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“É possível acabar com a fome”, diz Lula em conferência sobre segurança alimentar

Presidente defende prioridade global no combate à fome durante conferência regional da FAO realizada na capital federal.

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (4) que a erradicação da fome é possível quando governos adotam políticas públicas voltadas à produção de alimentos, ampliação da renda e fortalecimento da agricultura. A declaração foi feita durante a abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, realizada em Brasília.

O encontro reúne autoridades, especialistas e representantes de organismos internacionais para discutir agricultura, desenvolvimento rural e segurança alimentar na região. A conferência é o principal fórum regional da FAO para definir prioridades e orientar as ações da organização no biênio 2026-2027.

Durante o discurso, Lula destacou que o Brasil já demonstrou na prática que é possível reduzir a fome por meio de políticas públicas estruturadas.

“O Brasil deu exemplo duas vezes, é possível acabar com a fome. É possível garantir que todo mundo tenha direito a tomar café, almoçar e jantar todo dia. É plenamente possível”, afirmou.

Ao abordar o cenário internacional, o presidente ressaltou que a América Latina possui enorme potencial produtivo e recursos naturais capazes de contribuir para a segurança alimentar global.

“É isso que tem que sair de mensagem, de uma conferência que envolve a América Latina, que é uma parte do mundo rica, que tem praticamente tudo aquilo que a natureza ofereceu a todos os seres humanos e que muitas vezes são explorados pelas pessoas que não são daqui para produzir parte das armas que destroem aquilo que já foi construído”, declarou.

Lula também criticou a falta de prioridade global no combate à fome, apesar da capacidade tecnológica e produtiva existente no planeta.

“É por excesso de irresponsabilidade, é por excesso de falta de compromisso que a gente não consegue exterminar a fome do planeta Terra, que já tem conhecimento genético, já tem conhecimento tecnológico, já produz mais alimento do que nós deveríamos consumir e esse alimento não chega à casa das pessoas. Enquanto isso, as pessoas importantes do planeta que deveriam estar preocupadas com a fome estão preocupadas com a guerra”, disse.

O presidente reforçou que a questão alimentar precisa ser tratada como prioridade absoluta nas políticas públicas.

“A gente não pode tratar a questão da fome como se fosse uma questão de ONGs, como se fosse assim: ‘se sobrar, tem. Se não sobrar, não tem’. Tem que ser tratado como uma questão de prioridade, prioridade zero. É um direito sagrado, todo mundo tem que tomar café, almoçar e jantar todo dia”, afirmou.

Segurança alimentar e cooperação regional

Durante a cerimônia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, destacou que o Brasil recolocou o combate à fome no centro das políticas públicas e ressaltou o papel estratégico da América Latina e do Caribe para a segurança alimentar mundial.

“Somos grandes produtores de alimentos e uma potência agroalimentar inovadora, profundamente conectada à terra, às águas e às florestas. Somos a primeira região a assumir o compromisso coletivo de erradicar a fome”, afirmou.

Ele também ressaltou a importância da cooperação internacional para enfrentar o problema.

“Ao sediar esta Conferência, o Brasil reafirma sua convicção de que o multilateralismo deve produzir benefícios concretos para as nossas populações. Poucos objetivos são tão urgentes quanto assegurar que ninguém mais passe fome. Espero que esta reunião produza orientações claras e compromissos robustos à altura das expectativas dos nossos povos”, disse.

Agricultura familiar como solução

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, destacou que a agricultura familiar tem papel central na superação das grandes crises contemporâneas.

“Hoje, sabemos, com base em dados da própria FAO, que a agricultura familiar é parte essencial da solução para as grandes crises do nosso tempo, da fome, da pobreza e do meio ambiente”, declarou.

Segundo ele, o fortalecimento do setor depende de políticas públicas voltadas ao acesso à terra, crédito e assistência técnica.

“Por isso, é fundamental apoiar a agricultura familiar com políticas de acesso à terra, crédito, assistência técnica e extensão rural, compras públicas, de incentivo ao cooperativismo e do fortalecimento da autonomia econômica das mulheres, dos jovens, dos povos e comunidades tradicionais”, afirmou.

Teixeira também defendeu investimentos em sistemas produtivos sustentáveis.

“Para acelerar a transição ecológica e agroflorestal, é preciso investir nos sistemas produtivos dos agricultores e agricultoras familiares, camponeses, inclusive jovens, povos indígenas, comunidades rurais afrodescendentes, povos de comunidades tradicionais, pequenos pescadores e criadores de animais assentados da reforma agrária e trabalhadores rurais”, disse.

Ciência e inovação no campo

O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, ressaltou que o enfrentamento de desafios como inflação de alimentos, fome e mudanças climáticas exige cooperação internacional e investimento em ciência.

“Em um cenário de desafios crescentes, fortalecer a resistência dos sistemas alimentares é uma tarefa que exige cooperação, diálogo e compromisso com a ciência. Cada país aqui presente traz experiências valiosas e temos o dever de compartilhá-las”, afirmou.

Ele também destacou avanços brasileiros na área de bioinsumos.

“É uma honra compartilhar os avanços no Brasil na agenda dos bioinsumos, ciência e inovação. Só em 2025 conseguimos registrar 139 novos insumos biológicos no Ministério da Agricultura, um recorde que demonstra o dinamismo desse setor. Hoje, no Brasil, mais de 80% dos nossos produtores de soja utilizam a fixação biológica de nitrogênio, reduzindo o custo, diminuindo a dependência de fertilizantes nitrogenados e contribuindo para a mitigação das emissões de carbono”, declarou.

Avanços regionais no combate à fome

O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, destacou que a América Latina e o Caribe vêm registrando avanços na redução da fome.

“Os sistemas agroalimentares fornecem subsistência para mais de 100 milhões de pessoas nessa região. Mulheres em áreas rurais, jovens, povos indígenas e agricultores de pequena escala são importantíssimos para as economias locais, como também a cadeia de abastecimento alimentar”, afirmou.

Ele também ressaltou as iniciativas de cooperação técnica para fortalecer a produção e a sustentabilidade agrícola.

“A FAO tem apoiado os países para melhorarem a sua especialidade com relação à gestão do solo, à expansão da agricultura digital, fortalecendo também a saúde animal e das culturas”, disse.

Segundo Dongyu, alguns países da região já apresentam baixos índices de subnutrição e outros seguem no caminho para alcançar o objetivo global de Fome Zero até 2030.

“Estamos aqui para alavancar a transformação dos nossos sistemas agroalimentares para que sejam mais eficientes, mais inclusivos e mais sustentáveis, para que a gente possa realmente atingir uma melhor produção, uma melhor nutrição, um melhor ambiente e melhor vida para todos. Essa região é líder em inovação e agricultura de precisão”, afirmou.

Combate global à fome

Durante a cerimônia, a primeira-dama Janja Lula da Silva recebeu o título de Embaixadora da Boa-Vontade Contra a Fome.

Ao comentar a iniciativa, ela ressaltou que o direito à alimentação deve ser garantido universalmente.

“Não importa se você é uma pessoa refugiada, migrante ou que vive em um país de conflito, a fome jamais deveria ser usada como arma de guerra. O direito à alimentação é universal e nós, como humanidade, devemos trabalhar para garanti-lo”, declarou.

A conferência também discute cooperação internacional, sistemas produtivos sustentáveis e iniciativas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar na América Latina e no Caribe.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/e-possivel-acabar-com-a-fome-diz-lula-em-conferencia-sobre-seguranca-alimentar