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Em discurso no G7 e na presença de Trump, Lula critica “protecionismo e unilateralismo”

“Ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou o presidente.

247 – Em discurso no G7 e na presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente Lula (PT) criticou nesta terça-feira (16), em Évian, na França, o avanço do “protecionismo e unilateralismo” como respostas à crise internacional, ao afirmar que essas saídas “ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”.

A declaração foi feita durante a reunião ampliada do G7, no segmento dedicado ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”. Lula agradeceu ao presidente Emmanuel Macron pelo convite e lembrou que, em 2003, uma de suas primeiras agendas internacionais como presidente do Brasil foi justamente a participação na Cúpula do então G8, também realizada em Évian.

Lula afirmou que, desde então, participou de outras nove cúpulas do G8 ou do G7, sempre em meio a crises e desafios com impacto sobre milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo. Segundo ele, apesar da repetição desses encontros, a comunidade internacional não conseguiu construir respostas coletivas e duradouras.

O presidente criticou o que chamou de dogmas baseados na desregulamentação dos mercados, no Estado mínimo e na austeridade fiscal como objetivos em si mesmos. Para Lula, o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que atingem as democracias. “Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou.

Lula também destacou que a distância entre a prosperidade de Évian e a realidade vivida por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Segundo ele, nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres aumentou, enquanto a concentração extrema de riqueza reflete décadas de políticas favoráveis aos bilionários.

O presidente afirmou que o mundo caminha na contramão da Agenda 2030. De acordo com ele, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, enquanto a COP-30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados.

Para Lula, a implementação do Acordo de Paris exige a ampliação do financiamento climático para, pelo menos, US$ 1,3 trilhão. Ele disse ainda que, enquanto os desafios globais se multiplicam, a solidariedade internacional encolhe.

O presidente citou a queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento no ano passado, além da perda de cerca de 40% do financiamento do Programa Mundial de Alimentos. Também mencionou reduções superiores a 20% nos orçamentos da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF.

“Não são cifras abstratas”, disse Lula. Ele afirmou que esses cortes afetam diretamente o cotidiano de pessoas em países em desenvolvimento, com impacto sobre o acesso à alimentação, à educação, à proteção de mulheres e à prevenção de doenças em comunidades vulneráveis.

Lula também criticou o peso das guerras e conflitos na agenda internacional. Segundo ele, os gastos militares anuais chegam a quase US$ 3 trilhões, enquanto o mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos.

O presidente defendeu a correção das desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas distribui oportunidades de forma assimétrica. Para ele, a Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento apontou uma direção adequada, embora a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento continue sendo responsabilidade primordial dos Estados.

“Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, afirmou.

Lula disse que o problema central não é a escassez, mas a falta de implementação e de vontade política. Ele citou mecanismos como a troca de dívida por ação climática ou por investimentos sociais como instrumentos capazes de ampliar o espaço fiscal dos países mais vulneráveis.

O presidente também apresentou iniciativas defendidas pelo Brasil. Entre elas, mencionou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, voltado a canalizar investimentos para a conservação do bioma e de seus habitantes, e a Aliança Global contra a Fome, criada para compartilhar experiências e apoiar políticas públicas de redução das desigualdades.

Lula ainda citou o Painel Internacional sobre Desigualdade, proposto pela presidência sul-africana do G20, como ferramenta para apoiar, com dados e evidências, a formulação de respostas coordenadas ao problema.

Na área de segurança, o presidente afirmou que crimes transnacionais também devem integrar a agenda de desenvolvimento. Ele destacou o crime organizado, que, segundo ele, aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser usados na construção de escolas, hospitais e estradas.

Lula defendeu que esse enfrentamento respeite a soberania dos Estados. Segundo ele, a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo positivo, mas o combate ao narcotráfico não pode ser separado de outros ilícitos, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas.

O presidente também defendeu o fortalecimento do diálogo e da cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, para localizar ativos e indivíduos vinculados a atividades criminosas.

No fim do discurso, Lula afirmou que o acesso a tecnologias de ponta, como a Inteligência Artificial, também precisa fazer parte do debate sobre desenvolvimento. Ele disse que as transições energética e digital não podem repetir padrões históricos de concentração de benefícios econômicos em poucos atores.

Segundo o presidente, países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais.

Foto: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/em-discurso-no-g7-e-na-presenca-de-trump-lula-critica-protecionismo-e-unilateralismo