infraestrutura e controle de evasão. “É preciso investir na inclusão produtiva, que envolve, sim, o repasse para benefícios como o Bolsa Família.” E rebate a crítica de que isso gera desequilíbrio: “Não, este dinheiro é para dinamizar a economia.”

Ele também defende investimento em infraestrutura com visão de retorno social e econômico: “Pouco importa de onde o governo tira o dinheiro. Se não tiver o suficiente, pode gerar déficit, usar conversão das reservas cambiais, emitir dinheiro, aumentar a dívida… O que importa é para onde vai o dinheiro.” E cita um cálculo aprendido no trabalho com organismos internacionais: “Na ONU, a gente calcula que a cada R$ 1 investido em saneamento básico, R$ 4 são economizados em saúde.”

Ao mesmo tempo, Dowbor aponta a necessidade de reduzir a sangria via paraísos fiscais: “Também é preciso reduzir a transferência de dinheiro para paraísos fiscais; tem banco com mais de 30 filiais em paraísos fiscais, onde nenhum cliente tem nome, é só um número.”

Tributação regressiva e o peso do juro sobre famílias e empresas

O economista argumenta que a estrutura tributária brasileira amplia desigualdades ao tributar fortemente consumo, afetando mais a base social que gasta quase tudo para sobreviver. “No Brasil, metade da tributação é sobre o consumo. Isso é uma deformação radical brasileira.” A partir daí, ele descreve como ricos mantêm grande parte da renda disponível depois de satisfazer necessidades, enquanto a maioria paga impostos em cada item essencial.

A crítica se conecta ao custo do crédito: “No Brasil, a taxa de juros para as famílias é de 58% ao ano, para as empresas, de 25%, enquanto na China os juros são limitados a 2% ao ano.” Na visão de Dowbor, esse desenho faz com que o capital se desloque do investimento produtivo para a renda financeira.

China como exemplo de dinheiro produtivo e Estado indutor

Ao citar a China, Dowbor busca ilustrar como uma política de crédito barato e planejamento pode acelerar transformação tecnológica e ambiental com capilaridade empresarial. Ele afirma que o país decidiu investir pesado em energia solar e, em vez de criar uma única grande fabricante estatal de painéis, estruturou uma grande estatal de máquinas e equipamentos para viabilizar a produção privada em larga escala.

“Resultado: hoje o país tem milhares de empresas de produção de painéis solares. Em qualquer cidade, um empreendedor compra as máquinas, pagando juros de 2%, e passa a produzir painéis solares.” Para o economista, o Estado funciona como motor de arranque: assume o investimento pesado em tecnologia e infraestrutura e deixa o setor privado multiplicar a produção, com empregos, lucros e ganhos ambientais.

Captura política e “apropriação privada” do Estado

Ao ser questionado sobre democracia e presidencialismo de coalizão, Dowbor aponta um processo histórico de deformação institucional no Brasil, associado ao financiamento empresarial de campanhas. “Em 1997, foi aprovado algo absurdo: o financiamento de campanhas políticas por empresas.” E relembra o julgamento do Supremo Tribunal Federal que derrubou a prática: “Depois de 18 anos, no final de 2015, o Supremo Tribunal Federal se deu conta que tinha sido violado o artigo 1 da Constituição, que diz que ‘todo poder emana do povo’ —não das empresas, nem dos bancos.”

Na avaliação dele, esse período deixou marcas estruturais: “Houve uma apropriação privada da política, que transformou radicalmente a relação entre os sistemas público e privado, que se perpetuou.” E arremata com a crítica ao conluio entre rentismo e política: “Essa articulação nefasta entre o financeiro, que não gera emprego, não produz, e os políticos que participam desse tipo de lucro, é uma deformação estrutural da economia.”

Ele conclui diferenciando investimento produtivo e especulativo — distinção que, segundo ele, se perde no debate nacional: “Eu uso a China como exemplo porque ela assegura que o dinheiro seja produtivo. Aqui chamamos aplicação financeira de investimento.”

Foto: 247

FONTE: https://www.brasil247.com/economia/dowbor-revela-estrago-da-selic-bilionario-ganhou-r-400-mil-por-dia