Trajetória, obra e legado do jornalista e escritor uruguaio que uniu rigor histórico, engajamento político e sensibilidade poética para dar voz às lutas da América Latina.
Poucos autores conseguiram traduzir a história de um continente inteiro em prosa tão acessível e ao mesmo tempo tão pungente quanto Eduardo Galeano. Jornalista, ensaísta e narrador, ele fez da América Latina — seus saqueios, suas resistências, suas pequenas alegrias cotidianas — o grande tema de uma obra que atravessou meio século e várias gerações de leitores.
A vida
Eduardo Hughes Galeano nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 3 de setembro de 1940. Começou cedo no jornalismo, ainda adolescente, publicando desenhos e textos, e logo se tornou uma figura central da imprensa política uruguaia. Foi editor do semanário Marcha, referência intelectual do continente, e do diário Época, forjando ali um estilo que misturava reportagem, análise política e sensibilidade literária.
O golpe militar no Uruguai, em 1973, interrompeu esse percurso. Galeano foi preso e, em seguida, partiu para o exílio na Argentina, onde fundou e dirigiu a revista Crisis. Mas a ditadura argentina de 1976 o alcançaria também: com o nome incluído em listas de esquadrões da morte, refugiou-se na Espanha, onde viveu boa parte dos anos seguintes e escreveu algumas de suas páginas mais ambiciosas.
Com a redemocratização, retornou a Montevidéu em 1985 e ali permaneceu, escrevendo, publicando e opinando sobre a política latino-americana até o fim da vida. Morreu em 13 de abril de 2015, na mesma cidade onde nascera, aos 74 anos, vítima de um câncer de pulmão.
A obra
As veias abertas da América Latina
Seu livro mais célebre, As veias abertas da América Latina (1971), é uma história do saqueio do continente — do ouro e da prata coloniais ao açúcar, à borracha, ao café e ao petróleo. A tese é direta e devastadora: a pobreza latino-americana não é um acidente, mas o resultado histórico de uma inserção subordinada na economia mundial, em que a região sempre exportou riqueza e importou dependência.
O livro tornou-se um símbolo de toda uma geração e voltou ao centro do debate em 2009, quando Hugo Chávez o entregou de presente a Barack Obama diante das câmeras, catapultando-o de novo às listas de mais vendidos. Anos depois, em 2014, o próprio Galeano surpreendeu ao dizer que já não conseguiria reler a obra — que lhe faltava, à época da escrita, formação em economia, e que a prosa da esquerda tradicional o incomodava. A declaração gerou polêmica, mas ele nunca renegou o conteúdo político do livro; falava mais do estilo do jovem autor que fora do que de suas convicções.
Memória do fogo e a reinvenção da narrativa
Se As veias abertas consagrou o Galeano ensaísta, foi a trilogia Memória do fogo (1982–1986) — Os nascimentos, As caras e as máscaras e O século do vento — que revelou seu projeto literário mais original. Nela, ele reconta cinco séculos de história das Américas em centenas de fragmentos curtos, quase cintilações, costurando mito, documento histórico, biografia e poesia. Cada episódio é datado e referenciado, mas o conjunto se lê como uma grande epopeia coletiva contada de baixo para cima, pela voz dos vencidos.
O estilo do fragmento
Essa forma breve, feita de vinhetas que cabem em uma página e guardam a força de uma parábola, tornou-se sua marca registrada em livros como O livro dos abraços (1989), De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso (1998), Espelhos (2008) e Os filhos dos dias (2012). Amante confesso do futebol, escreveu ainda Futebol ao sol e à sombra (1995), em que trata o jogo como arte popular e denuncia sua mercantilização — prova de que sua crítica não se limitava à economia política, mas alcançava a cultura em sentido amplo.
O legado
Galeano foi, acima de tudo, um contador de histórias com projeto ético. Escreveu para devolver memória a quem foi despojado dela e para nomear as engrenagens da desigualdade sem jamais abrir mão da leveza, do humor e da ternura. Sua influência atravessa fronteiras: inspirou movimentos sociais, foi leitura obrigatória de estudantes e militantes, e ajudou a moldar a maneira como o continente pensa a si mesmo.
Sua obra dialoga diretamente com a tradição estruturalista e com a teoria da dependência — do diagnóstico da troca desigual à crítica da especialização primário-exportadora —, mas o faz pela via da literatura, não do tratado. É talvez aí que reside sua originalidade duradoura: mostrar que a história econômica de um povo também é feita de rostos, nomes e vozes, e que compreendê-la exige tanto rigor quanto imaginação.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/eduardo-galeano-o-cronista-das-veias-abertas-da-america-latina/