Avaliação do governo Lula é de que, ao fechar o mercado norte-americano com taxas agressivas, Washington consolida o avanço chinês na América Latina
247 – Diante do avanço das medidas protecionistas agressivas adotadas pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos, membros do governo Lula (PT) avaliam que a atual postura de Washington está surtindo um efeito rebote desastroso para a própria geopolítica norte-americana: em vez de isolar concorrentes, as barreiras comerciais estão, na prática, empurrando o Brasil e outros parceiros comerciais históricos diretamente para a influência estratégica de Pequim, informa o jornal O Globo.
No Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, o diagnóstico é de que o unilateralismo de Trump limita as opções econômicas dos países afetados. Sem o mercado norte-americano como destino viável para suas exportações, nações em desenvolvimento veem-se quase obrigadas a estreitar ainda mais seus laços de cooperação e comércio com a China, principal compradora global de commodities e ávida por ocupar os espaços de vácuo deixados pelos EUA na América Latina e em outras partes do Sul Global.
Durante as discussões e as articulações diplomáticas de bastidores, o argumento de que a rigidez de Washington beneficia Pequim tem sido usado como uma das principais ferramentas de convencimento do Brasil junto a negociadores e senadores americanos. “Vocês estão nos colocando no colo da China. É isso que vocês estão querendo?”, resumiu o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, ao exemplificar a abordagem pragmática que o lado brasileiro tem adotado. Em sintonia com essa linha de defesa, o próprio presidente Lula já reforçou publicamente a soberania e a resiliência comercial do país diante das pressões da Casa Branca:
“Vamos ter que proteger [o setor produtivo]. Vamos ter que procurar outros parceiros para comprar nossos produtos. O comércio entre Brasil e Estados Unidos tem apenas 1,7% do PIB, não é essa coisa que a gente não consegue sobreviver sem os EUA”.
A lógica reversa do tarifaço de Trump
A imposição de tarifas generalizadas é a espinha dorsal da política econômica de Donald Trump nesta sua nova gestão, justificada pelo republicano como forma de reduzir déficits comerciais e forçar a reindustrialização dos Estados Unidos. No entanto, para analistas de comércio exterior e diplomatas em Brasília, a tática ignora o pragmatismo das cadeias de suprimento e a dinâmica de mercado dos países parceiros.
De acordo com estudos preliminares, o tarifaço tem gerado uma retração expressiva no comércio bilateral entre o Brasil e os EUA. Por outro lado, as exportações brasileiras para a China vêm registrando altas compensatórias, especialmente nos setores de agronegócio e recursos minerais.
O governo brasileiro avalia que, ao fechar canais tradicionais de troca com taxas de importação proibitivas, Washington acaba por:
- Reduzir sua própria influência de segurança e diplomacia na América do Sul.
- Tornar a China um parceiro comercial incontornável e ainda mais hegemônico para economias emergentes.
- Fortalecer a consolidação de rotas de comércio alternativas, blindadas contra decisões unilaterais norte-americanas.
A preocupação com o pragmatismo chinês também ecoa no Capitólio. Um grupo de senadores brasileiros planeja levar exatamente esse alerta em visitas oficiais a Washington. A estratégia é demonstrar aos parlamentares republicanos e democratas que o isolacionismo econômico promovido pela Casa Branca sabota o objetivo estratégico de longo prazo dos próprios EUA, que seria conter a expansão de Pequim no hemisfério ocidental.
Enquanto as negociações diretas com a equipe econômica de Trump não avançam para um recuo prático, o governo brasileiro acelera a busca por diversificação de mercados.
FOTO: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/efeito-rebote-tarifaco-de-trump-empurra-brasil-e-outros-parceiros-para-os-bracos-da-china/