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Eisenkot terá chance de formar governo em Israel, encerrando a era Netanyahu

Líder do Yashar reúne apoio de 67 dos 120 parlamentares do Knesset e deverá receber mandato para formar uma nova coalizão.

247 – O líder do partido Yashar, Gadi Eisenkot, deverá receber no domingo (8) a missão de formar um novo governo em Israel, abrindo a possibilidade de encerrar a longa era política do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Segundo o The Times of Israel, Eisenkot conquistou o apoio de 67 dos 120 parlamentares do Knesset, o Parlamento israelense, durante as consultas realizadas pelo presidente Isaac Herzog com os partidos que participaram das eleições da semana passada.

O resultado representa uma importante derrota política para Netanyahu, que recebeu a recomendação de partidos que somam apenas 46 cadeiras. Herzog classificou as manifestações dos parlamentares como “claras”, embora tenha anunciado novas conversas com dirigentes partidários antes de formalizar a escolha. O Yashar pediu que Eisenkot seja encarregado da formação do governo “o mais rápido possível” e destacou que o número de recomendações recebidas por seu líder é o maior registrado por um candidato desde 2015.

A vantagem parlamentar, entretanto, não garante que Eisenkot conseguirá construir uma maioria governista. O campo contrário a Netanyahu reúne partidos com profundas divergências políticas, ideológicas e religiosas, especialmente sobre a participação de representantes da população árabe na futura administração.

Oposição reúne maioria, mas enfrenta divisões internas

Os partidos que recomendaram Eisenkot estão divididos em dois blocos principais. Quatro legendas judaicas somam 48 cadeiras, enquanto dois partidos árabes reúnem outros 19 parlamentares.

Embora as seis siglas tenham apoiado a indicação do líder do Yashar, três dos partidos judaicos resistem à possibilidade de integrar uma coalizão com representantes árabes.

Essa contradição constitui o principal obstáculo para a formação de um governo capaz de substituir Netanyahu de maneira estável.

A coalizão que sustentava o atual primeiro-ministro conquistou 53 cadeiras nas eleições. Entretanto, o partido ultraortodoxo Judaísmo Unido da Torá, que elegeu sete parlamentares, não recomendou Netanyahu nas consultas presidenciais.

A decisão pode abrir espaço para uma recomposição política que permita a Eisenkot conquistar o apoio de setores religiosos tradicionalmente associados à direita israelense.

Segundo a emissora Channel 12, Avigdor Liberman, líder do Yisrael Beytenu, estaria disposto a reconsiderar sua oposição histórica à participação de partidos ultraortodoxos no governo, caso essa aproximação seja necessária para afastar Netanyahu do poder.

Entre as alternativas discutidas estaria um acordo de alternância no cargo de primeiro-ministro entre Eisenkot e Liberman. As negociações também envolveriam o serviço militar obrigatório dos ultraortodoxos, uma das questões mais controversas da política israelense.

Partidos árabes querem mudança e denunciam discriminação

O apoio dos partidos árabes foi decisivo para assegurar a Eisenkot a maioria das recomendações parlamentares.

O Ra’am, liderado por Mansour Abbas, manifestou apoio à indicação do líder do Yashar, embora persistam divergências sobre as condições estabelecidas para uma eventual participação no governo.

Eisenkot exige que seus futuros parceiros reconheçam formalmente o Hamas como organização terrorista. Durante a reunião com Herzog, Abbas não fez esse reconhecimento de maneira explícita, embora já tenha condenado o terrorismo e a violência política e defendido o desarmamento do Hamas e sua retirada do poder.

Abbas também rejeitou a ideia de que a presença de representantes árabes comprometeria a segurança nacional.

“Afirmar que nossa presença em um governo impediria um gabinete ou governo de defender os cidadãos israelenses não está certo”, declarou.

O dirigente criticou ainda os repetidos “testes de lealdade” impostos aos políticos árabes, que considera discriminatórios.

Representantes do partido também fizeram duras críticas ao ambiente político criado por Netanyahu e seus aliados.

Yoav Segalovitz classificou o debate público israelense como “tóxico” e responsabilizou o atual primeiro-ministro pela radicalização.

Segalovitz também atacou o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, lembrando que ele foi condenado em 2007 por incitação ao racismo e apoio a uma organização terrorista judaica.

Lista Conjunta admite apoiar governo minoritário

A Lista Conjunta, que terá 11 cadeiras no novo Parlamento, também recomendou Eisenkot.

Seu presidente, Yousef Jabareen, afirmou que a decisão reflete o desejo de mudança dos eleitores árabes, que enfrentam, segundo ele, racismo, discriminação, criminalidade e exclusão política sob a atual coalizão.

“Não estamos escolhendo entre o bom e o melhor, mas entre o que consideramos ruim e ainda pior”, declarou.

Jabareen reconheceu que existem divergências importantes entre seu partido e Eisenkot, inclusive em relação à postura do líder do Yashar diante de declarações consideradas hostis à população árabe durante a campanha eleitoral.

O parlamentar Ahmad Tibi afirmou que a Lista Conjunta poderia oferecer apoio externo a um governo minoritário, sem necessariamente integrar o gabinete.

Ele advertiu, porém, que o partido não pretende sustentar uma administração incapaz de sobreviver politicamente.

“Se apoiarmos um governo de fora, não queremos dar a ele uma rede de segurança apenas para derrubá-lo um, dois ou três meses depois”, afirmou.

A posição abre a possibilidade de uma solução parlamentar alternativa, na qual Eisenkot governaria com uma coalizão menor, contando com o apoio externo de partidos árabes em votações decisivas.

Aliados rejeitam novo acordo com Netanyahu

Os representantes do B’Yachad também recomendaram Eisenkot, mas demonstraram preocupação com a estabilidade de uma futura coalizão.

A parlamentar Merav Cohen descreveu o líder do Yashar como “uma pessoa extraordinária” e afirmou acreditar em sua capacidade de formar governo.

Entretanto, rejeitou a possibilidade de repetir experiências anteriores de unidade com Netanyahu, citando o fracasso de acordos firmados entre o atual primeiro-ministro e Benny Gantz.

“Os acordos foram quebrados, um após o outro. Em vez de ajudar meu país, eu o prejudiquei. Aprendi com isso. Aprendi a não fazer negócios com escorpiões”, declarou.

O ex-chefe do serviço de segurança interna Shin Bet, Yoram Cohen, que representa o Yashar, também defendeu uma mudança de liderança.

Segundo ele, a elevada participação popular nas eleições demonstra o desejo dos israelenses de encerrar o atual ciclo político.

“Seria errado ignorar o desejo de mudança das pessoas e ir para outra rodada de eleições”, afirmou.

Cohen responsabilizou Netanyahu pela polarização política e pelos ataques às instituições do Estado, além de criticar declarações depreciativas contra cidadãos árabes.

O Yashar pretende negociar inicialmente com os partidos oposicionistas e, posteriormente, buscar o apoio de outras legendas dispostas a aceitar seus princípios políticos.

O partido descarta, contudo, integrar um governo de unidade liderado por Netanyahu.

Likud tenta preservar espaço no poder

Diante da perspectiva de perder o comando do governo, o Likud passou a defender a formação de uma coalizão nacional ampla, composta por partidos judaicos sionistas.

O ministro da Educação, Yoav Kisch, argumentou que Israel não deveria ser governado por uma coalizão dependente de partidos árabes, aos quais atribuiu apoio ao terrorismo.

A ministra dos Transportes, Miri Regev, também atacou Eisenkot e seus aliados, acusando-os de tentar formar governo com a Lista Conjunta.

Herzog contestou a interpretação, lembrando que Eisenkot não havia anunciado disposição para integrar representantes daquele partido ao gabinete.

O presidente também criticou a linguagem adotada pela ministra, ao observar que não seria possível construir pontes políticas por meio de ataques aos possíveis interlocutores.

Fim da era Netanyahu depende da formação de uma maioria estável

A indicação de Eisenkot representa uma mudança significativa no equilíbrio político israelense, mas ainda não significa o afastamento definitivo de Netanyahu.

O líder do Yashar precisará transformar as recomendações recebidas em uma coalizão capaz de conquistar a confiança do Parlamento e sustentar um governo diante de divergências sobre segurança, participação política dos árabes, relações entre Estado e religião e serviço militar.

O resultado eleitoral, entretanto, já evidencia o enfraquecimento do atual primeiro-ministro, cuja trajetória foi marcada por sucessivas coalizões de direita e pela crescente influência de setores religiosos e ultranacionalistas.

A eventual chegada de Eisenkot ao poder poderá inaugurar uma nova etapa na política israelense, embora a composição do futuro governo ainda esteja indefinida.

A decisão de Herzog, prevista para domingo, será o primeiro passo formal para determinar se a maioria parlamentar contrária a Netanyahu conseguirá transformar sua vitória política em uma efetiva mudança de governo.

FOTO: Chairman of the Joint Chiefs of Staff from Washington D.C, United States

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/eisenkot-tera-chance-de-formar-governo-em-israel-encerrando-a-era-netanyahu/